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o blog do Davi Jr.

RESENHA: Bleach, a saga da Soul Society

Seja no cinema, em um livro ou na hora de dormir, uma história precisa ser bem contada, ter personagens cativantes e uma linguagem que fascine a que com ela tem seu primeiro contato. Seja no Brasil ou no Japão, contos fantásticos vão além da cultura local ou dos valores vigentes, atingindo os pontos mais sensíveis da alma humana. Bleach é o fenômeno japonês que invadiu o mundo não por obedecer essas idéias, mas por ir além dela, mostrando que mesmo numa sociedade habitada somente por mortos, é no coração humano que repousa o fascínio e a inspiração da alma pela vida.

SUBSTITUTO DE SHINIGAMI

É comum na classificação de uma longa história a divisão de suas partes em “sagas” ou “arcos”, em Bleach não é diferente e o primeiro arco da história é comumente chamada de arco do Substituto de Shinigami. Porém, como esta leva da história não passa de uma preparação para o arco a seguir esta resenha irá abordá-la como parte de um primeiro grande todo da história, estando dentro do que é chamado de Saga da Society. Esta saga compreende os volumes do 01 ao 20 do mangá e os episódios do 01 ao 63 do anime.

E que grande história! Bleach já soma mais de 50 volumes de mangá, mais de 300 episódios animados para a TV, 4 longa-metragens e está presente em dezenas de países. Quem observa este número de conquistas não imagina a longa trajetória por qual a história passou para até o ponto que a consolidou com uma das franquias mais rentáveis do Japão.

O autor da história, Tite Kubo, já havia idealizado a história desde os anos 90, época em que ele entregou os primeiros capítulos da história, já desenhados, para serem publicados na Shonen Jump, maior revista de histórias em quadrinhos do Japão. Porém, pela proximidade do tema com Yu Yu Hakushô e um estilo muito similar ao de Samurai X, duas publicações da Jump que haviam virado febre no Japão nos anos 90, Bleach foi rejeitado pela revista.

Com seus esforços não recompensados, Tite Kubo chegou a quase desistir da carreira de mangaká, publicando nos próximos anos apenas alguns poucos one-shots sem grande repercussão e Bleach só voltaria na vida do autor alguns anos depois quando, por obra do destino, cópias de seus primeiros capítulos desenhados foram parar na mão de Akira Toriyama, o consagrado autor de Dragon Ball.

A chegada de Rukia a cidade de Karakura dá início a história.

Maravilhado com o que viu, Toriyama aconselhou que Tite Kubo voltasse a dedicar algum tempo ao mangá, o que resultou numa nova análise da revista Jump e na tão aguardada aprovação cobiçada pelo autor. Era a sua oportunidade de contar para o mundo a história do adolescente de cabelos laranjas que não imaginava que sua estranha capacidade de poder ver espíritos mudaria sua vida para sempre.

A MORTE E O MORANGO

O primeiro capítulo do mangá não poderia ter melhor nome. O ponto inicial do anime acontece quando o protagonista Ichigo Kurosaki acaba recebendo os poderes de shinigami de Rukia Kuchiki, a responsável da cidade da fictícia cidade de Karakura em salvar as almas que se tornaram hollows, espíritos humanos que se tornaram monstros espirituais por se prenderem a algo na terra que os impediu de ir até a Soul Society após a morte.

Ichigo, em japonês, significa morango e Rukia é uma shinigami, literalmente deus da morte mesmo que na adaptação brasileira o termo tenha sido modificado para ceifeiro de almas. O encontro do morango com a morte possibilitou não apenas uma mudança radical na vida de Ichigo como também a criação de um time de personagens de primeira para compôr a história do anime no arco do substituto de shinigamis.

Ao ganhar poderes espirituais devido a convivência com Ichigo e por ter uma rivalidade secular com shinigamis, Orihinme Inoue, Sado Yasutora (ou soment Chad) e Uryuu Ishida, o último quincy, se tornam personagens de variados estilos de luta que apresentam o universo de Bleach ao leitor/espectador ao mesmo tempo que ganham destaque na história junto ao protagonista.

Inicialmente como rival de Ichigo, Ishida ganha destaque como personagem!

É interessante notar o ciclo que se tem início neste arco, já que além de definir o leque de personagens em torno dos quais a história vai girar, o quinteto formado corresponde a cinco personalidades ideais para que o espectador crie um vínculo com a história, acompanhando-a para saber como tais esteriótipos corresponderão as situações que lhes serão impostas. E isso vai se desenvolvendo cada vez mais a cada novo elemento acrescentado a história, principalmente com a chegada de Byakuya Kuchiki e Renji Abarai a cidade de Karakura.

A SOUL SOCIETY

Se antes a principal característica de Rukia era a sua personalidade forte e autoritária diante das tarefas passadas para Ichigo, sua conversão a obediente e submissa soldada da Soul Society surpreende a todos quando Renji e Byakuya, respectivamente tenente e capitão do sexto esquadrão de defesa da Soul Society, levam-na para a Soul Society por ela ter cometido o crime de passar poderes de shinigami a um humano e viver como uma humana com o uso de um gigai (corpo utilizado por almas para se materializar na terra).

Após um treinamento cedido por Urahara, dono da loja que Rukia comprou seu gigai,  para recuperar seus poderes de shinigami tirados por Byakuya, Ichigo segue rumo a Soul Society para salvar Rukia da sentença de morte, já que é graças aos poderes que ela lhe cedeu que ele pode se tornar forte o suficiente para proteger a sua família, uma maneira de tentar se absolver da culpa por ter causado, mesmo que sem querer, a morte de sua mãe por um hollow.

Acompanhando Ichigo em sua empreitada, estão todos aqueles que tiveram sua história iniciada pelos eventos ocorridos antes da partida de Rukia, cada um seguindo um objetivo próprio além do resgate da shinigami. Ishida quer entender o porquê da morte de seu avô quincy pela inação de um shinigami, Inoue quer garantir que os obejtivos de Ichigo sejam concretizados e Chad quer cumprir a promessa que fez ao amigo quando se conheceram: proteger as costas de um amigo que sofria com os mesmo problemas que o dele.

"Vou proteger suas costas" é a promessa de Chad para Ichigo!

Apesar das referências, talvéz até involuntárias, a Yu Yu Hakushô e a Samurai X, é nesta fase que as verdadeiras inspirações de Tite Kubo começam a ficar mais evidentes. Revelado pelo próprio autor, as entidades sobrenaturais são inspiradas nos monstros de GeGeGe no Kitaro, mangá de Shigeru Mizuki, publicado na década de 50. Já o estilo de luta RPG, um ataque e outro defende, aliado a dramaticidade dos textos e flashbacks, tem sua origem em Saint Seiya (Os Cavaleiros do Zodíaco, no Brasil), de Masami Kurumada, publicado na segunda metade dos anos 80. As batalhas na Soul Society, além de impressionar os olhos de quem vê, dão ainda mais força a história e a personalidade de cada personagem.

CICLO DE UM PERSONAGEM

Todo personagem tem um ciclo: ele nasce, vive e morre. Seu nascimento acontece na primeira vez que ele figura na história, mas sua morte não significa necessariamente o seu falecimento, mas mantê-lo vivo depende de todo o universo, do contexto e dos elementos inseridos no decorrer da história a ele relacionado.

Assim como foi com os cavaleiros de ouro em Saint Seiya, o Gottei 13, os treze esquadrões de defesa da Soul Society, adicionaram diversos elementos que possibilitaram o crescimento e o amadurecimento de cada personagem. Mesmo que muitas vezes fique claro que o insight de determinada sequência tenha ocorrido depois de seu planejamento, tudo o que foi acrescentado durante a saga do Soul Society contribuiu para o fortalecimento da história e, principalmente, de seu universo criativo.

A entrada de Ganju, foi o ponto crucial para atiçar a curiosidade sobre o passado de Rukia. A criação do Bankai, motivou uma causa para se conhecer os 13 capitães. E por fim, o assassinato de Sousuke Aizen, capitão do 5º esquadrão, possibilitou o desenvolvimento da personalidade dos 13 capitães que refletiu diretamente em como o quinteto de protagonistas se mostrou na história, onde nem todos puderam aproveitar as possibilidades criadas pelo autor.

A paixão de Orihime por Ichigo leva a garota até a Soul Society.

Ishida, que mesmo declaradamente inferior a Ichigo, mostrou que havia muito o que desenvolver após derrotar Kurotsuchi Mayuri, o capitão do 12º Esquadrão, mesmo ambos tendo uma diferença gigantesca de poder. A utilização do armamento quincy para utilizar um poder que ainda não possuia faz o próprio Mayuri reconhecer que Ishida ainda pode crescer muito como lutador, mesmo este tendo perdido todos os seus poderes após a luta. Se a dificuldade inicial era conseguir o poder que ele despertou (maior que a dos capitães), o plano a seguir seria dominar tal técnica para garantir a permanência do personagem no decorrer da história.

Orihime cresceu, mas foi diferente. O ciclo de batalhas que a personagem poderia vir a ter após um treinamento antes da Soul Society mostrou-se ineficaz na personagem, mas esta trocou o papel de lutadora (já muito bem suprido por Ichigo, Ishida, Chad e todos os outros aliados que a Soul Society produziu) para se tornar uma espécie de maga branca, personagem clássico dos RPG’s responsável pela cura dos personagens, papel essencial, participativo e muito mais adequado a sua personalidade.

O problema aconteceu apenas com Chad. Mesmo após toda a campanha inicial do personagem (inclusive pelas frases de efeito de Ichigo) e a aparente força desenvolvida durante o treinamento pré-soul society, o personagem perdeu o ritmo e não deu conta de surpreender o leitor/espectador com sua participação na saga. Provavelmente isso foi fruto da extrema ligação com Ichigo que Tite Kubo criou durante a criação da origem do personagem, mas que erroneamente foi esquecida, separando ambos, durante o desenrolar do caminho dos dois na Soul Society.

PROTAGONISTA PRA NINGUÉM POR DEFEITO

Apesar da linha inicial se aproximar bem de Os Cavaleiros do Zodíaco, com um time de personagens a qual a história gira, Bleach acabou se aproximando muito mais da linha de Dragon Ball, onde apenas o protagonista leva a história em sua reta final, deixando Ichigo com o papel definitivo para finalizar a saga e utilizando personagens secundários para apoiá-lo.

Visto que todos os personagens tem um ciclo, é o ciclo de história do protagonista que dá apoio a história e é quando este acaba é que a história tem fim. Durante as lutas com Renji e Kenpachi Zaraki Ichigo pode crescer como protagonista, mas foi apenas na luta final contra Byakuya que o ciclo do personagem reflete diretamente como guia do universo criado.

Ideologicamente, este é o personagem que vai contra os preceitos de uma sociedade mesquinha e egoista, mascarada em uma série de classes que parecem manter a ordem e ter tudo sobre controle. Byakuya é o personagem que mais reflete os ideais dessa sociedade e a vitória de Ichigo sobre ele garante a vitória do protagonista sob aquilo que ele combateu durante toda a história.

Entrementes, Ichigo apenas conseguiu a vitória por ser dominado por sua consciência hollow, que habita nele após o seu treinamento com Urahara, mostrando que mesmo vencendo aquilo a que combateu, ainda resta uma luta introspectiva que insiste em destruir o que ele conquistou e que pode dominá-lo a qualquer hora.

O lado hollow de Ichigo deixou Byakuya sem reação em sua luta definitiva.

Com o fim de Bykuya, a sensação do apreciador da história é que tudo teve um fim, mas ao se recordar do contexto que levou até a luta dos dois shinigamis, provocando uma série de lutas a la capitães versus capitães, parece que um obstáculo não aparente precisa ser vencido pelos protagonistas e é aí que entra a influência de todo o contexto do universo criado por Tite Kubo.

O MELHOR FIM DE SAGA QUE UM ANIME JÁ TEVE

Não há nada melhor para um espectador que perceber que todos os pequenos elementos que rodeiam a história principal fazem parte de um todo com total influência no enredo primordial. Não há melhor descrição para o fim da Saga da Soul Society de Bleach.

Após a luta contra Byakuya, descobre-se que a sentença de morte de Rukia era parte de um demoníaco plano que Sousuke Aizen arquitetou com a sua própria morte para conseguir o Hougyoku, artefato criado por Urahara e implantado no espírito de Rukia, sem ela saber, quando esta utilizou um de seus gigais. Com o Hougyoku, Aizen poderia unir os poderes dos shinigamis com os dos hollows, produzindo seres e depertando poderes nunca antes imaginados pelas forças do Gottei 13.

Com a revelação de Aizen após a luta contra Toushiro Hitsugaya, capitão do 10º esquadrão, e o roubo a liberação forçada do Hougyoku do corpo de Rukia, o traidor vai  junto com Ichimau Gin, o capitão do 3º Esquadrão, e Kaname Tousen, capitão do 9º Esquadrão, para o Hueco Mundo, lugar onde habitam os hollows, para colocar em prática suas ambições de transformar hollows em shinigamis e formar um exército pessoal para por um fim na Soul Society.

Com um rosto inocente e uma aura de justiça aparentemente inabalável, Aizen enganou a todos.

Mostrando-se presente em todas as etapas da história, Aizen se tornou o ideal perfeito de vilão da história que faltava em Bleach, unindo a todos os pontos injustos e cruéis enfrentados pelos protagonistas em um só grande contexto.

Com um final de saga épico, Bleach abriu espaço para um continuação espetacular, cheia de possibilidades de utilização de personagens, criação de novos inimigos e aprofundamento do contexto inicial dos hollows história, que pareceu se perder com a ida de Ichigo a Soul Society mas que se mostrou essencial para a continuação da história de Aizen.

RESENHA: Fate/stay Night – The Unlimited Blade Works

Todos tem um herói interior. O ser que se levanta nas horas mais dificeis, supera obstáculos e faz feliz a todos aqueles que ama. O modelo de herói é sempre externo, vem do homem com capa e espada da tv, da amazona guerreira dos quadrinhos ou mesmo do pai que sempre sorri quando o filho chega da escola. Fate/stay Night – The Unlimited Blade Works conta a história de um héroi herdado no passado de um ente querido que volta do futuro para acabar com seus sonhos.

LEMBRANÇAS DE UM REI

Para quem ainda não assitiu a série regular de Fate/stay Night (clique aqui para ler a resenha) não é recomendável que comece a sua jornada por seu universo com o filme The Unlimited Blade Works. Isso porque o longa conta, de início, a mesma história da série que lhe deu origem, porém, passa por cima de muitos elementos essenciais para sua total compreensão.

Além disso, uma de suas principais contribuições é a mudança de foco que o filme provoca em comparação a série original, fazendo deste o maior atrativo para quem já assistiu as duas obras.

Num primeiro instante, parece impossível imaginar Fate/stay Night sem o seu principal atrativo, Saber, mas logo no início a guerreira que encarna o espírito heróico do Rei Arthur fica em segundo plano em The Unlimited Blade Works, que só pelo nome já dá a dica do personagem a que a produção é voltada.

Na série original um dos personagens mais cativantes e mais pouco explorados enquanto vivo foi o espírito heróico que Rin Tosaka convocou erroneamente enquanto tentava convocar um guerreiro da classe espadachim: o arqueiro Archer.

Rin e Archer ganham destaque no longa!

O guerreiro de cabelos brancos era um cara frio, além de centrado e obediente aos desejos de sua mestra. Porém, o personagem conquistou a todos quando, contrariando essa personalidade, durante o ponto alto de sua participação na primeira série, demonstrou seu espírito passional ao transmitir a Emiya Shirou, o protagonista da série e mestre de Saber, a origem de seu poder e como poderia crescer como mago, fato essencial para o desenrolar de toda a trama que se seguiu. Além disso, o mesmo se sacrifica pela segurança de Rin, Shirou e Saber ao enfrentar o gigante Berserker, espírito heróico do semi-deus Hércules e servo da pequena Illya.

ARQUEIRO SEM PASSADO

Esqueça o Rei Arthur, a segunda vida de Saber e o romance de Emiya com sua serva. Em The Unlimited Blade Works, a história dos protagonistas é outra e o papel de Archer é fundamental.

Do mesmo jeito que na série original, Archer inicia sua participação sem conhecer seu passado, porém sua atitude é bem diferente do que realiza na série anterior. Provocador, meticuloso e por vezes traiçoeiro, o espírito heróico nunca concordou com a idéia de Rin em se juntar com Emiya durante a Guerra do Cálice Sagrado e por vezes tenta matá-lo.

O cúmulo dessa sua atitude acontece quando ele abandona sua mestra e aceita, por iniciativa própria, se tornar servo de Caster, o espírito heróico da feiticeira Medéia da mitologia grega que dessa vez compreende papel essencial pra o desenvolvimento da história do filme.

Apesar de ser o principal destaque da série original, Saber fica de lado neste filme.

Assim como era com Berserker na primeira série, Caster é temida por todos os outros mestres, já que é a causadora de diversos ataques a humanos para o recolhimento de energia que servirá de base para a invocação do cálice e a responsável pela morte de Rider, a serva de Shinji que, assim como Illya, teve sua participação totalmente mudada neste filme.

REVELAÇÕES

O universo de Fate/stay Night é muito atrativo por conseguir conciliar elementos de vários gêneros literários e combiná-los numa única obra. O romance é essencial no decorrer da história, mas neste filme ele acontece de maneira diferente.

Sequestrada por Caster grande parte do filme e serva de Tosaka em determinado ponto, já era de se esperar que não seria Saber o casal de Emiya neste filme. Parceira do protagonista durante todo o tempo, seu guia pelo mundo mágico recém descoberto e abandonada por Archer, é Rin que cria sentimentos pelo garoto, que sozinhos, não tem outra opção a não ser confiar um no outro durante a guerra pelo cálice.

É tentando salvar Rin da orgia de parcerias que acontecem entre o ganâncioso Shinji, o falso padre Kotomine, o servo resguardado da última geurra Gilgamesh (também da classe arqueiro), Archer e Lancer; Shirou se depara com a maior revelação e o principal atrativo do filme: a origem de Archer é nada mais nada menos que o próprio Emiya!

Archer é Shirou? Então porque um tenta matar o outro?

Complicado? Nem tanto, mas como em todo o universo da série, é necessário uma boa dose de criatividade para interpretar o que acontece. Após ser salvo por seu pai adotivo durante o incêndio que ocorreu durante a quarta Gerra pelo Cálice Sagrado (a do filme e a do anime é a quinta, que acontecesse 10 anos após a quarta) Emiya sempre teve seu pai como imagem de héroi perfeito. “Eu quero ser um defensor da Justiça” foi a frase do falecido pai que sempre marcou a vida Shirou.

Com a experiência mágica e as lições aprendidas durante a Guerra Pelo Cálice Sagrado, o fim da história possibilita que Shirou se torne o herói que a cidade de Fuyuki e todo o mundo precisa e a existência de Archer é a prova cabal que é esse o seu futuro, já que a invocação de Rin é a do espírito heróico vindo do futuro que Shirou ainda se tornaria após o fim da guerra.

A justificativa da invocação também não foi um ponto sem nó. Não existem regras para o tipo de espírito que o mestre invoca para entrar na guerra, mas os sentimentos que Rin nutriu por Shirou seria uma boa justificativa para a invocação deste ao invés de um da classe espadachim que a garota, com seus talentos mágicos, certamente conseguiria invocar.

Mas o que deveria ser o encontro do veterano com o iniciante, cai por espada abaixo, pois Archer tem verdadeira obsessão pela morte de Shirou, uma tentativa de apagar seu passado para evitar o futuro que ele, como herói, teria que enfrentar se Shirou vencesse a Guerra pelo Cálice. A luta final dos dois não poderia acontecer em melhor estilo,  dentro do próprio The Unlimited Blade Works, golpe mais poderoso de Archer nas duas séries.

Mistérios acerca do principal golpe de Archer são traçados!

UM NOVO CONTO DE CAVALARIA MODERNA

I am the bone of my sword.
Steel is my body and fire is my blood.
I have created over a thousand blades.
Unknown to death,
nor known to life.
Have withstood pain to create many weapons.
Yet those hands will never hold anything.
So as I pray, Unlimited Blade Works.

É com essas palavras que o filme tem início e é com elas que todas as sequências mais exaltantes acontecem, transformando o filme, assim como a série a que a origina numa verdadeira obra-prima da animaçao japonesa.

Apesar do início excessivamente dinâmico para apresentar os personagens e o contexto da Guerra pelo Cálice Sagrado (que fica um tanto quanto confuso para qum não assistiu a série original) e a falta do enredo base de Saber, o filme The Unlimited Blade Works é  complemento perfeito para a série original, com o longa apresentando a solução de muitas lacunas que o fim do anime deixa para o espectador.

Além disso, a principal contribuição do filme é o embate ideológico que o presente sonhador tem quando enfrenta o seu próprio futuro frustrado. Estes dois pontos de vista talvéz sejam os mais conflitantes entre jovens e adultos, educados e condicionados a contextos sociais que embora pareçam movidos pelos mesmo fatores, apresentam sonhos e ideais tão distantes entre si.

Ambas as idéias se misturam numa sintonia tão perfeita que o espectador se sente na pele do próprio Shirou lutando para não se desapegar do futuro que após tanto almejar, decide frustrá-lo. Mais que um filme, The Unlimited Blade Works é mais um clássico de cavalaria moderna que o visionário Nishiwaki Datto conseguiu agrupar tão bem dentro de um universo que ainda tem muito a ser explorado.

RESENHA: Samurai Sentai Shinkenger

A figura do samurai sempre foi muito cultuada no Japão e sinônimo do país para o ocidente. E não é para menos, todos os anos, os japoneses produzem dezenas de histórias com referências a esses guerreiros. Seja diretamente, como em Samurai X e Vagabond, ou indiretamente, em histórias de espada e kimono como Bleach, o samurai sempre está lá, representando toda a força e dedicação do povo japonês. Samurai Sentai Shinkenger foi a série Super Sentai que abordou a temática em 2009, e assim como os samurais, conseguiu resgatar todos os valores que a franquia havia perdido ao longo dos anos.

OS SENTAIS DOS 2000

Após as quebras de padrão iniciadas em Flashman (leia a resenha aqui) e as inovações criadas nos anos 90, o Super Sentai se tornou uma série consolidada no mercado japonês, sendo sempre garantia de retorno para as empresas envolvidas. Se os altos e baixos que a franquia sofreu nos anos 80 perturbava e por vezes se cogitou seu fim, nos anos 2000 a história era bem diferente: com a audiência  regular, um horário fixo e a injeção de fundos anual que a Disney e a Saban deram a Toei Company com a compra da séries para serem veiculadas no mundo como Power Rangers, a situação não poderia ser mais confortável.

Porém, essa acomodação e a transformação de inovação em regra acabou prejudicando o desenvolvimento do enredo dos Super Sentais. Com o sucesso de séries com enredo enredo extremamente infantilizado, como Abaranger e Caranger todas as séries dos anos 2000 passaram a focar esse enredo.

Parece estranho elucidar que uma série voltada para crianças não devesse ter um enredo infantil, mas é fato que desde o nascimento das séries tokusatsu, estas séries sempre possuíram um enredo mais dramático, geralmente cunhada em elementos da ficção científica. Com o chamariz das roupas coloridas, o enredo da séries serviam para, entre outras coisas, o amadurecimento da criança que a assiste, uma analogia ao que acontece com o personagem no decorrer das séries, como é muito visível em Jaspion (leia a resenha aqui).

Como líder do clã Shiba, Takeru permanece distante do grupo, isto está relacionado ao seu fatídico destino.

Entre uma e outra série que parecia um pouco mais virtuosa, parecia que o cenário só pioraria, tendo até séries Power Rangers mais espirituosas que seu irmão japonês (como acontece na relação Go-Onger e Power Rangers RPM). Felizmente, os super sentais tiveram uma revolução em 2009, quando a série daquele ano resolveu utilizar um tema que, mesmo que óbvio, nunca havia sido explorado: samurais.

DO JAPÃO FEUDAL PRA O SÉCULO XXI

Para os fãs de primeira viagem, o tema samurai pode até parecer corriqueiro para uma série oriental, mas aos veteranos, parece incrível que um tema desse nunca tivesse sido explorado antes, já que o tema possui uma vasta herança cultural perfeita para o tipo de séries que são os Super Sentais.

Takeru Shiba, o ShinkenRed, é o 18º sucessor do clã Shiba, o clã responsável por combater e aprisionar o lendário monstro Chimatsuri Doukkoku. Doukkoku é o líder de gendoushus, seres folclóricos do Japão que vivem no terrível Rio Sanzu, que tem seu nível determinado pelos humanos: quanto mais tristes, enfadonhos e desesperados, mais o nível do rio sobe e aproxima a possibilidade de Doukkoku de invadir o mundo humano.

Toda vez que um humano olhar por alguma fresta, seja ela a rachadura de uma parede, o vão entre dois móveis ou qualquer outra coisa, cria a possibilidade de um gendoushu invadir o mundo humano para aterrorizar os humanos e fazer a água do Rio Sanzu subir.

Juuzou abandonou o bushido para seguir com suas ambições de batalha.

Takeru, por ser o herdeiro dos Shiba tem o título de Tono, ou senhor feudal, e lidera uma equipe de quatro vassalos, formados por jovens que se unem ao líder no primeiro episódio, também herdeiros de outros clãs que, historicamente, serviram ao clã Shiba todas as vezes que Doukkoku se libertava do selo dos Shiba e voltava a atacar a terra.

BUSHIDO

Mesmo para o japonês moderno, é dificil conciliar o passado místico dos samurais com a realidade e essa é a primeira abordagem que Shinkenger faz nos primeiros episódios, quando os traços de personalidade de cada um dos quatro vassalos é posta em conflito com a liderança de Takeru, mesmo que todos eles tenham recebido previamente treinamento samurai de sua família e estão consientes do seu dever.

O preceito básico do samurai é o Bushido, ou caminho do samurai. Entre outras coisas o Bushido rege que um guerreiro deve ser leal ao seu Tono, ter espírito marcial, cultivar a sabedoria milenar de seu povo, preservar sua honra e se sacrificar pelo seus ideias. Mesmo sem saber seu nome, a visão que o ocidental tem do japonês é bem descrita pelo Bushido, graças a histórica conduta do país país durante a II Guerra Mundial e a reerguida econômica do século XX. Ainda hoje, esse preceito esta enraizado nas famílias japonesas, seja no trabalho, na escola ou na vida pessoal, se adequando a cada dia à nova dinâmica do Japão contemporâneo.

Em Shinkenger, cada personagem tem a sua maneira de encarar o Bushido: enquanto o ShikenBlue, Ryunosukke, leva este ao extremo, mostrando atitudes exageradas (e até certo ponto infantis) perante a autoridade do tono, os outros três vassalos não acreditam que ela realmente determine sua conduta.

O grupo se une, mas demora para os cinco partilharem os mesmos ideais.

Mako, a ShinkenPink possui muitas dúvidas sobre sua submissão a Takeru pelo histórico de sua mãe que serviu ao Tono anterior e foi condenada a cadeira-de-rodas por conta disso. Enquanto isso, Kotoha, a ShinkenYellow, busca sempre agradar a ShinkenRed, já que sua entrada para o grupo de vassalos aconteceu devido a uma doença que atingiu sua irmã mais velha, a até então, herdeira da vestimenta amarela dos Shinkenger.

Chiaki, o ShinkenGreen, é o oposto de Ryunosukke. Folgado e irresponsável, ele nega a utoridade do Tono e só aceita entrar para a equipe quando se sente pressionado a superar a força de Takeru, que se mostra muito superior aos dos vassalos.

O estilo impessoal de Takeru incomoda muito aos vassalos e força física passa a não ser motivo suficiente, com excessão de Ryunosukke, para que ele lidere a equipe. Muitas intrigas internas abalam o grupo até eles conhecerem o motivo da conduta distânte do tono: apesar de ser um legado destinado a ele, Takeru não domina a técnica do selo para aprisionar Doukokku, estando todo o peso do fim-do-mundo sob sua responsabilidade.

Confie sua vida  a nós, que nós confíamos nossa vida a você“. A promessa realizada entre os cinco num momento de extrema necessidade é o ponto-chave para que Takeru comece a se aproximar dos seus vassalos. Mas nada é comparado ao efeito que a chegada do ShinkenGold provoca no grupo.

Além de sushiman, Genta é um gênio das artes e utilização do Mojikara!

O SUSHIMAN

Desde Zyuranger é comum que mais integrantes se unam a equipe inicial nos seriados super sentai, em Shinkenger não é diferente e além disso, a presença do sexto integrante provocou uma mudança essencial para o decorrer da trama.

Genta, o ShinkenGold, é um sushiman que acaba de chegar a cidade. Quando pequeno, ele era o melhor amigo de Takeru, que o presenteou com um disco de samurai. Com seu talento, Genta descobre os poderes utilizados na peça e se torna o sexto vassalo de Takeru, ou como ele prefere se definir: o sushiman da história, já que ele sonha se tornar um sushiman cinco estrelas.

A presença de Genta provoca uma mudança radical em Takeru, com uma parte de sua infância convivêndo com ele, o personagem que por vezes irritava com sua impessoalidade, se paroxima cada vez mais de seus vassalos, criando um ambiente harmonioso e amistoso como nunca antes visto na mansão dos Shiba.

1, 2, 3… 20 ROBÔS! E CRESCENDO!

Apesar do rico folclore, das inúmeras referências ao passado histórico do seu país, de uma trama pessoal criativa e de personagens cativantes, há conceitos que são impossíveis de se largar num super sentai dos anos 2.000: a quantidade exorbitante de robôs e suas inúmeras combinações.

Apesar de todo o desenvolvimento de uma trama, o que move um seriado tokusatsu são as vendas de brinquedos que este pode gerar, por isso a queda de qualidade já abordada não mudou os resultados da franquia. E Shinkenger também levou isso a sério.

O gigante Shinken Ha Oh é a combinação de uma série de mechas samurais!

Só nos primeiros 10 episódios, o jovem japonês já conta com 12 opções robôs, singulares ou combinados, que entram no seriado com mais velocidade que os planos de Doukokku. Com a chegada de ShinkenGold, um filme e a pressão de novos inimigos, o número chega a quase 30 no fim da história. O gigante robô Shinken Ha Ho, formado por quase todos os robôs, chega a ser um trambolho tão grande que os gigantes monstros parecem só um detalhe quando ele entra em ação.

Muitas vezes a quantidade de robôs atrapalha o ritmo da história que acaba se limitando por conta do tempo necessário para dar o devido crédito ao robô. Porém, muitos episódios se mostram muito eficientes, sendo o episódio duplo destinado ao robô touro Ushi Origami um dos episódios com melhor mensagem levada ao público.

DOUKOKKU QUEM?

Shinkenger é muito atrativo visualmente. Não só pelo uniforme, a variedade de robôs trilha sonora motivante e a qualidade dos monstros, mas pela ambientação histórica que diversos episódios mostram, todos perfeitamente combinados com o enredo.

O maior destaque para episódios voltados a essa ambientação é Juuzou, um humano que foi atraído pelas forças dos gedoushu através dos desejos de combate provocados por Uramasa, uma espada enfeitiçada que o transformou em metade humano e metade gedoushu. Com cabelos cumpridos, vestimentas de época e flashbacks de sua vida durante o Japão feudal, suas aparições sempre são motivos de atenção, já que sua principal ambição é vencer ShinkenRed, o único humano, segundo ele, capaz de lhe dar o prazer de uma luta verdadeiramente desafiadora.

A luta entre ambos acontece por diversas vezes, mas o combate decisivo dos dois acontece no que pode ser considerado o apogeu de toda a história.

Pegando a todos de surpresa, descobre-se que Takeru é na verdade um Kagemusha, uma sombra do real tono. Com a finalidade de proteger o real herdeiro dos Shiba, Takeru é escolhido para ficar no lugar de Kaoru Shiba, a real ShinkenRed, devido a sua grande habilidade com mojikara, a energia que move os golpes dos samurais.

Com achegada da Kaoru, Takeru é colocado numa ituação parecida com a de Juuzou, onde sua vida de samurai não tem mais sentido, mas o desejo de lutar continua. O que Takeru não entende é que a origem de seu desejo parte da proteção a terra, enquanto de seu rival de um desejo avarento e individualista.

Kaoru Shiba é a primeira mulher a liderar uma equipe super sentai.

No antigo Japão, apenas o samurai com a mais alta patente podia montado a cavalos, e é assim
que o embate final de Takeru com Juuzou acontece, mostrando não apenas a classe, mas elucidando a autoridade que cada um dos dois conquistou durante a série.

Enquanto isso, os vassalos se sentem vivendo numa mentira, mas não pelo título de um tono falso, mas pela perda de um líder que provou ser digno do seu posto. Eles vivem o drama de cumprir a obrigação de vassalo protegendo a princesa Kaoru e a distância de um amigo.”Seria mais fácil se ela fosse uma princesa detestável” diz Chiaki a Genta quando este tenta coagir o grupo a ir atrás de Takeru.

Com o fim de Juuzou, a luta contra contra Doukokku até parece desnecessária e apesar de bem produzida, não teve todo o impacto que a somatória do drama dos dois tonos teve na luta contra Juuzou.

SENTAI DE ÉPOCA

Agrupar, mesclar e criar poder ser a série de verbos ideais para descrever um robô gigante dos seriados Super Sentai, mas também são perfeitos para descrever o resultado final de Shinkenger.

Com um tema atrativo para espectadores de qualquer idade, conceitos e ideias aplicadas de maneira a criar um contexto criativo para o desenvolvimento da trama, Shinkenger provou que mesmo carregando o legado de 33 anos da franquia nas costas, é possível criar histórias criativas, envolventes e originais a partir de uma fórmula que vai sendo reformada e reutilizada todos os anos.

Toda vez que um espectador assiste a um tokusatsu, a comparação com uma possibilidade da mesma história ser contada em animação vem a cabeça, já que diversas cenas e sequências poderiam ser muito melhor executadas sob o traço e tinta japonês para expressar diversas situações que o limitante humano não consegue produzir num live-action.

A força do inimigo obriga os guerreiros a uma luta final sem vestimenta samurai!

Mas com Shinkenger é diferente. Todas as cenas, mesmo as mais complexas, foram tão bem moldadas para se adequar a situação de live-action que as possibilidades de um anime se torna desnecessária.

A mensagem, além de muito bem passada, consegue transmitir algo concreto ao espectador, algo não só momentâneo, mas reflexivo e duradouro, capaz de se incorporar os preceitos de amizade, união e responsabilidade ao seu dia-a-dia, criando laços tão fortes quanto a união dos vassalos com seu tono ou como o samurai com seu bushido.

Natal + amigos = família

Uma de minhas datas favoritas sempre foi o natal. Família, amigos, presentes, comida gostosa, tudo junto para celebrar a vida da maior referência de luta, persistência, justiça e bondade que humanidade pode ter. Porém, nesse ano, me senti praticamente o tempo todo no Natal, pois conheci tanta gente legal e fortaleci tantos laços com meus amigos que a união que nós já tinhamos se converteu em algo extremamente forte. Para eles e para todos que admiram o espírito de Natal tanto quanto eu, fica minha homenagem.

TechniAtto e A Fantástica Fábrica de Chocolate

Luzes ambientadas. Poltrona confortável. A ansiedade paira nos rosto de pais, alunos, amigos e demais espectadores. No palco apenas um telão apresentando uma gigantesca construção em ângulos dinâmicos. Por toda a platéia, uma música que deixa o clima cheio de fantasia e apreensão. Apagam-se as luzes após as considerações dos diretores. O público é apresentado ao inocente Charlie, sua amorosa família e o curioso Willy Wonka. É dado início a um dos maiores espetáculos já produzidos por uma companhia de teatro jundiaiense. Bem-vindo A Fantástica Fábrica de Chocolate.

“O ANFITEATRO NUNCA FOI TÃO DOCE”

Foi com essa frase singela, porém cheia de sabor, que os alunos das escolas e faculdades Padre Anchieta tiveram seu primeiro contato com a peça que fez todos rirem, se divertirem e se emocionarem, tanto pela performance dos atores que surpreendeu a todos os presentes durante as duas apresentações como pela adaptação tão criativa e bem elaborada como foi. O slogan acima não foi só um chamariz para um evento escolar, foi surpreendido mais do que bem produida pela Cia TechniAtto, que assina a peça.

A TechniAtto é uma companhia de teatro jundiaiense que existe há três, mas foi após uma parceria com as escolas e faculdades Padre Anchieta é que a companhia passou a chamar a atenção de todos os entusiastas da arte em Jundiaí.

Desde 2010, a companhia ficou responsável pelo curso de extensão em artes cênicas oferecido gratuitamente aos alunos de graduação do Ensino Superior e Ensino Médio da instituição. A iniciativa deu tão certo que já reune mais de 40 alunos e duas peças em seu port-fólio.

A primeira, Alice no País das Maravilhas, foi encenada pela primeira vez no ano passado e ultrapassou as barreiras do UniAnchieta, sendo apresentada na Sala Glória Rocha em junho desse e levada a um flash-mob no Parque da Cidade em outubro.

No comando de toda essa turma está Natalia “Nhoc” Carmelo que não pode ter escolhido citação melhor para dar início a primeira apresentação de A Fantástic Fábrica de Chocolate: Somos mais do MIL, somo UM.

FÁBRICA DE TALENTOS

Caiu do Umpa-Lumpa quem imaginou que o que encontraria no anfiteatro do Unianchieta nos dias 24 e 29 de novembro seria uma simples peça escolar. Quem esteve presente pode acompanhar uma produção profissional, com atores cheios de talento e uma sede de espetáculo surprendente.

Do sonho ao pessimismo: os quatro avós de Charlie compõem um mix de personalidades que se completam.

Logo na porta de entrada do anfiteatro do Uniachieta já era possível observar a criatividade da companhia. Assim como acontece em todo local de grandes apresentações artísticas, era possível ver um corinthiano cheio de gírias e fala mansa vendendo todo tipo de produtos que ele trouxe de “longe”. Entre o itens mais inusitados (e desejados!), havia os tabletes de chocolate Wonka. O corinthiano interagia com o público, fez bizarrices no palco, chamou a atenção do diretores e pouco antes do início da peça, foi expulso do local. Essa ação foi uma ação genial da companhia pois além de entreter o público até o início da peça ainda mostrava um pouco do talento que viria logo a seguir.

A Fantástica Fábrica de Chocolate é um clássico dos cinemas, não tanto por sua primeira versão nos anos 70, mas pela excelente produção e direção que Tim Burton produziu nos anos 2.000, seguindo fielmente a história original escrita por Roald Dahl e acrescentando detalhes que só o diretor é capaz e fazer. Assim, adaptar o filme para uma peça não é tarefa para poucos, mas a TechniAtto se saiu muito bem.

Logo após um vídeo para ambientar o clima de cidade grande e a pobreza da família de Charlie, o garoto sonhador que só come chocolates Wonka uma vez por ano, o público conhece alguns dos personagens mais carismáticos de toda a peça: os quatro avós de Charlie que não conseguem levantar da cama devido a idade avançada.

Enquanto o avô José (Marco Majer) é atencioso, esperançoso e cheio de vontade de contar histórias, o avô Jorge (Willian Penna) é o seu oposto, sempre pessimista e vendo as coisas pelo pior ângulo. No meio dos dois, as avós Josefina (Aine Toledo) e a avó Jorgina (Stephanie Leite) fazem o “meio-campo” sempre ponderando entre sonho e realidade. A organização dos atores no palco era proposital para que a personalidade dos quatro ficassem claramente expostas.

O pai de Michael Teeve se assusta quando o filho tem seu tamanho reduzido devido a sua irresponsabilidade.

Para apresentar os vencedores da promoção relizada por Willy Wonka para a visita até a sua fábrica, a Techniatto se utilizou de um recurso interessante, parodiado do original, mas com uma pegada mais brasileira, misturando o pessoal e o profissional do repórter “The Flash” (Guilherme Bourcheidt) e do âncora (Kleber Áqua) que trocavam disputas profissionais, distrações e conversas paralelas com os pais dos vencedores.

CHEGA O ANFITRIÃO

Passaram-se 40 minutos de peça e o público está ansioso para ver Willy Wonka de perto. Afinal, toda a história do personagem foi contada pelo vovô José, todos admiram e gostam dele apesar das suas excêntricidades, mas o público só tinha uma leve lembrança de sua figura devido a suas rápidas aparições nos vídeos apresentados.

A chegada de Willy Wonka não poderia ter sido mais suntuosa. Caminhando levemente pelos degraus do anfiteatro, o personagem surpreendeu a quem assistia por quebrar o esquema de entrada e saída dos atores que estava sendo feita até o momento.

A visita pela fábrica não poderia ter sido menos criativa e a cada sala que as crianças conheciam, uma nova decoração ia surgindo. Mas o destaque foi para as danças dos Umpa-Lumpas, sempre seguidas de uma marcha para acompanhar a saída de palco das quatro crianças mal comportadas. Cada marcha militar foi formatada para evidenciar os erros que os pais de Violeta Chataclete (Julia e Leticia Aleixo), Augusto dos Santos (Breno Souza Gola), Verônica Assalt (Vanessa Belotto) e Michel Teeve (Anderson Zanela) em sua educação.

O contraponto gerado por cada canção foi genial, como numa soma de 1+1= assim como a educação que os pais dos quatro visitantes da fábrica era falho pela falta de rigidez, a marcha militar representa exatamente a total inflexibilidade de uma educação também viciosa. Esse conflito contribuiu não só para a reflexão da mensagem da peça, mas como também para salientar como mesmo uma vida cheia de privações como a de Charlie e sua família poderia trazer o elemento essencial para a educação de qualquer um: amor.

O abraço final de Charlie, Wonka e seu pai dentista.

A CONTRUÇÃO DA MENSAGEM

E não é a toa que a marcha dos Umpa-Lumpas é estritamente militar. Convivendo com Willy Wonka, seria natural que os homenzinhos da inexistente terra do Acre (!) absorvessem traços da personalidade do chocolateiro. Assim como os Umpa-Lump herdaram a criatividade e a habilidade de Willy Wonka, eles também acabaram por absorver o temperamento militar que Wonka recebeu de seu pai dentista e que mesmo sem saber, aplicava a si e a sua fábrica.

Para contar a a história de Wonka, a parte alta do palco foi utilizada para mostrar o Willy cheio de cáries e seus conflitos com o pai. Destaque total para os berros rigorosos e excessivamento ásperos que o pai (Giacomo Biaggio) griatava em palco. Se algum pai presente na platéia já agiu assim (ou próximo disso) com um de seus filhos, certamente, nunca mais vai fazer algo ão insensato.

O arremate da peça vem como um bilhete dourado aos olhos dos espectadores: Charlie, após desistir de trocar a vida com sua família para ser o herdeiro de Willy Wonka, ajuda o chocolateiro a encontrar com o pai que ele não via a anos, mostrado que tolerância, compreensão e cuidado são só alguns dos pontos que devem ser levados em consideração em uma família que presa pelo amor e o respeito as diferenças de cada um.

A ASCENSÃO

Impossível não aplaudir de pé uma peça tão bem construída em tecnica e performance. O ator Ricardo Meirelles deu baile conduzindo a peça e as diversas passagens da peça dentro da fábrica de chocolate como Willy Wonka e Marco Majer merece destaque total pelo tom de voz tão natural e sincero do avô de Charlie que comoveu a todos, além de suas dancinhas inusitadas.

O elenco da peça somou mais de 35 atores!

Quem saiu do anfiteatro nas duas noites de apresentação ainda levou um brinde: de agora em diante não será mais possível disvincular o rosto inocente e sincero do ator Lucas Rodrigues do personagem Charlie. O laço que a figura do ator criada com o personagem foi tão perfeita que será dificil assitir aos filmes e se surpreender ao não encotrar o rosto do ator no DVD.

Durante o encerramento, ao se deparar com os mais de 35 atores e pessoal da técnica a mensagem que se leva é a de superação, estima e o sentimento de torcida para que a Cia. TechniAtto continu e a crescer e a levar mensagens tão bonitas e bem construídas para o público jundiaiense e alce vôos ainda mais altos, conquistando platéias por todos os cantos desse planeta, desde a Broadway até a Lumpalândia.

REVIEW: Gakuen Tokusou Hikaruon

Um mundo onde todas as pessoas são iguais, pensam iguais e agem iguais. Todos de face apagada, todos da mesma cor, caminhando para direções diferentes mar para chegar ao mesmo lugar. Um jovem diferente sentado ao redor de todos leva as mãos a cabeça, pensativo, desesperado por parecer ter percebido o estado de latência da sociedade. Num ato irresponsável ele sai correndo e salta a frente de um trem. Todos ao redor se espantam com a morte prematura de um estudante do colegial. É com um clima denso e pesado que começa a história de Gakuen Tokusou Hikaruon, uma mistura de anime e tokusatsu que teria tudo para gerar uma nova tendência no mercado da animação japonesa, mas que se limitou a apenas um OVA lançado em 1987.

ANIMESATSU

Mesmo que o conceito não tenha pegado, Hikaruon foi a obra que mais conceituou o termo animesatsu, um espécie de mistura dos gêneros anime e tokusatsu. Produzido, roteirizado e dirigido por Kazuhiro Ochi, mesmo diretor de Transformers e Sailor Moon, o OVA (Original Video Animation, ou seja, videos produzidos diretamente para home-video, sem passar pelo cinema ou TV) o anime prestou uma homenagem e tanto para os heróis da franquia Metal Hero de tokusatsus, além de alimentar a curiosidade dos fãs sobre como ficariam seus heróis se produzidos em traço e tinta.

Em uma primeira impressão, não é dificil que o fã fique tentando entender em qual herói Hikaruon foi baseado, isso porque o personagem tem um pouco de cada um dos cinco Metal Hero’s que o precederam. A armadura do heróis é muito similar a d’O Fantástico Jaspion, porém, as cores lembram muito o Detetive Espacial Sharivan. Até a vinheta de chamada para comercial, tão comum nesses tokusatsus, está presente em Hikaruon, mesmo esse não tendo intervalo comercial por se tratar de uma produção em vídeo.

Até o nome do personagem principal não foi escolhidoa toa. Hikaru é uma homenagem ao ator Hikaru Kurosaki, nome artistico de Seiki Kurosaki que interpretou o Jaspion em 1985.

Mesmo a ajudante do heróis não foge das similaridades com o mundo de carne e osso. A atitude de Azumi lembra muito Anri e Diana, as ajudantes de Jaspion e do Guerreiro Dimensional Spielvan, tanto em atitude como no papel que desempenhavam na história.

A transformação de Hikaruon lembra muito lembra Spielvan, mas tem traços de outras animações também.

Mas não é só do mundo do tokusatsu que Hikaruon tirou suas referências, é muito fácil assimilar a aparência do heróis a do protagonista d’Os Cavaleiros do Zodíaco, Seiya de Pégaso, mesmo que o desenhista do OVA não seja o mesmo do anime dos cavaleiros de Atena. Além da aparência, a coreografia de transformação lembra muito o traçar dos 13 pontos da constelação de Pégaso que Seiya fazia para lançar seu meteóro de Pégaso. É bom lembrar que no ano de produção de Hikaruon, foi no ano em que Os Cavaleios do Zodíaco bombavam de audiência na TV japonesa e na venda de bonecos, se uma produção conseguisse pegar o carisma que a série passava ao spectador, seria sucesso na certa.

LUZ, CÂMERA E…  SOM?

Quem assiste aos primeiros minutos de Hikaruon fica na dúvida se a produção é realmente uma espécie de tokusatsu em formato de anime, já que mesmo as histórias dos anos 80 sendo um pouco mais maduros que os do século XXI, o clima infantil e inocênte que permeia os tokusatsus estão bem distantes do início sórdido da produção.

O clima de herói em roupa metaltex só entra em sua abertura cantada por Akira Kushida, o mesmo das aberturas de Gavan, Sharivan, Sheider e de inserções em Jaspion e Spielvan. Para os ouvidos mais sensíveis, é fácil de notar a semelhança do tema de Hikaruon com o de Sharivan, em muitos momentos a vontade é começar a cantar “Shine shine shine Sharivan shine (shine!)“.

E a semelhança musical não para por aí, todas as músicas de back-ground foram recicladas dos Metal Hero’s, sendo os temas de Jaspion a comparação mais comum, principalmente durante a perseguição de carro que o herói sofre.

DETETIVE ESCOLAR

Diferente da temática a la Star Wars que os tokusatsus dos anos 80 costumavam ter, Hikaruon optou por trazer a temática dos tokusatus para um ambiente mais anime. Isso porque a primeira apareição de Hikaroun acontece quando o heróis é transferido para a escola que o garoto que se suicidou no preview da história estudava.

A trama adulta nota-se quando violência e cenas de nudez começam a ser largamente utilizadas.

Logo o clima pesado do local pode ser notado e é a YaYoi, após quase ser estuprada dentro da sala de aula, que dá detalhes do porque de tantos estudantes morrerem de medo dos alunos mais valentões.

A escola é parte de um esquema de gangues que trafica armas e drogas e comete todo tipo de barbaridade na cidade, não temendo a policia ou a justiça. Os valentões, que aparentam ter muito mais idade do que o comum para um estudante, são alguns dos líderes da gangue.

Essa temática mais adulta mostra que o público-alvo da produção, apesar de ser feita aos moldes de produções mais infantis, visa um público mais adulto, em geral aqueles que se entretinham com produções como Akira, Ghost in the Shell e outras produções cyber-punk da época. Os maltratos que Yayoi e Azumi, a ajudante de Hikaruon, sofrem durante os ataques dos vilões da história não são comuns mesmo em animes shonen, com várias cenas de nudez e animações violentas.

O sobrenatural entra na história para fechar o ciclo da mistura animesatsu, levando o enredo hard-core da cidade sem lei até os monstros sobrenaturais comuns em tokusatsus e que muito lembraram La Deus e os monstros enfrentados pelo Comando Estelar Flashman.

PORQUE NÃO PEGOU?

Apesar da qualidade excepcional para a sua época, uma história madura e conceitos que atraiam uma gama bem variada de público, Hikaruon ficou privado aos seus 30 minutos de OVA. Os motivos, apear de nunca terem sido revelados, não são muito dificeis de se entender.

Dos anos 70 para os anos 80 todos os gêneros de tokusatsu começaram a perder a audiência exorbitante que tinham em seu início, mesmo assim esse tipo de programa ainda servia para o que foram criados: vender bonecos dos heróis e alimentar a indústria de brinquedos.

As referências do anime são inúmeras, Saint Seiya é só uma delas.

Caso séries como Hikaruon se multiplicassem na TV japonesa, não seria dificil que a queda dos heróis em carne e osso chegasse ainda mais fundo.

Divagando um pouco poderia se chegar a conclusão que a indústria talvéz não perdesse com tal mudança, que houvesse apenas uma troca de foco nos produtos. Porém, a indústria do anime já estava dando conta, e muito bem, da demanda para esse segmento (os bonecos diecast de Os Cavaleiros do Zodíaco que o digam). Assim correr o risco de aumentar a concorrencia e de perder um nicho específico como o de tokusatsu não seria nada atrativo.

A impressão que dá é que Hikaruon foi uma espécie de episódio piloto que foi negada a produção devido aos problemas mercadológicos que a industria de brinquedos poderia passar, mas que mesmo assim foi lançado em formato OVA pela alta qualidade da produção, tanto em enredo, como em animação.

Os fãs agradecem, mas pedem mais.

REVIEW: 12 Homens e uma Sentença

“A justiça é cega”. Esse é uma das mais célebres definições da capacidade do homem em definir fronteiras, determinar limites e construir uma barreira entre instinto e razão. Porém, quanto mais o ser humano se depara com esta frase é nítido como tal conceito é frio e injusto.

Se por um lado a justiça não deve tomar partido de algo ou alguém em determinada situação, não seria a habilidade do homem em emocionar o próximo que lhe proporciona a capacidade de racionalizar atitudes instintivas e passionais?

12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men, no original) é um clássico de 1957 que leva o homem a refletir até que ponto a livre interpretação dos fatos pode separar o introspecto e a socialização quando a vida de um homem está sob a decisão de 12 homens e a maneira como cada um deles enxerga uma realidade viciada pelos medos e ocultada pelo preconceito.

CINEMA EM DUAS CORES

Para quem está acostumado com o cinema de luzes, explosões e toda gama de efeitos especiais que Hollywood produz, é dificil mostrar a grandiosidade do cinema em preto-e-branco que tanto emocionou gerações e gerações.

No passado, sem a tecnologia que alimenta a indústria do entretenimento, o foco central de uma produção cinematográfca era seu enredo, a história a qual a direção, roteiristas e produtores passavam a cada take.

Conhecida como a idade do ouro, os anos 50 foi a época em que o cinema mais ousou em suas produções, criando enredos que misturavam o lúdico com o empírico e deixando a linearidade vista nos anos anteriores em segundo plano. Tudo isso sem os orçamentos milionários do atual cinema.

Os 12 jurados se reúnem para decidir a possível pena de morte de um jovem.

12 Homens e uma Sentença é um dos filmes que mais reflete todos essas caracteríticas da época, sendo uma das obras-primas mais bem lapidadas de toda a história do cinema. Com um enredo que não fica claro logo que é exposto, personagens que misturam o comum e o curioso, o filme conseguiu com apenas uma locação contar não só uma história, mas diversas histórias que vão se encaixando ao longo da narrativa transformando a história central em algo dinâmico e criativo, que quanto mais se vê, mais se quer ver.

JURADO NÚMERO 8

O filme tem como protagonista o jurado número 8 (Henry Fonda), cujo nome o espectador só vai descobrir no fim do filme, que decide contrariar todos os outros 11 jurados durante a reunião final de um juri que decidiria se um jovem portoriquenho seria condendo a morte pelo assassinato de seu pai nos subúrbios de uma cidade grande.

Avaliando o que haviam visto no tribunal, os 11 jurados têm claro na mente que o jovem é culpado e decidem “simplificar” a reunião de veredicto logo decidindo um óbvio resultado de condenação por meio de uma votação erguendo as mãos. A surpresa acontece quando o jurado número 8 decide que todos devem discutir o caso antes de cometer qualquer precipitação.

Agindo como um líder, o jurado número 1 toma a iniciativa de organizar a reunião, como uma espécie de mediador de interesses, tentando se manter o mais neutro possível, definindo, inclusive, as regras de intervalos e duração das discussões, para tornar a experiência mais proveitosa e proativa.

É durante as discussões que o conflito de personalidades começa a se tornar o ponto central da trama, onde o espectador vai descobrindo como é o réu de acordo com os pontos de vista de cada um dos jurados.

O jurado 9 (Joseph Sweeney) é o primeiro a apoiar a posição do jurado número 8 por conhecer os dramas de uma das testemunhas, também um ancião.

Aos poucos, vários esteriótipos vão se apresentando e exteriorizando suas razões pessoais para condenação do rapaz. Vale lembrar que toda a vez que se é necessário um caso chega a um impasse na justiça, um julgamento da forma de juri, onde o juiz apenas guia as defesas e acusações e 12 homens são selecionados para dar a sentença, é formado para decidir o futuro do réu.

Geralmente este tipo de tribunal é usado para casos grandiosos, que envolvem mídia e interesse popular. Os 12 jurados seriam uma espécie de representação da sociedade no caso, decidindo o que seria melhor para o futuro desta quando caso um caso como o julgado decorre nela. O resultado precisa ser imparcial e racional, não podendo ser dado se todos os 12 jurados não concordarem com ele. Mas como mostra a crítica de 12 Homens e uma Sentença, é dificil desvincular um homem de sua história para julgá-lo.

É interessante observar como cada jurado acaba, mesmo que sem essa intenção, relacionando o caso do jovem portorquenho com sua vida pessoal. O caso mais notável é o jurado número 3. Empresário e atormentado pelo abandono de seu filho, o personagem grita com tudo e com todos tentando culpar o réu pelos fantasmas que sofreu com a preconceituosa visão que ele tem da atual juventude dos anos 50.

Aos poucos, as faces de cada um dos outros jurados vai se apresentando. A visão do publicitário falante, do respeitoso pintor de paredes, do racional especulador de bolsa de valores, do superficial fã de esportes, do sábio ancião e de todos os outros jurados, que o tempo todo tratam-se apenas pelo número para manter a impessoalidade da reunião, vão costurando uma rede preciosa de informações que levam o espectador a fazer parte do juri e tomar um partido sobre o caso julgado, assim como aos poucos vai se revelando o motivo pelo qual o jurado número 8 é a favor da inocência do rapaz, destacando-se por sua perspicácia e habilidade de raciocínio, eloquência e teste de provas não antes pensadas pelos advogados.

Henry Fonda é destaque no papel do jurado número. Sua performance, drama e olhar refletem perfeitamente a condição que o filme necessita.

É DADA A SENTENÇA

O maior diferencial de 12 Homens e uma Sentença é a proximidade que o ambiente do filme cria com o espectador. Mesmo sendo rodada praticamente toda em apenas uma locação com apenas 3 minutos fora da sala de reunião, e  sem nenhum flash do réu ou da visão dos jurados, a performance de cada ator traz quem assiste para dentro do ambiente tenso e dramático, o ideal para conquistar qualquer ser humano.

Parodiado e influente em diversas mídias e produções contemporâneas (de Os Simpsons até O Aprendiz) o filme fica mais atual a cada ano que envelhece. Num mundo envolto de violência e maus exemplos, o julgamento de um caso tão controverso como o do portoriquenho que matou o pai poderia ter sido acontecido nas mesmas circunstâncias tanto nos anos 50 como nos anos 2000.

Com um tema tão atual, 12 Homens e uma Sentença é um convite ao espectador refletir qual seria a posição dele caso se visse envolvido num julgamento como esse. Uma oportunidade de refletir como a justiça pode ser tão frágil quanto o ser humano que a representa.

REVIEW: De Porta em Porta

A tecnologia transforma. Possibilita a aproximação, novas interações e novas perspectivas de futuro para um ser humano que a domina. Mas a tecnologia também pode ser traiçoeira. Aquele que não a acompanha corre o risco de ficar parado no tempo, abandonado por todas as revoluções e possibilidades que ela oferece.

Essa idéia sempre esteve presente em diversas culturas, em sua maioria retardatárias e dependentes de outras nações, e é comumente usada em meios de comunicação, que colocam a tecnologia como força motriz de qualquer sociedade. Porém tal ideia é tão viciada quanto mascarada, pois ela não leva em consideração o elemento que está por trás de toda a tecnologia e sem o qual, tal não poderai sequer existir: pessoas.

Pessoas são o agente mais fundamental que qualquer negócio bilionário ou dinâmica comportamental, podendo ser o guia de um futuro justo e igualitário ou a causa de um desastre social e ideológico. De porta em porta é um filme que não tem a intenção de revolucionar mentes e maneiras de como encarar a vida, mas a história de superação de um deficiente mental chega ainda mais além: mostra como o ser humano é de fundamental importância quando o que se almeja é o próprio ser humano.

VENDEDOR AMBULANTE

EUA, anos 50. O homem da casa levanta e põe seu casaco, a mulher dedicada fecha as abotoaduras de sua camisa, dá o nó na sua gravata e ainda pega o chapéu para mais um dia de trabalho. O homem parece cansado e a mulher já com alguns cabelos brancos, mas a situação ainda é comum para um casal de sua idade, a não ser pelo fato de que os dois não são um casal, mas mãe e filho.

Holliwood já se tornou especialista em surpreender o público em poucos segundos de filme, mas confundir um jovem de 20 anos com um quarentão não seria tão surpreendente se esse cara permeasse apenas no universo da ficção, porém Bill Portter é bem real.

Aos poucos Bill ganha a confiança de vendedor que seu pai tinha.

Quando tinha 20 anos, Bill Porter decidiu (com todo o apoio da mãe) que iria seguir a mesma profissão do pai: se  tornar um vendedor ambulante de porta em porta, profissão bem comum nos EUA entre os anos 40 e 70. Porém, o jovem nasceu com Paralisia Cerebral, o que acarretou limitações na sua fala e nos seus movimentos, o que o faz sempre alvo de muitas gozações e preconceitos.

Se o espectador ainda não se comoveu com Bill apenas pelo seu jeito engraçado de andar e de falar, o cheque-mate chega em meio a sua entrevista de emprego para conseguir o emprego. Após ser recusado e encontrar a mãe  esperando um bom resultado, Bill volta para o escritório da Corporação Watkins e pede que lhes dêem a pior rota da companhia sob a condição de ser demitido caso não conseguisse os resultados esperados pela empresa em um mês.

E a experiência teria sido terrível para qualquer um. A vizinhança que Porter tinha que encarar caminhando 16 kilómetros todos os dias não era fácil: brigas de casal, intrigas de vizinhos, cachorros fujões, crianças medrosas e tudo o mais o que qualquer pessoa é louca para se ver livre em seu dia-a-dia.

O resultado do primeiro dia teria trazido a desistência de qualquer um, mas Bill foi teimoso o suficiente a ponto de voltar lá durante todo o mês até conseguir a confiança e o carinho dos moradores usando as técnicas mais simples e inocentes que se possa imaginar.

Talvéz nem mesmo Porter soubesse exatamente o que fazer, mas o vendedor lidava com pessoas e o segredo para lidar com clientes problemáticos estavam exatamente dentro dessas pessoas.

PACIÊNCIA E PERSISTÊNCIA

Uma das maiores lições diretas que o filme passa é o conceito de Paciência e Persistência que a mãe de Bill lhe ensina. Segundo ela, Bill enfrentaria diversas dificuldades durante a vida, mas isso não deveria ser motivo para que ele desistisse ou se envergonhasse, o filho deveria seguir em frente e continuar fazendo as coisas como ele acreditasse que fosse certo.

As lições de sua mãe estavam até no lanche que comia.

Com o passar dos anos vamos vendo essas lições sendo postas em prática, do jeito sutil e ao mesmo tempo infantil de Bill. Através de cada item comprado pelos clientes o vendedor ia conhecendo suas histórias e resolvendo o problema de cada um deles, mesmo que nenhum dos vizinhos percebessem que ele ajia como uma espécie e fio invisível entre toda a vizinhança.

E problemas e que não faltavam. São estes problemas que podem ser interpretados como uma espécie de lições indiretas do filme, dependentes da interpretação e da percepção de cada um que assistir o filme.

Desde o casal que briga com a vizinha por causa da árvore que invade seu terreno, a relação encoberta de um casal gay, as frustrações de uma senhora com saudades de seu filho, a doença que a mãe de Bill desenvolve até chegar no amor platônico que o protagonista desenvolve por Shelly Soomky Brady, uma universitária que o ajuda a fazer a entrega dos produtos.

A relação de Shelly com Bill é a mais carismática e cheia de significado. Ainda um adolescente na faculdade, a garota se esforça para conseguiro emprego de ajudante de entregas, depois ela passa a admirá-lo de tal forma que passa a considerá-lo como parte de sua família.

Shelly passa a fazer parte da família de Bill.

Diferente da grande maioria de personagens do filme, Shelly nunca viu Bill de maneira preconceituosa devido a sua doença, provavelmente pela força juvenil da menina ser tão inocente como seu patrão-pai sempre foi.

GRANDE RECEPÇÃO

O mundo teve a oportunidade de conhecer a história de Bill Porter quando o vendedor foi retratado nas páginas de um jornal local do Oregon quando o filho de uma cliente decidiu compartilhar suas experiências com o desengonçado vendedor ambulante em 1995.

Bill quase teve um acesso de raiva quando isso aconteceu (ele sempre gostou de tudo do jeito que ele achava certo, como a mãe o ensinou), mas no fim a publicação do artigo lhe rendeu muitos frutos.

O filme em questão foi produzido pela rede TNT diretamente para uma exibição em TV e gerou muita repercussão. Tanto que o filme ganhou um remake japonês em 2009 com o mesmo nome e hoje é referência no mundo corporativo por provocar reflexões que se exigem em profissões adminstrativas, como o estabelecimento do contato com os clientes, apresentação dos produtos, fechamento das vendas, entre outras ocasiões.

O elenco da versão americana conta com nomes de peso na TV americana, entre eles William H. Macy (Bill Porter) conhecido mundialmente pelos seus papéis em Pânico e Jurassic Park III, Kyra Sedgwick (Shelly) protagonista do famoso seriado The Closer – Divisão Criminal e Helen Mirren (mãe de Bill), famosa por interpretar a Rainha Elizabeth nos filmes britânicos que contam a história da rainha da Inglaterra.

Ainda hoje é possível visitar a página de Bill Porter na página da Watkins Online.

Os atores William H. Macy e Kyra Sedgwick eternizaram Bill Porter e Shelly (na foto em destaque) para o cinema.

QUANDO ELE BATER, ABRA A PORTA

A história de Bill Porter é tão fantástica que não parece real. Aos poucos todos os pontos da história vão se completando e ações simples e triviais do início da história começam a fazer sentido aos poucos.

Mas engana-se quem imagina que Bill foi apenas uma cara de sorte. Mesmo com todas as suas dificuldades, sua inocência e seu caráter infantil, Bill tinha algo que muito falta em grandes líderes e profissionais: ele sabia como tratar as pessoas.

Pessoas são a parte chave de qualquer organização e profissão. Mesmo o mais isolado dos programadores de web precisará de alguém para colher o arroz que ele comprará no supermercado ou para dirigir o ônibus que o leva até a sua empresa. Pequenos detalhes transformam cada produto que adquirimos em algo mais humano, e Bill Porter valorizava isso.

O sabão em pó que ele vendia não era um simples composto químico que tira manchas, eram histórias, dores, frustrações, alegrias, felicidades e principalmente, companhia.

Por mais que a tcnologia tenha avançado e culminado na facilidade da internet que transpõe as barreiras do tempo e espaço exigidas ao homem, mesmo que haja muita facilidade em comprar o último Best-Seller via Submarino, não há como qualquer ser humano não se comover com o sorriso sincero de alguém que está ao seu lado no momento de uma compra.

REVIEW: O Diabo veste Prada

Quem nunca sonhou em sair de uma vida no interior e abraçar uma carreira de sucesso na cidade grande? Andréia “Andy” Sachs  é mais uma corajosa jornalista que vai para Nova York tentar a sorte grande em uma oportunidade única: trabalhar para a maior revista de moda do mundo. O que ela não esperava é ter que encarar a pior chefe que alguém poderia imaginar. Miranda Priestly com uma atitude arrogante e presunçosa, mostra-se o verdadeiro diabo em pessoa, disfarçado sob os mantos finos e delicados que mascaram o quanto cruel e absorto pode ser o mundo corporativo.

UMA INDÙSTRIA

Lançado em 2006, O Diabo veste Prada é o resultado natural do que a indústria do entretenimento tem produzido nos últimos 10 anos: com o sucesso de vendas do livro de mesmo nome em 2003 nos EUA, Hollywood voltou seus olhos para que o que poderia se tornar mais best-seller cinematográfico.

Nos cinemas na mesma época que super-heróis e comédias pastelão faziam escola, o filme surpreendeu o público e a crítica. Logo no primeiro fim-de-semana arrecadou mais de 27 milhões de dólares nos EUA. No Brasil não foi diferente e desbancou o todo-poderoso Click de Adam Sandler do topo da lista de mais assistidos.

Mas toda a boa recepção e as grandes cifras arrecadadas só seriam meros números se mais uma vez a indústria do cinema errasse na adaptação de um grande livro. Mas o diretor David Frankel demonstrou atenção aos diversos erros que seus colegas vinham cometendo com “Harry Potter’s da da vida” e captou exatamente o espírito inovador e grandioso de uma garota sonhadora envolta de diversos perigos reais, porém estravagantes. A história é exatamente aquilo que Hollywood tanto necessitava no momento: algo simples, porém autêntico e inovador.

O DIABO VESTE PRADA

O grande espírito do filme já começa por seu título. Prada é uma marca italiana de moda, considerada um símbolo de luxo e status que uma vez associada a uma figura tão esteriotipada como o diabo, resultou num título de filme ousado, que provoca a alta classe e atrai a curiosidade do público de massa.

Anne Hathaway interpreta uma doce aspirante em busca de seus sonhos

É claro que o título não é mérito da produção do filme, mas sim da autora do livro original Lauren Weisberger, mas que tal título ajudou a permear por todas as classes atraindo-as para  o cinema, isso é uma bem da verdade, afinal, assim como em qualquer entrevista de emprego, a propaganda do filme começar por seu visual. E foi aí que Andy, a protagonista do filme, errou.

Interpretada pela maravilhosa Anne Hathaway, a inocente Andy não imaginava aonde estava se metendo quando entrou na sala da temível Miranda Priestly para a sua primeira entrevista. É claro que o ambiente não ajudava, afinal Miranda nem chega a oferecer as convenções sociais mais básicas para a garota. Nada de “bom dia” ou “seja bem-vinda, pode se sentar”, a entrevista foi em pé, a frente de duas cadeiras disponíveis e com um rosto azedo e pouco receptivo.

Assustada pelo estilo Fashion Week que tanto contratava com seu ar interiorano, Andy é dispensada após uma severa e mau-educada crítica de Miranda, mesmo assim acaba ganhando a vaga, pois a garota decide, com o sangue fervendo de vergonha e raiva, responder as insinuações grosseiras da futura chefe com personalidade e determinação, o que Miranda interpreta como um “excelente currículo e [...] discurso sobre a ética de trabalho”.

Miranda Priestly é interpretada por Meryl Streep, mas fica dificil entender onde começa o papel e onde termina a megera. O olhar, os meio-sorrisos e até os mais sutis movimentos de Streep parecem tão naturais que sua performance chega a ser o retrato ideal da chefe mais odiosa do mundo. A sensação não é a de atriz e personagem, mas a própria personificação de uma popstar da moda que desdenha a tudo e a todos.

Miranda é implacável! Uma chefe que ninguém gostaria de ter.

Se a performance da atriz chega a provocar a ira e a torcida do espectador por uma reviravolta no fim do filme, é o comportamento da personagem que mais atrai sua análise. Apesar de revestida por uma carcaça indestrutível, Miranda tem um espírito oscilante, que varia entre criança mimada e adulta amadurecida.

As lições de moral, a maneira como conduz as regras da moda e a firmeza de suas decisões se confundem com suas excêntricidades e paranóias, um dos pontos que mais surpreendem o espectador a cada novo segredo que desvenda da personagem e que mais contrastam com a personalidade simples, porém agradável e determinada de Andy.

Se a Andy independente e corajosa se vê em becos sem saída quando se vê alienada as decisões de Miranda, é essa última que mais se mostra dependente da garota quando precisa das coisas mais banais e corriqueiras que um ser humano poderia enfrentar.

Desde que foi lançado o livro com a história, Lauren Weisberger sempre foi sondada a responder se Miranda seria uma metáfora de Anna Wintour, a editora-chefe da revista Vogue, maior revista da moda do mundo não-ficção, mas a resposta nunca foi revelada.

NÃO HÁ LUGAR MELHOR

Nem só de boas atuações e grande elenco vive um contemporâneo de James Cameron, por isso o visual do filme também foi composto para atrair os olhos. Não há nada de efeitos especiais, raio-lasers ou viagem subatômicas, mas o ambiente que compõe o filme garante que nenhum espectador cansado saia da cadeira.

O palco das filmagens, Nova York e Paris não fizeram feio. As capitais do mundo e da arte não poderiam ter sido melhor escolhidas para contemplar um filme sobre moda e sucesso, mesmo que essas duas palavras não pareçam se dar muito bem no vocabulário de Andy.

Divino porém brutal, até onde o mundo da moda pode chegar?

Seja um admirador da moda, seja um cinéfalo casual, basta uma casual escolha para se tornar um admirador de O Diabo veste Prada. A maneira como o filme aborda a relação do ser independente com o ser subordinado são tão envolventes que ao final o espectador parece que faz parte da vida das protagonistas.

Envoltos entre problemas pessoais e profissionais a dinâmica do filme veio para mostrar que a essência de um blockbuster é o seu enredo, sua história, sua mensagem. Não basta apelos atípicos e sensoriais que o cinema tem se mostrado tão eficiente em mostrar. Assim como na moda, é imprescidível que a arte do cinema resgate valores e ideais que a vida cotidiana e corporativa encobre tão brutalmente, facilitando muito para que pessoas como Andy ficam tão a mercê de se tornar uma Miranda Priestly.

REVIEW: Star Wars – Episódio I: A Ameaça Fantasma

Para quem apreciava a sétima arte nos anos 70 não sabia a revolução por qual o cinema iria passar em 25 de maio de 1979: era exibido pela primeira vez Star Wars (Guerra nas estrelas, no Brasil) o primeiro de uma série de filmes, desenhos animados, miniaturas, games, quadrinhos, livros e tudo mais que se possa imaginar.

A trilogia de filmes marcou sua época e a cada novidade o fenômeno era cultuado cada vez mais por mais gerações, conquistando fãs por onde passava. Mas nenhuma novidade causou tanto furor quanto o anúncio daquilo que os inveterados fãs mais desejavam: a produção de uma nova trilogia de filmes contando a origem de todas as revoluções e guerras por qual uma galáxia muito, muito distante passara anos antes da construção do Império Galactico. Nascia Star Wars – Episódio I: A Ameaça Fantasma.

O QUARTO FILME É O PRIMEIRO

Talvéz primeira dúvida dos aspirantes a fãs de Star Wars é por onde começar a assistir os filmes. Nos anos 70, quando George Lucas, criador de todo o universo de Star Wars, dirigiu o primeiro longa da saga, ele precisou começar a história pelo seu quarto capítulo, já que a história que ele havia idealizado era impossível de ser rodada com a tecnologia daqueles tempos.

Somado a isso, os estúdios de cinema duvidavam que um filme com uma temática tão distante de temáticas adoslescentes (em grande parte iniciada pelo filme Embalos de Sábado a noite) que estava conquistando as bilheterias dos cinemas daquela época pudesse render um bom retorno. Assim George Lucas decidiu iniciar sua história do quarto capítulo da história que escrevera, mas foi proibido de, como ele assim queria, colocar a incrição Episódio IV, junto com título do filme.

Assim, o primeiro episódio da saga só pode ser rodado nos anos 90, época que Lucas considerou a ideal para a realização dos efeitos especiais que a história exigia e agora, livre de qualquer empecilho comercial que pudesse barrar a sua produção.

Porém, mesmo entendedo toda a relação produção-tecnologia-tempo, o candidato a assistir aos filmes ainda fica em duvida de qual assistir primeiro, se seguindo a ordem de produção ou a produção cronológica. E mesmo um veterano quando se depara com essa questão fica na dúvida com qual a resposta deve dar ao seu interlocutor.

Essa dúvida se dá por dois motivos principais. Primeiro, por o universo Star Wars ser tão rico em criatividade, personagens e sequências que fica dificil de decidir qual a ordem das surpresas e dramas que se recomendaria primeiro. Segundo, por que mesmo que a cronologia atual tenha muito mais efeitos especiais e consdições de surpreender visualmente (um dos pontos chave para o sucesso da primeira trilogia), é fato que o Episódio I, não foi produzido exatamente para uma pessoa que tem seu primeiro contato com Star Wars, por isso o medo da decepção com tal filme sempre acaba prendendo uma recomendação prematura do filme, pois o resultado pode ser facilmente decepcionante.

O INÍCIO DE TUDO

O que mais encantava em todos os três filmes da trilogia clássica (episódios IV, V e VI) é que mesmo que alguém se avnturasse a assistir ao filme de um ponto que não fosse exatamente o primeiro filme produzido, esta seria facilmente conquistada por todos os elementos que compõem a obra. É fácil distinguir o que acontece na tela: temos um mocinho e um bandido facilmente reconhecíveis, um loiro com roupas brancas e o outro de máscara com armadura negra, um esteriótipo que seria (e ainda hoje é!) acompanhado por muitas e muitas gerações do cinema.

Qui-Gon Jinn é o mártir do filme.

Porém, o primeiro erro do Episódio I é justamente não deixar muito claro o que acontece na história, e não é um problema do início ou de pontos específicos da tela, isso acontece o filme inteiro! Além disso, mesmo com elementos tão claros do enredo,o episódio IV ainda tinha todo um timing para a apresentação do universo ao espectador, coisa que não acontece no Episódio I.

É claro que o enredo de ambos os filmes e o cenário que os personagens interagiam são muito diferentes em ambos os filmes, o proprio título do filme, A Ameaça Fantasma, é uma referência a um perigo que não esta exatamente claro, e que cabe aos personagens e ao espectador decifrar. Mas com tão poucas pistas a um marinheiro de primeira viagem, esta tarefa é quase impossível.

A história começa quando dois Cavaleiros Jedi são enviados para o planeta Naboo para negociar o fim do bloqueio espacial provocado pelo Vice-rei da Federação de Comércio. Ok! Algum lugar está com problemas e alguém está tentando negociar com o tal lugar problemático.

Porém, o Vice-rei, ao descobrir que os dois são Jedis, manda eliminá-los, mas os dois conseguem fugir, encontram um Gunga, Jar-Jar Binks, que os ajuda levando-os até a sua cidade, que está fora da jurisdição do Vice-Rei de Naboo. Lá chegando, eles conseguem um submarino e vão até a capital de Naboo para salvar a Rainha Amidala, partindo de volta para capital da República, o planeta Coruscant, mas antes são atacados pelas tropas de Naboo, que não conseguem deter a nave dos protagonistas graças a uma operação dificil que o robô R2-D2 conseguiu realizar para que todos partissem em segurança mas não sem falhas, pois os ataques destruíram uma peça da nave, por isso eles se vêem obrigados a pousar no planeta Tatooine. E é aí que a parte importante começa.

O que essa primeira parte do filme tem a nos dizer? Que tem muita gente envolvida num problema inter-galáctico e que o filme vai ter muitos, muitos efeitos especiais. E só.

Obiwan tinha muito potencial no filme, mas...

Esses trinta minutos que teóricamente serviriam para ambientar e apresentar os personagens saiu tão embolados que pouca coisa é possível de ser absorvida por quem assiste um filme de Guerra Nas Estrelas pela primeira vez. É dificil entender que a pincesa Amidála não é a princesa de Naboo, mas sim de Coruscant. É possível imaginar mil coisas para ela estar fazendo em Naboo, menos que havia chegado momentos depois dos Jedis terem sido detidos.

Sem contar que um problema político gerar tantos disparos de raio-laser soa um tanto quanto exagerado. Para prender a atenção, seria interessante que fosse passado o que é a República, quem é a Amidala, qual a importância dos cavaleiros Jedi e, principalemente deixar mais claro que há interesses por trás das ações dos habitantes de Naboo, pois diálogos de poucas palavras entre personagens que acabaram se serem vistos não sugere muita coisa.

Felizmente, muitas das informações necessárias são mostradas depois, quando a nave dos protagnositas pousa em Tatooine. Mesmo perdido na trama, o espectador agradece, antes tarde do que nunca.

EM TATOOINE

É num planeta pobre, cheio de injustiças e desinteressante tanto para a República quanto para a Federação do Comércio que o personagem mais importante de todos os seis filmes de Guerra Nas Estrelas aparece pela primeira vez.

Anakin SkyWalker é um jovem escravo que adora tecnologia e corridas de naves. Um dos Jedis, Qui-Gon Jinn, que até agora só havia mostrado ter boas técnicas de espada, mostra-se um homem sensível o suficiente para acreditar no potencial do garoto e apostar a liberdade do garoto e a peça que precisam para consertar a nave com o único alienígena que comercializa tal aparato.

Mesmo com a resistência de Obiwan Quenobi, seu discípulo, Qui-Gon Jinn acredita que Anakin é o garoto previsto numa antiga profecia que irá estabilizar a força, restaurando as disputas entre a República e a Federação do Comércio e por consequência a paz do universo.

É nesse ponto que um ponto-chave de Star Wars é revelada, a existência da força. Todo o universo de Star Wars gira em torno da força, uma energia, como descrita no próprio filme, onipresente que pode ser utilizada por aqueles com habilidade para tal. Mas no filme, após uma leve explicação e a conclusão do espectador que todos os “poderes” que os dois Jedis usaram em Naboo foi fruto da força, o filme volta a dar atenção aos efeitos especiais.

Anakin se mostra o ponto mais interessante do filme.

A corrida de Anakin pode ser considerada um dos momentos mais marcantes do filme. Apesar de, como em todo o filme, os efeitos especiais serem a principal atração, dessa vez diálogos e performances interessantes acontecem mostrando tanto as capacidades de Anakin, como os sentimentos e dramas de sua mãe e da rainha Amidala.

CHEGA A HORA DA BATALHA 

Os sabres-de-luz, tão ricamente explorados na primeir trilogia, até agora pareciam apenas meros artefatos na mãos dos personagens do Episódio I, sem grandes apresentações, sem muito diferencial. Mas foram essenciais para que o longa fechasse o primeiro episódio do jeito George Lucas gosta de colocar em todos os seus filmes: com uma uma grande perda para os mocinhos, mas também com uma grande vitória.

De volta a Couscant e após convencer o conselho Jedi de que Anakin, mesmo com idade acima do permitido para se tornar um jedi, deve ser treinado, o senador Palpatine (quem?) é eleito como o Chanceler supremo da República.

Apesar de Palpatine estar no filme o tempo todo, suas aparições são tão sutis ou mal-encaixadas, que fica difícil relacionar sua figura ao vilão Darth Sideous, o lorde Sith supremo, maior e melhor usuário do lado negro da força. A subida de Palpatine ao trono é de essencial importância para o desenrolar de todos os cinco próximos episódios, mas infelizmente, o Episódio I mais uma vez falhou em deixar o enredo de lado e focar nos efeitos especiais, já que junto da subida do chanceler ao poder, Coruscant é atacada pela Federação do Comércio, a mando do próprio Palpatine disfarçado.

Durante a invasão, Anakin, mesmo proibido de fazer qualquer coisa, se mostra um excelente piloto de naves espaciais de guerra e, junto com R2-D2, conquista a vitória aérea da República.

Demorou, mas os sabres-de-luz finalmente mostraram pra que vieram.

Na terra, o destaque vai para a luta de Qui-Gon Jinn e Obiwan Kenobi contra Darth Maul, aprendiz de Darth Sidious. Durante a luta, o pior acontece e Qui-Gon Jinn acaba ferido mortalmente, deixando que Obiwan vencesse o oponente. Mesmo a cena do golpe final realizada sem grandes emoções (se o espectador se distraísse com alguém se levantando indo no banheiro no cinema, iria se surpreender quando percebesse que sem nenhum drama ou frase de efeito Qui-Gon já se encontrava fora da batalha), o posterior discurso do personagem pedindo para que seu discípulo treinasse Anakin foi o momento mais emocionante de todo o filme.

RUMO AO EPISÓDIO II

Se alguém quiser assistir os filmes de Star Wars na ordem cronológica, mas preferir pular o episódio I, não sentirá muito a falta deste. Talvéz a única perda seria não conhecer o inocente Analin SkyWalker quando criança, pois essa foi a única contribuição do filme a toda a série.

O desenvolvimento dos personagens foi muito baixo. Sejam eles novos ou velhos conhecidos dos fãs veteranos, pouco se conheceu da sua personaliade. A única excessão foi Anakin, que a cada fala podia exprimir toda a graça que a origem de seu futuro personagem, que mesmo sendo um vilão, pôde conquistar o mundo na trilogia anterior.

Amidala, mesmo desempenhando um papel crucial por todo o enredo, foi pouco explorada. Ela age muito e pouco fala. Suas cenas não serviram para  explorar sua origem, nem a de seu partido ou o posicionamento de sua personagem perante toda a estrutura da República. O fato de ela “ser rainha” não basta para convencer, mesmo tendo mostrado seus sentimentos pessoais, faltou força em sua majestade.

O pior caso foi com Obiwan. Todas as participações do personagem apenas serviram para salientar a característica de velho abatido e derrotado que ele tinha na trilogia inicial. O personagem nem parece o mesmo dos próximos dois episódios. Ele parece “forçado” a agir segundo os planos de Qui-Gon, mostrando-se um personagem sem iniciativa e a sombra do mestre.

Mesmo Qui-Gon Jinn se tornando o mártir de toda a série, sua importância como personagem pouco rendeu, já que poderia ter sido realizada por qualquer outro personagem, Obiwan (com uma personalidade melhor lapidada) por exemplo. A impressão que dá é que ele nasceu apenas para morrer, para que George Lucas pudesse ter dado aquele sabor de chocolate meio-amargo no final.

Apesar de ter um grande potencial organizacional na franquia, o Episódio I preferiu passar a seu sucessor a responsabilidade de apresentar o universo Star Wars aos novos espectadores da franquia, se limitando a mostrar o quão granioso os efeitos especiais podem ser no cinema.

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