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RESENHA: Hunter x Hunter, o Greed Island

Jogos de video-game sempre deslumbraram garotos de todas as idades, seja pelo fascínio dos mundos novos que apresentam a cada novo desafio, seja pela competitividade que estimulam a cada puzzle em busca da grande recompensa do final do jogo. Enquanto jogavam o Greed Island, a história de Hunter x Hunter experimentou fases inéditas para os personagens e para os fãs.

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GON x GING

Se em Yu Yu Hakushô o autor Yoshihiro Togashi criou uma série de eventos que deram origem a uma história com uma premissa de início, mas sem expectativa para um fim, Hunter x Hunter fez exatamente o contrário: durante o Exame Hunter, Gon Freecs iniciou sua aventura com uma previsão de conclusão de sua jornada: encontrar seu pai.

Mesmo sendo o resgate de Killua na Mansão Zaoldyeck um pequeno desvio do plot inicial, as batalhas na Torre Celestial para que os garotos pudessem juntar dinheiro para participar do Leilão de YorkShin levavam desde o início ao mesmo fim do início da história: encontrar o Greed Island, a única pista deixada por Ging Freecs para seu filho.

O Greed Island é um jogo do JoyStation (sem referências ao mundo rel =P) que Ging criou em sua juventude, quando havia acabado de se tornar um Hunter junto de 10 amigos. Ao tomar ciência disto, Gon decidiu que iria participar do game pois certamente isto o aproximaria do pai.

Bisky divide o protagonismo da saga com Gon e Killua. Sua carinha bonita esconde um grande poder!

Bisky divide o protagonismo da saga com Gon e Killua. Sua carinha bonita esconde um grande poder!

Todo esse caminho que Togashi criou em cima desta saga possibilitou que o protgonista se desenvolvesse física e intelectualmente e ainda que encontrasse personagens que acrescntariam diversas caacterísticas ao universo de Hunter x Hunter, tornando-o ainda mais fascinante a medida que as sagas vão passando. Porém, quebra de expectativa é uma das maiores características dos mangás do autor…

VILÃO X BOMBER

Logo ao chegar na ilha onde se passa o jogo, Gon recebe um recado de seu pai, dizendo que o garoto deve se divertir com o jogo, mas que não crie esperanças de encontrar algo sobre ele, pois ele estaria bem longe dali.

Tal modificação da perspectiva da história, por si só, já abriria mil possibilidades de continuação pós-Greed Island, porém, incialmente, o desafio do autor era criar uma saga que atendesse as expectativas dos fãs cultivadas há duas sagas anteriores.

Para tal, o primeiro passo foi criar algo inédito na história: um vilão. Parece estranho ouvir que em mais de 10 encadernados Hunter x Hunter não tivesse sequer um vilão, mas pare e pense: o Exame Hunter apresentou rivais, e não vilões. Na mansão Zaoldyeck, os pais de Killua podiam ser assassinos com um sistema de segurança absurdo, mas suas intenções nunca foi matar ninguém. Na Torre Celestial, Hisoka funcionou mais como um desafio que como um inimigo. E por fim, a Aranha (Genei Ryodan, Trupe Fantasma), por mais cruel que fossem, são o resultado de uma cidade corrupta financiada por mafiosos e não a causa.

A popularidade da Aranha garantiu ao grupo a permanência na saga do Greed Island.

A popularidade da Aranha garantiu ao grupo a permanência na saga do Greed Island.

Assim, surgiu Bomber, um Hunter maníaco por bombas que não mede pudores para conseguir finalizar o jogo. De personalidade fugaz e alucinada, o vilão age como um chefão oculto do jogo, fazendo o que bem entende graças a sua alta capcidade de controlar o Nem. Apesar disto, a sua forma maniqueísta é chocada diretamente com a mnte simples de Gon o que faz do seu combate final contra o garoto um dos maiores destaques da série, um combate com alucinante quanto o próprio Bomber.

BISCOITO X ARANHA

Consequência direta da saga de YorkShin, muitos pontos anteriores ainda são abordados dentro do JoyStation, sendo a principal delas o financiamento dos jogadores por meio de um mafioso, o sr. Battera. Quem vencer o jogo e trazer para eles a carta Sopro do Arcanjo, ganhará a recompensa de 50 bilhões como prêmio.

É por estar interessada nesse dinheiro para comprar jóias que Gon e Killua conhecem Bisky, uma Hunter louca por pedras preciosas e as maravilhas de seu brilho.

Apesar de sua aparência meiga de Sailor Moon (com direito a chuquinhas, saia e luvas), Bisky é uma das maiores mestras do Nem no universo de Hunter x Hunter, se tornando a mola propulsora ideal para as habilidades dos dois amigos, que passam por um rigoroso treinamento para conseguir se igualar aos mais habilidosos competidores do Greed Island.

O treinamento dentro do jogo é divertido e se renova a cada teste de Bisky.

O treinamento dentro do jogo é divertido e se renova a cada teste de Bisky.

Além disso, do outro lado da ilha, é a vez dos membros da Aranha, incluindo Hisoka, procurarem dentro do game uma maneira de recuperar os poderes de Kuroro Lúcifer, o que faz com que fãs do grupo não abandonem a saga, além de manter alguns conceitos anteriores presentes na história até que elas voltassem aos principais holofotes.

PRÊMIO X FIM

Pela primeira vez, uma saga de Hunter x Hunter teve um fim. Diferente dos fins pela metade ou das buscas concluídas sem findar completamente a premissa da saga, Togashi decidiu por um ponto finald no o Greed Island apenas quando todas as suas pontas foram amarradas.

O resultado foi uma saga muito bem estruturada, com o poder de atrair novos leitores mesmo do meio do mangá ou do anime, além de otimizar diversas características shonen que por vezes o autor provocou neles, mas nunca entregou aos fãs.

Belas batalhas, personagens bem trabalhados, inimigos bem conceituados e um final com um gancho perfeito para a continuação da história. O Greed Island, mesmo sem Kurapika e Leório, foi a saga mais artisticamente construída em Hunter x Hunter, menos empolgante que YorkShin, mas mesmo assim, um admirável feito do autor.

A luta de Gon contra Bomber é uma das melhores de toda a história!

A luta de Gon contra Bomber é uma das melhores de toda a história!

RESENHA: Hunter x Hunter, o Leilão de Yorkshin

Vingança. Um sentimento mais corrosivo que o ácido e mais destrutivo que fogo, mas que se torna irrefutável a medida que o seu portador continua a recordar e a se angustiar com lembranças que o tornaram na pessoa que é. Em Hunter x Hunter, durante o Leilão de Yorkshin, os personagens puderam estar lado-a-lado com o sentimento de vingança e frente-a-frente com cada uma de suas tentativas de superá-la.

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OLHOS ESCARLATES

Desde o início de Hunter x Hunter, os leitores tem se intrigado pela grande diferença que há entre os seus quatro protagonistas e a maneira como eles se enlaçam nas mais diversas sagas e aventuras. Se Gon é um personagem que cativa por sua simples compreensão de enxergar o mundo a sua volta, o seu oposto é Kurapika, que vê a complexidade até nos aspectos mais comuns do ambiente.

Impossível não adorar as suas explicações longas e as suas deduções profundas acerca das questões colocadas aos personagens ao longo de sua jornada. Mas ainda mais cativante é a história por trás do personagem: um mix de horror e tragédia, que culmina na formação de um personagem vingativo, mas ainda ainda assim puro de coração.

Descendente do clã Kuruta, Kurapika foi o último descendente de seu povo, caracterizados por mudar a cor de seus olhos para um tom avermelhados quando colocados sob forte pressão. Após mortos, estes olhos dos cadáveres começaram a ser vendidos à altos pressos no mercado negro por colecionadores cobiçosos da beleza de tais olhos.

A Aranha de 12 patas mais a sua cabeça é o responsável por inúmeros desastres no universo de Hunter x Hunter.

A Aranha de 12 patas mais a sua cabeça é o responsável por inúmeros desastres no universo de Hunter x Hunter.

Para recuperar a honra de seu clã, o jovem de cabelos loiros deseja recuperar todos os olhos de seus antepassados e se vingar dos bandidos que cruelmente invadiram o sue vilarejo e matou todos os seus familiares, para tal, após o Exame Hunter (leia a resenha aqui), Kurapika se tornou um Hunter guarda-costas de Neon, filha de Light Nostrade, que se aproveita da habilidade da filha em prever o futuro para enriquecer no mercado negro.

Todo este cenário criado em torno de Kurapika é contado em vários capítulos do mangá e do anime, deixando Gon e Killua fora da história por um tempo, e mesmo após o reencontro do quarteto inicial, ambos e Leório assumem um papel de apoio, fazendo do descendente do clã Kurata livre para conquistar sua vingança contra aqueles que exterminaram seu povo: os temidos membros de um grupo conhecido como A Aranha, que pretendem roubar os olhos escarlates (e todos os demais itens) no grande leilão anual que acontece em Yorkshin!

A ARANHA

Que a intenção por trás da criação de Hunter x Hunter parte de um desejo do autor Yoshihiro Togashi de criar uma “coleção” de personagens, todo mundo já sabe. Mas o que há de melhor nessa ambição do autor, é que ele consegue mesclar seus infindáveis personagens criados com um enredo de primeira, que vai crescendo a medida que a história avança.

As várias faces de Kurapika são reveladas durante a saga!

As várias faces de Kurapika são reveladas durante a saga!

O arco do Leilão em Yorkshin, não só é o mais bem estruturado, como o mais emocionante e o que mais justifica o nome Hunter x Hunter da história. Disposto a capturar todos os 13 membros da Aranha (Genei Ryodan, no original), formadas por 12 patas e uma “cabeça” líder, uma caçada no sentido mais literal possível começa na cidade de Yorkshin, mesclando um combate funesto entre a habilidade de dedução de Kurapika contra a inventividade dos membros da Aranha para roubar os itens do leilão.

Interessante observar como o personagem Hisoka é sempre muito bem explorado em cada uma das sagas. Enquanto no Exame Hunter ele era engmático e na Torre Celestial (leia a resenha aqui) era o grande rival a ser alcançado por Gon, durante o arco do Leilão de Yorshin, o excêntrico palhaço é o agente duplo de Kurapika, fornecendo informações sobre a Aranha, sendo o membro de nº4 da trupe.

Mesmo vilões frios e calculistas, todos os outros membros do Genei Ryodan conseguem, como Hisoka, logo conquistar a simpatia do público, seja com o jeito simples de Ubogin, com o jeito kawaii de Kotorpi, com a provocação de Pakunoda ou com a inteligência de Shalnark, todos ganharam uma populaidade avassaladora, efeito muito próximo do que ocorreu com os 12 Cavaleiros de Ouro em Os Cavaleiros do Zodíaco ou o Gotei 13 em Bleach.

Kuroro, o líder da Aranha, é um show a parte. Se todos ficaram curiosos com o poder da família de Killua no arco em que este precisa ser resgatado por Gon e cia (leia a resenha aqui), foi durante a luta contra Kuroro, Silva Zaoldyeck, o pai de Killua, e Zeno Zaoldyeck, o avô de Killua, que ambos conseguiram mostrar do que são capazes, além de poder mostrar a ideologia de um assassino de aluguel. Além disso, mesmo enfrentando dois ao mesmo tempo, Kuroro mostra o poder que a Aranha tem como membro líder, se igualando ao poder dos dois mais célebres e poderosos assassinos de todo o universo de Hunter x Hunter.

As previsões de Neon Nostrade aguçam a curiosidade do espectador/leitor!

As previsões de Neon Nostrade aguçam a curiosidade do espectador/leitor!

Tão frenético e cruel, é a primeira captura de Kurapika, o grandalhão Ubogin. A luta é cruel. Mesmo Ubogin sendo mal, fica a dúvida se Kurapika deveria tortura-lo após captura-lo. O drama psicológico é intenso, fazendo Kurapika se colocar no lugar da aranha quando eles matam inocentes, invertendo os papéis de mocinho e vilão.

O LEILÃO

Toda a ambientação do arco é criativa ao extremo. Colocando um leilão como centro do enredo, o autor pôde explorar tanto o lado próximo que o leitor possa vir a ter com o tipo de evento, quanto seu lado glamuroso, cheio de quinquilharias e mistérios provocados pelo cinema em todos os filmes que se utilizam do tema.

E por falar em Hollywood, o que não dizer da analogia de Yorkshin com Nova York! Com todas as características básicas da capital do mundo, o autor contrastou seu universo até então cheio de florestas e monstros para prédios, concretos e vilões do mundo real, entre assassinos, sequestradores e mafiosos.

Mas não apenas de ambientação se segura um enredo. Aliando a caça frenética de Kurapika pela Aranha, Yoshihiro Togashi ainda adicionou um elemento que aguça a curiosidade e estimula o leitor a querer cada vez mais avançar na história. Trata-se das previsões feitas por Neon Nostrade. Interessada pelos poderes da menina, Kuroro sequestra a garota e copia o poder dela graças ao seu Nem de característica especial, fazendo previsões de toda a Aranha, incluindo Hisoka.

As várias ligações entre personagens deixam a história com um ritmo alucinante!

As várias ligações entre personagens deixam a história com um ritmo alucinante!

Instigado a descobrir se as profecias que nunca erraram da menina se cumpririam, o leitor e o espectador se deparam com uma verdadeira obra de arte, com direito a uma macabra orquestra de explosões provocada por Kuroro, combates que parecem acabar com a vida de personagens queridos e intrincados sub-enredos que se unem em um colossal final a bordo de um balão usado por Kurapika, após uma das trocas de reféns mais fabulosas que o mundo das animações japonesas já teve.

ACORRENTANDO-SE

Que Yoshihiro Togashi é um autor cheio de surpresas a todo momento, isso todo mundo já sabe. Obras como Yu Yu Hakushô (leia as resenhas aqui e aqui) e Level E (leia a resenha aqui), não só demonstram a inventividade do autor como se tornaram verdadeiros clássicos instantâneos de mangá shonen. Mas Hunter x Hunter vai além!

Observando os três arcos anteriores, é nítido que o autor sempre acaba deixando o final de cada um dos arcos em aberto, com várias pontas para serem resolvidas ao longo de futuras tramas. Durante o leilão em Yorkshin não é diferente, e o climax de um verdadeiro thriller policial acaba “pausando” ao Kurapika compreender o risco que seus amigos correm ao ajudá-lo e ao conseguir neutralizar a Aranha.

A vitória do fim da saga é Kurapika mostrar-se diferente das aranhas, sendo mis humano e misericordioso, oferecendo uma condição com a corrente do julgamento, para que ele se arrependa e viva.

O cerco aperta para Kuroro, o líder da Aranha, que precisa se submeter as regras do  "cara da corrente" para sobreviver.

O cerco aperta para Kuroro, o líder da Aranha, que precisa se submeter as regras do “cara da corrente” para sobreviver.

Apesar de o objetivo de Kurapika não ser cumprido, o personagem se dá por satisfeito com o resultado que obtém, e o autor da história pode iniciar mais um arco de grandes novidades, deixando as marcas do arco mais emocionante da série caracterizarem para sempre como o fã viu e quer o ritmo e a audácia de Hunter x Hunter, um ode de como se fazer uma história!

RESENHA: Level E

“Nesse exato instante, há milhares de alienígenas entrando e saindo, levando uma vida tranquila na Terra. Espécies pacíficas, espécies agressivas, espécies à beira da instição .. Alienígenas de todos os tipos, desde envolvidos em intrigas internacionais, a crimes comuns, pesquisadores, cada qual com seu interesses diversos. Eles convivem conosco, mantendo um intrincado equilíbrio, e os únicos que não percebem, são os humanos.” Com vocês, Level E.

DE OUTRO MUNDO

Sempre que se fala de Yoshihiro Togashi, sempre falamos de algo diferente e inovador, obras que quebram paradigmas e se tornam referência da arte de roteirizar histórias para mangás.

Se em Yu Yu Hakusho o iniciante autor escreveu um mangá de ação que se reinventava a cada arco acadêmicamente escrito (leia a resenha do arco inicial aqui e do Torneio das Trevas aqui) e hoje em dia foi o pontapé inicial para gerar uma gama de grandes autores com sua forma inusitada de escrever Hunter x Hunter (leia a resenha do Exame Hunter aqui, da Mansão Zaoldyeck aqui e da Torre Celestial aqui) foi entre as suas duas maiores obras que o autor pode colocar no papel toda a sua genialidade em todos os gêneros.

Publicado na Weekly Shōnen Jump de 1995 a 1997 com o total de 16 capítulos e cinco volumes encadernados, Level E ganhou a notoriedade que merece apenas mais de uma década que foi escrito, quando o estúdio Pierrot (o mesmo de Yu Yu Hakusho, Naruto e Bleach) transformou a obra em um anime de 13 episódios.

Estranho? Para Togashi não existe a palavra estranho, pois até o nome da obra foi escolhida de maneira totalmente inusitada. Escolhendo a temática de seres extraterrestres para compor o mangá, o autor batizou a obra de Level E.

Um alienígena invade seu apartamento e o máximo que você pode fazer é aguentar as suas loucuras!

Level” pois estas formas de vida vivem a um nível acima do humano, “E” pois seria a inicial de “alien” (que se pronuncia “eilien”). Foi numa coletiva de imprensa, coma pergunta de um repórter que indagou sobre a escolha do nome, que o autor percebeu o engano com as inciais da palavra que havia feito, pois imediatamente o autor agiu como um de seus personagens, improvisando a resposta: “É de Alien, mas é uma referência a ET’s“.

PRÍNCIPE PROBLEMÁTICO

Tsutsui é um jovem japonês que se muda de Tóquio para uma cidade do interior, cenário onde sempre acontecem histórias com UFO’s, graças a uma oportunidade de estudar em um bom colégio que se interessou pelo passe do jogador.

Feliz por iniciar uma vida de independência, morando sozinho e tendo seu sustento próprio, o jovem se assusta com a presença de um estranho homem de cabelos loiros em seu quarto, que se revela ser um alienígena sem memória.

Agora cabe a Tsutsui e a sua bela vizinha Miho, filha de um cientista engenheiro que estuda alienígenas, a descobrir a identidade do estranho visitante, que a todo tempo demonstra um comportamento bizarro e provocador, para mandá-lo de volta para o seu planeta e fazer com que ele pare de atazanar a vida de TsuTsui com suas piadas sem graça e com seu comportamento bipolar.

Craft e a Guarda Real fica sem ação com o comportamento de Ouji!

Se a premissa inicial já é interessante para um anime de 13 episódios, o espectador se assusta a descobrir que o enredo dura apenas três episódios, já que Yoshihiro Togashi, provavelmente pela sua impaciência em arrastar longas sagas em uma mesma história, decidiu escrever um mangá com várias histórias curtas, 7 no total, que vão se ligando com o passar dos capítulos e surpreendendo a medida que novas situações são apresentadas e solucionadas pelo autor.

Apesar de o mangá ser basicamente uma comédia, o autor aproveitou a extensão do tema de alienígenas para brincar com todos os gêneros clássicos deste para apresentar ao leitor o inesperado e diversas vezes tirar sarro da cara dele.

A tensão de humanos desaparecendo por uma raça de alienígenas sugadores de corpos, a paixão destrutiva de uma bela jovem de outro planeta em época de acasalamento por um terráqueo, as mentiras de sequestradores de sereias, a prisão em um sonhos e até a formação de um esquadrão Super Sentai são alguns dos temas que vão se ligando a história inicial de TsuTsui e o alien misterioso que se revela o príncipe Ouji, primeiro príncipe herdeiro do planeta Dogura.

Se Tsutsui é a paixão e a responsabilidade em pessoa, Ouji é o príncipe torrão que adora se divertir as custas dos outros e a realizar os mais loucos planos. Dono de uma inteligência acima das expectativas em todo o universo, o príncipe tem os apelidos mais odiosos em cada canto do universo que já passou por querer gosar da independência que sua inteligência e seu poder como príncipe de um dos planetas mais desenvolvidos de todas as galáxias lhe concede.

Para vencer alienígenas no Japão: Esquadrão Colorido Colorrangers!

Apesar de um tanto quanto egocêntrico, é incrível como o protagonista consegue, assim como todos os personagens de Togashi, conquistar o leitor, mesmo que sua conduta pareça, num primeiro momento, um tanto quanto digno de repreensão.

Apesar de usar e abusar de tudo e todos ao seu redor, Ouji faz o que a maioria das pessoas, e o próprio Tsutsui, quer fazer: realizar tudo aquilo que ele tem vontade.

O príncipe e o jogador de beisebol são dois lados de uma mesma moeda: apesar dos dois ansearem pela mesma coisa, liberdade, as suas diferentes maneiras de lidar com as responsabilidades fazem com que ambos entre sempre em conflito, fazendo de Miho e Craft, o líder da brigada de seguranças do príncipe, o pilar central que harmoniza os lados, mesmo que a vontade de ambos muitas vezes seja condenar ou apoiar um dos dois lados.

BRINCANDO DE CAÇAR

Com a dose certa de comédia e o enredo rico em personagens e situações extremas, Level E é uma obra em que o autor brinca com o leitora todo o tempo, acabando com suas expectativas no desenrolar do enredo para depois satisfazê-lo contando-as como ele esperava, para depois revelar que o esperado não é o fim e que o inesperado ainda está por vir.

Uma sereia em meio a um mundo cheio de infâmias. Level E ainda parece comédia?

O anime, produzido com o maior esmero possível agrada pela sua maneira épica de contar uma história que num primeiro momento parece simples, mas que mostra toda a sua graça a todo o tempo.

A mistura de elementos do terror, do suspense, do romance, dos esquadrões Super Sentai, dos esportes e da comédia sem deixar que o ambiente shonen se perdesse durante a trama além de enriquecer a obra, torna ela única, pois por mais incrível que pareça a presença delas não faz com que uma sobrepuje a outra, mas complementa de forma criativa o que cada gênero pode oferecer para a história em sua totalidade.

Assistir ou ler Level E é uma experiência única, assim como tudo o que Togashi escreve. Tanto por abrir a mente para novas perspectivas que a grande maioria das histórias de extra-terrestres carecem, tanto por abrilhantar os olhos a cada nova história que se inicia, fazendo do final algo completo e excitante, fazendo o expectador se perguntar como detalhes tão evidentes não fizessem com que ele desconfiasse dos planos que amarram a história de maneira tão inteligente e carismática.

O carisma de Ouji eterniza a série.

RESENHA: Yu Yu Hakusho, a saga do Detetive Espiritual

Há sempre quem anseie por inovações, criações e novas aspirações nos segmentos de entretenimento, e no mangá não é difenrente. Sempre há um ponto em que tudo parece derivado, mistificado ou apoiado em uma obra de grande sucesso quando grandes blockbusters revolucionam o mercado. Invertendo o fluxo do próprio mangá, Yu Yu Hakusho chegou se destacou numa época em que nada parecia possível de sobreviver, e por isso mesmo, se eternizou.

COMEÇANDO PELO FIM

Não, não é o que parece, o subtítulo não indica uma nova explicação para a leitura de sentido reverso que o oriente tem em seus livros e, mais notóriamente no ocidente, de seus mangás.

Mas fazendo uma metáfora inteligente do que é o mangá para o ocidental, e provavelmente sem nem se dar conta disso, Yoshihiro Togashi se utilizou de algo inusual para um mangá shonen até então: começou a contar a história pela morte do personagem principal.

Sim. Yusuke Urameshi, um japonês brigão que só arranja confusão na escola onde estuda, tem péssimas notas e é indiferente para tudo e para todos morre logo no primeiro capítulo da história.

Yusuke morre para salvar uma criança de ser atropelada!

Estranho? Sim, mas ainda mais por essa ser a descrição de um herói muito diferente do ser confiante, corajoso e bondoso do formato do herói nos anos 90. Porém, contrariando conceitos e premissas, Yusuke morre exatamente contrariando o conceito preconceituoso que personagens e leitores formam do personagem nos primeiros momentos de contato com o receptor da história.

Para salvar uma menina que desapercebida atravessa a rua movimentada de Tóquio, Yusuke se joga na frente de um carro e morre atropelado.

É essa reversão de expectativas que logo no início marca o início de Yu Yu Hakusho e a acompanha ao longo de toda a sua história, fazendo da trama uma das mais cativantes e impressionantes da história dos animes.

O DETETIVE ESPIRITUAL

Yusuke morreu por engano. Sim, logo que perde a vida, o espírito do protagonista da história descobre que não estava em seu destino salvar a menina, que pouco se feriria no acidente que acabara de impedir. Além da revelação macabra, o universo de Yu Yu Hakusho começa a se fundir com o rico folclore japonês, tornando a história interessante para o oriental e fascinante para o ocidental.

Para buscar a alma de Yusuke, a jovem Botan vai de encontro com o rapaz e para reparar o engano sofrido, Koenma, filho do rei Enma Dayou, rei do mundo espiritual, lhe oferece a chance de voltar a vida se este aceitar o emprego de detetive espiritual na Terra após sua ressurreição.

Botan e Koenma aplicam o teste para Yusuke voltar a vida e se tornar um detetive espiritual.

Nesse ponto começa a primeira saga de Yu Yu Hakusho. Cheia de arcos para apresentar os protagonistas, firmar conceitos e desbancar os mais crentes de uma história linear, vilões e heróis começam a aparecer e mostrar que tem mais em comum do que a aparência fugaz que cada um apresenta pode aparentar.

Rival de Yusuke e sempre cheio de si, Kazuma Kuwabara rivaliza o posto de bad boy número 1 da escola e da cidade. Dono de uma sensibilidade espiritual incrível, o machão acaba se juntando a Yusuke no trabalho de detetive espiritual após se tornar peça chave para ressurreição do personagem junto de Keiko, a namorada de Yusuke.

Assim como Yusuke e Kuwabara, os outros dois protagonistas começam exatamente mostrando seu lado mais cruel para depois se revelarem excelentes aliados. Durante o arco para recuperar objetos espirituais de grande poder, são apresentados o youkai Kurama e o misterioso Hiei.

Dotados de grande poder, Yusuke precisa enfrentar a ganância de Hiei e a decisão de Kurama antes de tê-los como aliados, algo que acontece apenas durante o ápice da saga, quando os dois se juntam a Yusuke e Kuwabara para deter a maldição causada pela flauta utilizada por Suzaku, um dos quatro monstros do inferno para transformar humanos em demônios.

A história mescla o inesperado com cacuetes clássicos de uma história.

Focado em mostrar habilidades e apresentar os personagens que passarão a integrar complexas sagas ao longo de todo o desenvolvimento da história, a Saga do Detetive Espiritual, além de ter uma trama bem leve e despojada funciona perfeitamente para atrair e fidelizar fãs.

SORRISO CONTAGIANTE

Nascido numa época em que o mangá estava efervescêndo graças aos fenômenos dos anos 80 da Shonen Jump, Yu Yu Hakusho se destacou como uma obra original misturando conceitos da mitologia budista e xintoísta com personagens vistos no dia-a-dia do japonês.

Desenvolvendo seu estilo inesperado que depois estaria muito mais amadurecido em Hunter x Hunter (clique aqui para ler as resenhas do Exame Hunter, da Família Zaoldyeck e da Torre Celestial), Yoshihiro Togashi foi um dos grandes destaques dos anos 90 por trazer grande originalidade na criação de contextos e personagens.

Começando de uma maneira branda, quase didática, e com arcos bem definidos, Yu Yu Hakusho já começou mostrando o que mais teve de melhor durante todo desenvolvimento da saga do Detetive Espiritual: contar uma história de ficção através de personagens que quebram esteriótipos e são politicamente incorretos, mas que cativam a cada sorriso após uma vitória inovadora na história dos mangás.

Entre heróis e vilões: na saga de introdução, os protagonistas mostram seus dois lados.

RESENHA: Hunter x Hunter, a Torre Celestial

“Monstros terríveis, criaturas exóticas. Vastas riquezas, tesouros escondidos. Planos malignos, terras inexploradas. O mundo desconhecido tem uma “magia”, e algumas pessoas incríveis são atraídas por ela, eles são conhecidos como Hunters”. Nem mesmo Yoshihiro Togashi escreveu um prefácio que captasse tão bem a essência de sua série. E em nenhum outra arco como foi durante a Torre Celestial, Hunter x Hunter teve o nome da série tão bem justificado.

Nascido da idéia do autor da série colecionar personagens (leia a resenha do Exame Hunter aqui) e se tornando um verdadeiro fenômeno do chamado mangá dos anos 2000, Hunter x Hunter foi o pioneiro em uma nova maneira de contar mangá, onde a surpresa e as expectativas do leitor são quebradas diversas até gerar um resultado inesperado.

Se durante o Exame Hunter o quarteto de protagonistas foi desenvolvido e se no resgate de Killua na Mansão Zaoldieck (leia a resenha clicando aqui) o autor ampliou o modo de como sentir o encadeamento das relações dos personagens, foi quando levou Gon para os combates da Torre Celestial que Yoshihiro Togashi teve uma carta branca para colecionar tanto personagens o quanto pudesse.

Um manipulador de peões numa cadeira de rodas, um um fantasma vivo sem pernas e uma quantidade gigantesca de lutadores de pequena participação foram algumas das bizarrices que apareceram durante o arco em que, para conseguir dinheiro ao mesmo tempo que treinam, Killua apresenta a sórdida Torre Celestial para Gon, onde ocorrem os mais sangrentos combates entre lutadores das mais variáveis espécies.

Para participar do leilão em Yorkshin, Gon decide participar do torneio da Torre Celestial, onde pode faturar milhões de zenins a cada vitória.

Torre Celestial ou Arena Celestial, é o local onde é realizado o Torneio Celestial. É um prédio de 251 andares com 991 metros de altura, sendo assim o quarto mais alto do mundo. Está localizado no mesmo continente que a República de Padokia.

Além de fazer do arco uma oportunidade do autor dar um up no poder dos seus personagens mais queridos e aparentemente mais necessitados de conseguir se equiparar aos seus colegas formados Hunters, o papel do palhaço Hisoka dentro da história como um todo ganha destaque.

Sempre querendo encontrar excitação nas lutas e nos lutadores que enfrenta, Hisoka ganhou destaque durante o Exame Hunter por não ter muito bem definido que tipo de vilão ele é. Cruel, sádico e extremamente poderoso, o palhaço tem interesse especial por Gon, fazendo os fãs terem um interesse por até onde ele vai chegar com esse interesse.

Com o exemplo de Gon treinando Nem, Killua aprende a valorizar a amizade.

Sempre se basando em modelos esteriotipados de enredo (no caso dos três primeiros arcos: “treinamento” no Exame Hunter, “resgate” na Mansão Zaoldieck e “torneio” na Torre Celestial), nunca se deve esperar que Hunter x Hunter seja mais do mesmo, pois nunca o desenvolvimento da história leva ao desenlace projetado.

Se todos imaginaram um Gon e um Killua chegando até o último andar da Torre quando sistema de 10 vitórias para avançar até os andares superiores pareceu algo descabido, o interesse principal do autor foi mostrado ao apresentar o mestre Wing e seu discípulo Zushi.

Mestre das artes do Nem, Wing foi o personagem que ajudou os protagonistas a desenvolver suas técnicas de luta espirituais e ajudou o autor a racionalizar o elemento “mágico” do poder dos seus personagens, afinal, além de colecionar personagens, Hunter x Hunter também é uma oportunidade de Togashi colecionar diversos conceitos.

O interesse do sádico Hisoka por Gon gera muita repercussão entre os fãs.

Seja por falta de interesse do autor, ou por sua genialidade preguiçosa o meio nem sempre dá origem ao fim e o próprio começo já pode ser o fim. Assim como nas sagas anteriores, as quebras de tempo para contar momentos decisivos, como a geniosa luta de Hisoka contra seu rival Castro, são inesperados e muito empolgantes.

Mas nada supera o climax do arco, quando Gon finalmente acumula a quantidade de vitórias necessárias para enfrentar Hisoka. Ciente da diferença de nível entre os dois, o garoto pretende, ao menos, devolver o soco que o palhaço deu nele durante o Exame Hunter.

Com muita criatividade e sem muitos rituais, a luta encerra um dos arcos mais importantes da série para o desenvolvimento do personagem e para a evolução do conteúdo da história para chegar ao nível de batalhas e encontros épicos que todo leitor de shonen aprendeu a gostar de ler.

RESENHA: Hunter x Hunter, a Mansão Zaoldyeck

A relação familiar não é de certo algo que atrai pesquisadores há pouco tempo, através dos séculos, pensadores, filósofos, cientistas e muitos dos mais renomados escritores da literatura mundial tentaram desvendar, conhecer e, acima de tudo, entender o porquê de tantas diferenças entre tais laços. Seja afeiçoados pelo tema, seja fascinados pela complexidade humana, humanos tentam entender humanos na sua forma mais simples de organização social. Envolvidos pelos dramas e motivados pelos laços que os une, Hunter x Hunter apresentou durante a saga da Mansão Zaoldyeck um contraponto entre o natural e o abstrato de uma família.

O fim do Exame Hunter em Hunter x Hunter levou milhões de fãs e demais espectadores a se perguntar: onde o autor da série estava com a cabeça? Além de criar uma narrativa atemporal do que acontecia com seus personagens, Yoshihiro Togashi conseguiu, com seu talento natural de surpreender seu leitor, quebrar diversos paradigmas de mangás shonen e, de quebra, algumas expectativas de fãs.

Com uma aprovação prematura do protagonista, restava descobrir como os diversos personagens da coleção audaciosa do autor (entenda o conceito lendo a resenha da saga anterior aqui) iriam se portar através do sistema as avessas que o presidente Netero criou para aprovar os candidatos do exame, que resultou com a expulsão de Killua do exame e o posterior aprisionamento do personagem por seu irmão Illumi na mansão da família.

Com tal final arrasa-quarteirões e a popularidade de Killua, a saga que se seguiu após o fim do Exame Hunter é uma história transitória, criada apenas para pôr ordem na história, apresentar personagens que todos estavam curiosos para conhecer e, é claro, uma desculpa para o autor da série continuar a criar personagens de variam de cativantes a estapafúdios.

Ódio, vingança e repressão. É o que Killua encontra na mansão de sua família de assassinos.

Nessa saga, Yoshihiro Togashi consegue fazer o que ele sabe de melhor, criar um ambiente curioso com personagens curiosos fazendo coisas curiosas. Curiosidade demais? Não. A essência de toda história é fazer com que o seu receptor continue interessado nela mesmo depois de horas e horas de conto. Foi assim com Sherazade nas Mile Uma Noites é assim com o leitor de mangá.

Porém, aguçar a curiosidade não é tarefa para todos, se hoje o cinema usa tecnologia avançada para surpreender os olhos, o que sobra para o mangá moderno é caprichar na fórmula de seus personagens e criar uma narrativa instigante, curiosa. Pois é o que vemos mais uma vez durante o regate de Killua.

Assim como durante o Exame Hunter, Yoshihiro Togashi utiliza-se de fórmulas para entreter o leitor em supostas sequências de fatos que este tenta prever enquanto constrói delicadamente a melhor maneira de moldar seus personagens aos seus interesses futuros e nasmensagens embutidas dentro de uma família grande (afinal 10 integrantes não é para qualquer um) porém atormentada com fantasmas pessoais que vão se revelando conforme os segredos da mansão, a mais bem guardada de todo o universo de Hunter x Hunter é desvendada.

Amizade, companheirismo e compreensão. Os diferentes comportamentos de sua família confundem a cabeça de Killua.

Maquiadas sob riqueza e ostentação, a família Zaoldyeck esconde seus dramas pessoais sob a mais nobre assinatura de uma família de assassinos. Se a opção do autor com Killua foi colocar na história um personagem pragmático que vai se transormando a medida que conhece o ponto de vista simples de Gon Freecs, o menino que teria de tudo para ser atormentado por dramas do passado, os objetivos de uma família inteira de assassinos dentro de uma história onde se previlegia a superação pessoal ao invés da morte ficou para as sequências posteriores a história da entre-saga, que assim como todos seus personagens criados, serviu para aquecer a mente do autor para dar prosseguimento a sua obra da mesma maneira que serviu de aquecimento para o leitor tentar juntar peças de um quebra-cabeça que o autor da história faz questão de transformar em algo surpreendente a cada traço.

RESENHA: Hunter x Hunter, o Exame Hunter

Histórias são contadas ao montes, das mais variadas maneiras e com os mais diversificados recursos. Todos os anos o cinema, a tv, a literatura e tantos outros campos de mídia criam toneladas de horas de entretenimento que entra para a cultura e para a vida das pessoas que chegam até elas. Porém, apenas as histórias com grandes mensagens, lições e conteúdos próximos ao seu receptor é que sobrevivem ao tempo e conquistam gerações e gerações de pessoas. Hunter x Hunter vai além seguindo o caminho reverso: provocante e contestador, sua mensagem não é passada através de sua história, mas sim por seu próprio leitor.

UM AUTOR X MUITOS PERSONAGENS

Muitos jovens e adultos talentosos sonham em se tornar autores de sucesso com suas mais mirabolantes idéias e complexas relações de personagens e enredo. Porém, nem sempre insights geniais se convertem no resultado final almejado, isto porque muitos dos autores iniciantes esquecem de algo que Yoshihiro Togashi conhece tão bem: a aceitação da história é sempre tão grande quanto a sua simplicidade.

Parece fácil pensar deste jeito quando se é um autor consagrado. Togashi é o autor do célebre mangá Yu Yu Hakushô, um dos maiores destaques dos anos 90, época em que o BOOM da animação dos anos 80 começava a esfriar no Japão, e mesmo que se espalhando pelo mundo, poucas obras originais conseguiam se sustentar por longos anos.

O autor também tem outra fonte de criatividade ao seu lado, pois o sortudo ainda é casado com a superstar do mangá shoujo (do japonês, para meninas), a autora de Sailor MoonNaoko Takeuchi. Com alguém tão especialista quanto ele para alavancar vendas de editoras, como um mangá seu poderia dar erradO?

Pois é aí que se torna tudo tão simples. Para quem já leu a história de Gon e seus amigos sabe o quanto o mangá se desdobra em sequências fenomenais e de tirar o fôlego, mas tudo isso saiu de um desejo que o autor tinha a anos: colecionar personagens.

Hunter x Hunter tem personagens que cativam a cada segundo!

Do mesmo jeito que gosta de colecionar bonecos, um dos maiores hobbies do autor Yoshihiro Togashi é o de desenhar personagens novos. Isso pode até ser previsto em Yu Yu Hakushô, visto a quantidade de personagens que aparecem ao longo da história, mas em Hunter x Hunter, o autor criou um ambiente propício para dar asas a sua imaginação e inserir personagens atrás personagens em todos os momentos da história.

Hunter x Hunter é o típico mangá que nasceu para fazer sucesso, com a união do autor certo no momento certo, o mangá de 1999 foi um dos principais precursores do estilo que permeou e influenciou praticamente todos os autores do estilo shonen ao longo dos anos 2000 e que ainda hoje se prova como o alicerce do sucesso de vendas deste tipo de publicação.

Esta resenha contemplará os aspectos iniciais da obra, conhecida como a saga do Exame Hunter, que contempla a saída do protagonista da Ilha da Baleia até o fim do exame que dá nome ao arco, bem como toda a magia e o ambiente criado pelo autor para dar vida a história.

PROTAGONISTAS X PASSADOS

Perfeito. Com a vontade e a inspiração necessária em dia e o cartão verde para iniciar sua história na Shonen Jump, a revista mangá de maior tiragem e circulação do Japão, só falta Togashi criar o alicerce de Hunter x Hunter, os protagonistas que vão guiar capítulo a capítulo toda a jornada do autor para colecionar personagens.

E o resultado não poderia ter sido mais perfeito. Seguindo parte da teoria humoral (veja mais na resenha de Naruto, a Saga da Ponte clicando aqui) e parte das personalidades dos quatro personagens que lhe fizeram chegar a nata do Japão em Yu Yu Hakushô, Togashi deu origem a Gon, Killua, Kurapika e Leório.

Gon é a personificação da bondade e inocência.

Gon Freecs pode ser considerado um dos melhores modelos da tendência de protagonistas dos anos 2.000 em mangás shonen. Inocente, sonhador e determinado, o garoto sonha em encontrar o pai, um famoso Hunter que o abandonou na Ilha da Baleia para seguir com sua carreira, e para tal, ele decide prestar o Exame Hunter para que, como Hunter, possa cumprir seu desejo.

Se otimismo é a palavra que melhor pode definir Gon, Killua é seu completo oposto. Sem uma razão para viver e filho mais novo de uma milionária família de assassinos de aluguel, o garoto vive pressionado buscando no Exame Hunter algo que o interesse e descobre na amizade simples e sincera de Gon, algo que possa valer a pena.

E não é apenas o filho da família Zaoldyeck que vive cheio de conflitos internos. Único sobrevivente de um clã que possui olhos vermelhos, Kurapika quer se tornar um Hunter para ganhar poder o suficiente para se vingar do Genei Ryodan, o grupo da Aranha de 12 patas, os responsáveis pela ruína de seu povo (nota: não confundir com Sasuke Uchiha, Hunter x Hunter começou a ser escrito um ano antes de Naruto).

Fechando o grupo com chave de ouro, entra Leório. Provavelmente o personagem de terno e gravata seja o mais próximo de Gon se pensarmos em sua maneira simples de ver as coisas, porém seus atos impulsivos e agressivos sempre o colocam a mercê do inimigo como alvo mais frágil. Apesar de seu estilo debochado, este guarda um grande segredo, quer se tornar Hunter para conseguir o direito de cursar uma faculdade de medicina gratuitamente e assim, como médico, poder salvar vidas tão preciosas como era a de seu irmão que morreu doente.

Leório parece carrancudo e grosseiro, mas tem o altruísmo como filosofia de vida.

Se o perfil dos protagonistas parece já estar traçado desde Yu Yu Hakushô, notem que tanto a persoalidade como as cores das vestimentas se assemelham muito as de Yusuke e cia, o contexto a qual eles se inseriram as situações que Togashi colocou os personagens vai muito além do limiar humano e conforme mais a coleção de personagens vai se extendendo, mas interessante a história vai ficando.

PROVOCANTES X INUSITADOS

Um dos grandes destaques da história é a facilidade que ela tem de puxar o leitor para dentro da história. As questões por qual os personagens vão passando antes de chegar e após iniciar o Exame Hunter facilmente fogem das disputas convencionais dos mangás shonen, sendo muito mais ideológicas e muito menos sangrentas.

E o mais interessante é observar como cada um dos quatro protagonistas, e volta e meia um ou outro coadjuvante, pensam a respeito dos desafios aos quais são impostos, revelando traços de sua personalidade e caráter.

Vale destacar o terceiro exame por quais eles passam quando, aliados a Tompa, os personagens precisam vencer os desafios da Torre dos Enganos. Enquanto Killua sempre acaba sendo levado pela decisão mais pessimista e Kurapika sempre entra em dualidade de opinião com sua maneira analítica e racional de pensar, Leório sempre é levado por seus instintos e Gon sempre surpreende com sua maneira simples de pensar.

Toda vez que alguém é submetido a um teste, sempre fica preso as regras que o permeiam, mas muitas vezes afloram no participantes pré-conceitos que os privam de tomar alguma decisão fora do escopo geral da idéia de um teste. Por viver isolado na Ilha da Baleia por muito tempo, Gon é um ser livre de pré-julgamentos e por isso sempre leva ao pé da letra tudo o  que lhe é dito, facilitando suas ações.

A personalidade calma e racional de Kurapika guarda segredos inesperados e sombrios!

Na Torre dos Enganos ninguém lhe disse que numa prova onde se aposta qual vela vai apagar primeiro estava implicito a regra de assoprar a vela, assim ele vai lá e faz. Ao se depararem com duas portas que separariam o grupo, nada mais natural que abrir um buraco na parede e ambos os grupos se unirem novamente.

Parece irrelevante, mas cada ação simples de Gon leva o leitor a indagar “como eu não pensei nisso antes?”. Fazendo da obra algo inesperado a cada novo capítulo e provocante a medida que nunca se consegue prever o próximo passo que o autor vai dar e a ponto do caráter de cada personagem será usado para a resolução da tarefa explícita e implícita em cada prova do exame.

Se o começo já parece fora do comum e o seu desenvolvimento surpreende o leitor, o que dizer do final de saga mais inusitado que um autor já produziu? No fim do exame, o presidente da Associação Hunter, Netero, propõe um campeonato ao contrário: avança nas chaves aquele que perder e se tornará Hunter aquele que vencer apenas uma disputa.

Assim como toda a história, o destaque das lutas acabaram não sendo os combates, mas sim o desenvolvimento de maneiras de se resolver o resultado da luta e as consequências que isso inflingiram. Após a luta de Gon, onde este se recusou a desistir da luta (pois não tinha chances de vencê-la) até que Hanzo, seu oponente parasse de torturá-lo para decidirem a vitória de outra maneira.

Filho de uma família de assassinos, Killua parece um corpo vazio de sentimentos até encontrar Gon.

A história ainda quebra o linear do tempo e avança para o fim do torneio, quando o protagonista fica sabendo de todos os outros resultados após acordar de um desmaio após o fim de sua luta. Envolvente e cativante, o todo o resto do torneio colocou todos os sentimentos dos participantes a flor da pele, revelando desde o lado humano de Leório, criar suspense com os segredos de Killua e revelar a inveja escondida de Killua por Gon…

ANIME X ANIME

Hunter x Hunter começou a ser desenhado em 1998 e poucos anos depois já foi para a TV em uma produção feita pelo estúdio Nippon Animation. Com a oscilação de Yoshihiro Togashi para dar prosseguimento a saga, a animação teve de ser parada por diversos momentos até ser cancelada definitivamente e os fãs pareciam nunca mais poder ver a conclusão animada.

Com o retorno da história na Shonen Jump em 2011 e o sucesso instantâneo que isso gerou, o estúdio madHouse, o mesmo de Death Note (leia a resenha aqui) e alguns curtas de Batman, the Gothan Knghit (leia a Resenha aqui) foi além do que os fãs imaginaram e iniciou uma nova animação contando a história desde o início novamente.

Com um traço mais leve e dinâmico que a primeira produção, o estúdio MadHouse caprichou em Hunter x Hunter e fez jus a sua alcunha de melhor estúdio japonês de animação da atualidade. Apesar de sutil, a diferença no traço dos personagens foi muito benéfica, o que faz do anime algo muito atual mesmo após dez anos de existência.

Netero desafia Gon no dirigível até o local do terceiro teste e lá Gon mostra que força bruta não é o fator principal de um Hunter.

Apesar de ser mais fiel ao mangá que a produção do Nippon Animation, algumas cenas foram cortadas do original, e focos diferentes em diálogos serviram para melhor ajustar a relação dos personagens a algo mais contínuo e simétrico a toda a obra.

Assistindo ao primeiro anime e mesmo ao ler mangá, a impressão que se tem é que o trio principal da história é formado por Gon, Leório e Kurapika, tendo Killua como uma espécie de protagonista rebelde adjacente a maioria dos acontecimentos, a mesma impressão que se tem com Ikki de Fênix em Cavaleiros do Zodíaco ou com Hiei em Yu Yu Hakushô.

Porém, após algumas sagas, fica clara a dominância da amizade de Gon e Killua como guias da série. Assim, Os focos, closes e conversas, apesar de ainda fiel ao mangá, deixaram a percepção do espectador muito mais atenta a grande amizade que se desenvolvia entre Gon e Killua e como Leório e Kurapika, apesar de fundamentais, são uma espécie de lado B no desenvolvimento da história.

HUNTER X MUNDO

Yoshihiro Togashi criou uma série no tom certo, contada da maneira certa, numa época que o mundo dos mangás shonen precisavam de uma simplificação para seguir adiante. Todas as obras que seguiram com sucesso pelos anos 2000 precisam agradecer a Hunter x Hunter e principalmente a sua saga inicial.

Despretenciosa, porém cheia de conteúdo e razão de ser, o Exame Hunter refletiu tudo o que uma série precisa para começar, linkar o desenvolvimento e buscar um fim sem que todo o decorrer da história seja previsível ao leitor.

Já faz quase uma década e meia que Hunter x Hunter começou e em breve, o autor já confirmou, teremos os últimos capítulos da história. Mas com a força e a inspiração que Gon e seus amigos provocam ao leitor e a todos os mangaká iniciantes do Japão e do mundo, é certo que sua história não se privará a décadas, mas durará para sempre.