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RESENHA: Homem-Formiga

Explosões, megalomania, personagens grandiloquentes e muitas doses de destruição e efeitos especiais pareciam ter se tornado o padrão super-herói de filme hollywoodiano. Para quebrar um tabu e ao mesmo tempo relembrar o público que um herói é muito mais que grandes salvamentos do mundo, o Homem Formiga é o filme para inspirar multidões com seu universo micro.

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DE WRIGHT A REED

Desde 2006, Edgar Whright, diretor conhecido por sua visão peculiar de filmes de gênero (Shaun of the Dead que o diga), sinaliza o interesse em produzir um filme sobre o Homem-Formiga, um dos heróis mais oscilantes das histórias em quadrinhos da Marvel.

Difícil de adaptar, tanto por seu nome bizarro quanto por seus poderes singulares que não o glorificam em nada quando comparado aos seus companheiros de melhor renome, o Homem Formiga ganhou sua chance nas telonas quando a Marvel Studios decidiu criar o seu Universo Cinematográfico pautado na super equipe d’Os Vingadores, a qual o herói é um dos membros fundadores nos quadrinhos.

Com Wright na direção com a ideia de produzir um filme de gênero para herói, um longa de assalto com pitadas de humor e os bons efeitos especiais que o Homem de Ferro (leia a resenha aqui) já demonstrava ser possível em 2008 parecia ser o cenário ideal para a ascensão do herói.

Porém, com o projeto sendo arrastado por anos, com diversas mudanças de datas e localização dentro do Universo Cinematográfico da Marvel, culminou com o diretor saindo da produção do filme, alegando diferenças criativas com a Marvel Studios.

Hank Pym é o gênio por trás das partículas Pym.

Hank Pym é o gênio por trás das partículas Pym.

Assumindo seu lugar, o diretor Peyton Reed ganhou a difícil missão de adaptar o herói a partir das ideias originais de Wright, somando com as bases que a Marvel Studios queria e apresentar um herói quase desconhecido do grande público em um tempo de produção 7 vezes menor que Wright tivera preparando seu filme.

Tudo parecia macular contra, mas diferente do seu tamanho, o Homem-Formiga se mostrou um grande filme!

UM, DOIS, TRÊS HOMENS-FORMIGA

Mas porque raios o Homem-Formiga seria um herói oscilante se a ideia de um homem que cresce e diminui já foi usada por tantos heróis dos quadrinhos e da TV? A verdade é que, apesar de ser um dos fundadores d’Os Vingadores, o Homem-Formiga nunca foi muito popular, tendo passado pelas mais diversas reformulações de nome, identidade, origem e, ainda hoje, é um herói que não emplaca nenhuma grande história.

Pois bem, como resolver isso? A grande sacada do filme foi fazer de um dos pontos negativos do herói um dos maiores trunfos para a construção dos personagens que compõe a história: o longa apresentou ao público nada mais nada menos que 3 versões do personagem de maneira concreta e todas focadas em um mesmo e consistente tema: a família, um dos grandes valores do herói nos quadrinhos que nunca foi utilizado adequadamente.

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De ladrão à mocinho. Quais as motivações de Scott Lang?

O primeiro dos heróis nos é apresentado em 1989, quando o Homem-Formiga original, Hank Pym (Michael Douglas), demite-se da S.H.I.E.L.D. depois de descobrir que a organização tentou duplicar sua tecnologia de encolhimento que faz com que o Homem-Formiga seja possível; Pym acredita que a tecnologia é perigosa e decide escondê-la em segredo.

O segundo Homem-Formiga e protagonista do filme nos é apresentado nos dias atuais, vários meses após os eventos que ocorreram em Sokovia com os Vingadores: Scott Lang (Paul Rudd) foi libertado da Prisão de San Quentin depois de cumprir três anos, por roubar de seu antigo empregador. Lang visita a casa de sua ex-mulher, Maggie, para a festa de aniversário de sua filha, Cassie, onde ele descobre que Maggie está noiva de um policial, Paxton.

A terceira versão do herói nos quadrinhos é inteligentemente adaptada como o vilão do filme: enquanto Pym faz uma visita à sua antiga empresa, Pym Technologies, o atual presidente e antigo pupilo de Pym, Darren Cross (Corey Stoll) revela o projeto Jaqueta Amarela, um traje experimental que encolhe de tamanho e que Cross acredita irá revolucionar a guerra e a espionagem.

Homem Formiga vs Homem Fomiga: Jaqueta Amarela é uma das muitas versões do heroi nos quadrinhos.

Homem Formiga vs Homem Formiga: Jaqueta Amarela é uma das muitas versões do herói nos quadrinhos.

A vida dos três se mescla quando Scott Lang decide assaltar a casa de Hank Pym e este, descobrindo as habilidade ladinas do ladrão, decide treiná-lo como o Homem Formiga para espionar Darren Cross.

Inteligente e sagaz, o longa pode apresentar ao espectador anos de confusão e dúvida de como utilizar o herói em uma versão enxuta, direcionada e audaz.

Para completar o time, Evangeline Lilly interpreta Hope Van Dyne, a inteligente filha de Hank Pynn que reluta de todas as formas em confiar em Scott Lang. Aliado ao fato dos flash-backs de seu pai sempre mostrarem a sua fiel companheira, a Vespa, a perspicácia da personagem gera a expectativa do público quanto a sua participação na ação, se esta usará ou não o traje da mãe durante o filme, sendo ainda um dos principais chamarizes para sua participação em futuros projetos da Marvel Studios.

E QUAL É O TAMANHO DA FAMÍLIA?

A vantagem criativa que o Homem-Formiga tem perante seus irmãos mais velhos do Universo Cinematográfico da Marvel é contar uma história micro em um universo que parece depender de histórias macro. Enquanto Guardiões da Galáxia (leia a resenha aqui), Os Vingadores: A Era de Ultron (leia a resenha aqui) e todos os seus antecessores criaram situações que colocavam em risco o mundo ou o universo todo, o Homem Formiga se preocupou em problemas de um contexto muito menor, mas de uma importância tão, ou ainda mais, importante que a salvação do globo: a salvação da família.

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Hope Van Dyne é um dos pontos que geram expectativa ao fã!

Enquanto Scott Lang se torna o Homem-Formiga sempre preocupado em dar um bom lar para a sua filha, é o tormento de Hank Pynn em proteger Hope que o atormenta com as sombras do passado por ter deixado a família de lado.

Mesmo a motivação do Jaqueta Amarela não é das mais megalomaníacas. Ele usa o traje de vilão para conseguir a fama, o prestígio e a riqueza unicamente para si, sem nenhuma pretensão de dominação do mundo ou coisa parecida.

Estabelecendo o excelente roteiro, sobrou apenas para os efeitos especiais fazerem sua parte no contexto geral do filme para deliciar o espectador com as cenas mais criativas que a Marvel Studios já produziu no cinema, utilizando o poder de diminuir e crescer da maneira mais engraçada e frenética possível.

USANDO AS PARTÍCULAS PYM

As cenas de ação são excelentes, desde Scott Lang experimentando seus poderes, passando por missões ou em sua luta final. A comédia é na medida, engraçadissíma e utiliza muito bem os personagens secundários, em especial Luis, o amigo de Scott Lang em textos inteligentes e que se mantem divertidos cada vez que se repetem.

Num universo onde tudo é Michael Bay, o filme trata de uma temática micro.

Num universo onde tudo é Michael Bay, o filme trata de uma temática micro.

Evangeline Lilly e Michael Douglas são o ponto forte da interpretação dos atores, sua química notável de filha e pai funciona, cativa e gera interesse. Paul Ruddy encarnou Scott Lang muito bem, mas não se fez essencial como Homem-Formiga, ele ainda precisa encontrar o tom para não criar essa separação entre o personagem e seu alter-ego.

O ponto fraco do filme fica no desenvolvimento do vilão, que parece sobrar no enredo geral do filme. Apesar de criar uma ameaça importante, ele não se mostra um grande desafio, fazendo do clímax mais um deleite visual de criativas cenas de efeitos especiais que um caso a ser solucionado.

Mesmo com a saída de Wright, o Homem-Formiga se beneficiou e muito das ideias que o roteiro do diretor criaram e fundiu o foco da Marvel Studios de maneira exemplar, criando um filme minúsculo de nome, mas gigante em qualidade.

RESENHA: Relatos Selvagens

Com a evolução das tecnologias, com as facilidades de se conseguir comida e com o ideal do sucesso ungido sob uma mente que supera o físico, o homem se tornou um ser cada vez mais humano e complacente com as dores e os sentimentos do seu próximo. Porém, o eu-selvagem sempre habitará a alma humana, seja por herança genética ou como sistema de defesa. Pelo menos, é o que mostra Relatos Selvagens, filme argentino premiado no mundo todo.

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ESTRUTURA SELVAGEM

Em 28 de outubro de 2015, o Cine Belas-Artes da capital paulista bateu um recorde histórico: completou-se um ano ininterrupto de exibição de um mesmo filme estrangeiro nas telas do cinema. Para quem não conhece, o Cine Belas-Artes é um cinema de rua a moda antiga que, após quase fechar as portas visto a concorrência desleal com os multiplex dos shopping centers, conquistou um público cativo ao se dedicar a exibição de filmes mais cults, alternativos para o grande público, mas essencial para os cinéfilos.

O filme em cartaz era nada mais nada menos que o longa Relatos Selvagens, filme indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro que elevou a qualidade do cinema argentino a patamares nunca antes visto: sintetizando qualidade, originalidade e quebra de paradigmas em uma só produção.

A ideia do diretor Damien Szifrón era abordar de diferentes maneiras como o ser humano pode se tornar tão selvagem quanto o meio que ele chama de selvagem. Para isto, ele decidiu dividir o filme em 6 histórias diferentes, cada um com seus personagens, seus cenários e seus dramas particulares, mas sempre abordando uma característica humana que o faz perder o status quo de ser racional.

Erica Rivas de noiva é o maior espetáculo do filme!

Erica Rivas de noiva é o maior espetáculo do filme!

Logo na abertura do longa, nos é mostrado tomadas de vários animais, variando entre estados de caça até momentos de repouso, focando olhares e movimentos que muito se parecem com seres humanos também nesses estados, já iniciando com uma bela metáfora do quão próximos homem e animal podem ser.

DO AVIÃO AO FILHO PRÓDIGO

O diretor Damien Szifrón disse que ele encara a ideia de dirigir um filme como um exercício para explorar a realidade além da realidade, ou seja, eles gosta de pensar em histórias possíveis, porém impensáveis de se acontecer. Por isso, os personagens de Relatos Selvagens são todos visivelmente perturbados ou fixados em ideias comuns do dia-a-dia que elevados a niveis extremos se tornam muito preocupantes.

É muito mais interessante assistir o filme às cegas, sem conhecer o roteiro das seis histórias, por isto, esta resenha vai se conter e evitar spoilers, focando nos pontos interessantes que a linha criativa que o filme segue, provocando o espectador e atraindo a sua reflexão.

Mesmo tendo que criar personagens e situações novas a cada capítulo, o filme em nenhum momento perde o fio da meada, atraindo a atenção do espectador a cada cena, fazendo do filme uma experiência totalmente dinâmica. As seis histórias são fantásticas, mas 3 delas são excepcionais, e a primeira delas é a que introduz o filme: Pasternak.

Nunca faça isso no trânsito!

Nunca faça isso no trânsito!

Esse primeiro capítulo é a grande isca do filme. Mesmo sendo bem curto, o diretor cria uma situação angustiante dentro de um avião numa mescla de O Carro Desgovernado com Força Aérea Um, sendo possível de só esta história protagonizar um filme inteiro. É o tipo de drama que fisca o expectador e o faz ter certeza que ele vai gostar de todo o longa.

As duas histórias que seguem abordam a vingança desmedida em uma lanchonete em Las Ratazanas e a ira que se pode chegar em momentos de provocação em El más Fuerte. Em todos capítulos o humor negro é bem acentuado, mas estas duas histórias destacam-se por brincar com personagens bem caricaturais. Assista ao filme acompanhado e você vai poder ver as reações mais diversas de todos ao seu lado.

O capítulo Bombita é outro excepcional que traz um pouco de alívio ao público. Certamente, não ninguém que não consiga se colocar na pele do personagem de Ricardo Darín, um dos atores mais influentes da Argentina, e dizer que nunca pensou em tomar as atitudes que ele tomou.

Neste capítulo, em específico, é interessante notar como é desenvolvido o gatilho que transforma o homem em fera. Szifrón foi muito feliz em se aproveitar ao máximo dos recursos de câmera para captar os movimentos dos olhos dos atores que demonstram o efeito “chega!” dos personagens.

É angustiante ver consternações das personagens.

É angustiante ver consternações das personagens.

La Propuesta vem como um complemento aos demais, abordando de maneira angustiante o drama psicológico que o próprio ser humano consegue se colocar quando põe seus interesses na frente de qualquer situação de punição.

RELATOS CASAMENTEIROS

E genialmente aumentando as expectativas dos expectadores, Szifrón encerra seu filme com uma verdadeira obra-prima quando coloca a atriz Érica Rivas protagonizando um casamento dos sonhos que consegue captar todos os sentimentos dos episódios anteriores e unir numa mensagem final extasiante e inesperada.

Claramente influenciado pelas noivas que o escritor brasileiro Nelson Rodrigues criou em suas peças, em especial “Vestido de Noiva”, a história aborda tanto o lado racional quanto as atitudes desmedidas que as alucinações geradas por situações selvagens podem causar. Do mesmo jeito que Nelson, Szifrón realidade e alienação se mistura em uma sintaxe reflexiva e provocativa.

Todo mundo se coloca na situação dos personagens.

Todo mundo se coloca na situação dos personagens.

Roteiro, produção, fotografia, interpretação. Tudo em Relatos Selvagens é feito com um primor comparável a poucas poucas produções hollywoodianas. Uma verdadeira quebra de paradigma quanto a ideia de fazer cinema, utilizando-se dos conceitos antropológicas para afetar a quem assiste com exímia proeza que inverte o papel de personagem e expectador e metaforiza como nenhuma outra produção, o quão irônico são os lados selvagens e civilizados podem parecer um para o outro quando colocados lado-a-lado.

 

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RESENHA: Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força

O que é o novo e o que é o velho quando um choque de gerações se une num mesmo propósito numa mistura de expectativas, aspirações e pontos de vista? O que é o novo e o que é o velho quando não importa qual seja o estilo, a origem ou o destino, mas sim a mensagem final? O que é o novo e o que é o velho quando até mesmo o novo e o velho são contestados quanto a sua ordem cronológica? Meus caros, a resposta para tudo isso é Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força.

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CATANDO LIXO

Interessante notar como a relação do público com os efeitos especiais do cinema muda em um sistema cíclico muito próximo do das artes audio-visuais e literárias. Ainda nos anos 70, George Lucas criou diversas tecnologias e sistemas de filmagem para dar vida a sua ópera espacial, e depois, nos anos 2000, o visionário diretor se entregou a tecnologia do chromakey para usar a computação gráfica como principal recurso para moldar seu rico universo. Em ambos os casos, o diretor estava na vanguarda dos efeitos especiais, utilizando ao máximo os recursos que tinha em mãos.

Mas dez anos após encerrar a exibição do Episódio III no cinema, a exigência do público é outra: a galeria de universos criados por meio dos panos verdes soa preguiçosa por expectadores que valorizam os efeitos práticos de diretores como Christopher Nolan (da trilogia Batman – O Cavaleiros das Trevas) que usam técnicas muito mais próximas das que Lucas utilizou nos anos 80 do que das modernas artes que o After Effects pode produzir. É para estes cinéfilos que foi criado Star Wars – O Despertar da Força.

Referência no mundo dos efeitos visuais, a Lucas Film caiu como um tesouro para Disney, que soube avaliar exatamente como tratar o público fanáticos pelo universo de seu visionário fundador quando entregou Star Wars nas mãos de J.J. Abrams, o aclamado diretor de Lost, Alias e Star Trek: Nova Geração.

 

Aventura é a palavra chave do filme!

Aventura é a palavra chave do filme!

Atento as exigências de mercado e declaradamente fã da maior franquia espacial dos cinemas, Abrams desde o início mostrou que estava pensando com a cabeça do antigo George Lucas, criando cenários com materiais de verdade, arquitetando robôs inusitados que funcionam no mundo real e fazendo atores caminhar por areias e florestas a fim que estes sentissem na pele as dificuldades dos personagens.

Estes conceitos importados de não muito muito tempo atrás, mas já nostálgico, resume-se bem na protagonista de O Despertar da Força: Rey é uma catadora de lixo, que explora máquinas e veículos perdidos e soterrados no inóspito planeta Jakku para trocar maquinário reciclado por comida. Forte, independente e inteligente, a personagem ainda representa muito bem a atual geração de fãs de Jogos Vorazes que valorizam personagens femininas que em nada deixam a dever para os famigerados protagonistas masculinos das obras de aventura clássicas. Interpretada magnificamente pela Daisy Ridler, a personagem quebrou tabus ao mesmo tempo que cumpriu os desejos dos fãs.

Dá para acreditar que não é um efeito especial?

Dá para acreditar que não é um efeito especial?

Até mesmo o seu companheiro BB-8 é um símbolo da união do velho com o novo. Enquanto a cabeça do robozinho parece muito com os traços do andróide R2-D2, seu corpo redondo é umas inovação no designs dos maquinários quadradões da obra, além, claro, de fazer parecer impossível sua existência para a física de Isaac Newton.

Junto com Rey, J.J. Abrams ainda “reciclou” uma outra classe de personagem para formar o casal de protagonistas da história: Finn é um Storm Trooper rebelde. Soldados que herdaram a obediência e severidade dos clones das Guerras Clônicas, os Storm Troopers sempre tiveram um visual muito bem aproveitado nos produtos licenciados, mas sempre deixados de lado na trama dos 6 longas da franquia, fazendo apenas o papel dos “bonecos de massa” que aparecem, cumprem a sua função (seja ela perder ou vencer) e vão embora.

Finn (ou FN-2187, como era conhecido como Storm Trooper) rompe o paradigma dos soldados sem desejos próprios e cria uma trama original a partir de um elemento clássico. Junto com Rey, o casal se mostra digno do legado da franquia, com uma “química” incrível, que além de conquistar o expectador, instiga os fãs a quererem saber mais dos personagens. Enquanto Finn protaoniza momentos hilários e ao mesmo tempo de superação, as descobertas e as revelações sobre Rey é o que mais impressiona no filme. O talentoso Oscar Isaac mostoru-se o mais carismático da história (ok, depois do BB-8) e foi a escolha ideal para a proposta ideológica do personagem.

Finn é o mais carismático!

Finn é o mais carismático!

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

É claro que presenciar a criação de novos elementos, ainda mais quando muito bem feitos, para uma série clássica é muito realizador. Mas o efeito nostálgico que a presença dos antigos personagens causam são fenomenais. Se no trailer a aparição de Han Solo e Shewbacca já arrepiou os fãs, no cinema ele consegue até tirar lágrimas em cenas que fazem referências muito fortes aos seus antecessores.

Como um todo, O Despertar da Força segue muito a linha criativa do Episódio IV: Uma Nova Esperança. Apresenta os personagens, apresenta o vilão e através de um mentor mostra por que os protagonistas podem quebrar o “status quo” do cenário estabelecido.

É por meio de Han Solo que Rey e Finn descobrem que as lendas sobre Jedis e combates épicos para destruir as Estrelas da Morte são reais e é também por ele que o expectador passa a entender melhor quais são os perigos que passam a Nova República instaurada por Leia e Luke com a criação de um grupo que herdou os desejos dos Sith e de Darth Vader: a Primeira Ordem.

Meio sem querer, Han Solo é o mentor do novo filme!

Meio sem querer, Han Solo é o mentor do novo filme!

E se os fãs acharam que Harrison Ford não daria conta do seu papel (mesmo quebrando a perna durante as gravações), o ator se mostrou peça chave em toda a trama, estando presente em mais de 80% do filme. De estilo debochado e um romântico canalha, impossível não se emocionar em sua cena com Leia (interpretada pela sempre bela Carrie Fisher), que mais uma vez, parecem ter sido feitos um para o outro tamanha as diferenças que aproximam o casal. Destaque total para a atuação do ator, que mesmo sem ser Jedi, se mostrou um verdadeiro mestre da sétima arte.

Até mesmo o maior desafio do filme foi cumprido. Apesar deixar para os próximos filmes o desenvolvimento do Líder Supremo Snoke (que aliás aparece aos seus subordinados no maior estilo vilão de tokusatsu), Kylo Ren se mostrou um vilão digno de ser odiado.

De personalidade fraca e por vezes oscilante, o rebelde sem causa interpretado muito bem por Adam Driver transita entre aclamado e odiado pelos expectadores por diversas vezes, visto que o personagem é exatamente o retrato de um corte do cordão umbilical com a hexalogia original. Se por vezes, este pareceu indigno do legado de Darth Vader, não há fã no cinema que não torça entusiasticamente para que o vilão seja derrotado em sua batalha final, visto o quão dramático é o seu climax.

Kylo Ren é um vilão oscilante. Por isso merece ser odiado!

Kylo Ren é um vilão oscilante. Por isso merece ser odiado!

Além disso, o fato de todos da Nova República conferirem a Luke Skywalker a última esperança para vencer a Primeira Ordem, faz que o filme todo tenha um tom de mistério acerca do paradeiro do grande herói da Aliança Rebelde, fazendo com que os fãs fiquem teorizando, durante o filme, a partir das informações passadas, como o último jedi vai aparecer. E o resultado faz muito bonito!

UM NOVO ÉPICO

Explorando cenários diversos como desertos, gelo e florestas, todos os lugares clássicos da hexalogia se fizeram presentes no novo filme. Somando com personagens, atores, máquinas e batalhas especiais de tirar o fôlego, J. J. Abrams se mostrou, além de fã, um diretor tão visionário quanto George Lucas, fazendo com que todos os fãs não possam imaginar melhor mente criativa para tomar conta da franquia.

Como foco na aventura e na trama individual de cada personagem, o longa deixa a trama política às margens de um contexto simples e claro como nos anos 80, mas tão profundo e interessante de ser explorados em outros meios como livros, desenhos animados e games como na trilogia dos anos 2.000.

Essa cena já nasceu clássica!

Essa cena já nasceu clássica!

Um verdadeiro encontro de gerações, o filme respeita o legado de Star Wars ao mesmo tempo que apresenta um rico universo para os fãs de primeira viagem. Apesar de ser muito mais interessante assistir ao longa depois de ter visto os outros seis filmes da franquia, qualquer um que se arrisque a começar sua história com o Episódio VII vai se deliciar com o ritmo frenético dos acontecimentos e de seus três atos muito bem definidos.

Com um final extasiante e cheio de reviravoltas, todos os fãs que sentarem na sala de cinema para contemplar essa verdadeira obra-prima do cinema contemporâneo vão concordar com o mesmo ponto: não importa se é novo, velho, contemporâneo, noir, clássico ou fora de paradigma, Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força é o resultado de uma legado que traz novamente aquela torcida pelo mocinho, a rivalidade com o vilão e a emoção de uma luta entre o bem e o mal tão inocente que só um universo de muito tempo atrás, em uma galáxia muito muito distante é capaz de trazer!

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Leia também na Salada Web: Review de Star Wars – O Despertar da Força!

RESENHA: Star Wars – Episódio II: O Ataque dos Clones

Uma das premissas da juventude é a transformação. Biologicamente, o corpo se transforma com a puberdade; emocionalmente, a mente amadurece; ideologicamente, o jovem transmigra de ser passivo e se torna o protagonista do meio em que vive. Em meio a perturbadas guerras ou a um ambiente de paz, há muito, muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, o jovem Anakin também se transformou, em Star Wars – Episódio II: O Ataque dos Clones, começa o grande combate entre sabedoria da juventude e a força da tradição.

INÍCIO DO PASSADO

Uma das frases que mais povoou a mente dos amantes da saga de George Lucas, foi quando ainda no primeiro filme da série, foi revelado que o pai de Luke Skywalker lutou nas chamadas Guerras Clônicas, um evento que mudou para sempre o governo e a soberania do Império Galáctico.

Se toda a mitologia do passado de Star Wars sempre foi algo das teorias e das fanzines mais diversificadas e criativas dos fãs, nada melhor do que revelar como foi o início das Guerras Clônicas como tema do segundo filme da segunda trilogia que conta o segundo episódio da maior saga espacial que o cinema já teve.

Além disso, mesmo para os novos fãs, a curiosidade pela continuação da história se torna latente mesmo antes do início do filme, afinal, não há quem se perguntasse como e porque o inocente Anakin Skywalker se tornaria o tão temível vilão Darth Vader com tutores de tamanha coragem e honra como Obi-Wan Kenobi?

Mesmo com a base complicada e muito administrativa do universo Star Wars durante A Ameaça Fantasma (clique aqui para ler a resenha), não há como não querer sempre mais batalhas de sabre de luz, mais princesas sendo salvas e mais monstros estranhos sendo derrotados. Misturando tudo isso e mais um pouco, começa o Episódio II.

O jovem Anakin Skywalker precisa conviver com a dor da perda mesmo antes de se tornar um Jedi.

EU ODEIO QUANDO ELE FAZ ISSO

Anakin cresceu, já se passaram 10 anos desde que Qui-Gon-Jin morreu após resgatar um pequeno menino com alta concentração de midichlorians no sangue em Tatooine que todos passaram a acreditar ser o jovem previsto pela profecia que trará o equilíbrio para a força. Obi-Wan já é um mestre Jedi e Padmé Amidala se tornou senadora do Senado Galáctico após exercer dois mandatos seguidos como Rainha do planeta Naboo.

Com personagens já conhecidos do público, o filme começa logo em grande estilo. Com a iminente ameaça à vida de Padmé por um inimigo desconhecido que conhece a influência da ex-rainha no Senado, Anakin e Obi-Wan passam a protegê-la, logo tendo que iniciar um combate aéreo com perseguições em carros voadores num grande planeta metrópole da República.

Logo na perseguição é deixado claro as diferenças entre mestre e discípulo: enquanto o primeiro prefere se utilizar de métodos consagrados pelos Jedis para fazer a guarda e deter os inimigos, o segundo prefere se utilizar da criatividade e dos impulsos do momento para executar planos que se adequam as condições do perigo.

A senadora Amidala é alvo dos separatistas!

O atrevimento de Anakin chega a perturbar constantemente a Obi-Wan, a quem ele acusa de privar seus talentos e a impedir que ele se forme um mestre Jedi de uma vez por todas. Apesar de ser uma conduta trivial da adolescência, o filme explora a que níveis tal comportamento pode levar alguém com poderes como a Força.

A clássica briga entre adultos e adolescentes fica ainda maior quando a paixão de Anakin por Padmé chega a limites extremos: por ordem de Yoda, o jovem padawan (aprendiz Jedi) se torna o guarda-costas da senadora Amidala, enquanto Obi-Wan vai investigar a origem dos perseguidores. Tal decisão de Yoda funciona como um meio-termo do que cada um dos dois queria seguir após verem o assassino de Amidala morto por companheiros: enquanto Anakin queria investigar em dupla, Obi-Wan queria fazer a guarda em dupla. Separando os dois, Yoda estimulou Obi-Wan a comportamentos mais jovens e Anakin a condutas mais adultas, já que Padmé sabe que uma senadora não deve se envolver emocionalmente como um Jedi.

ANAKIN, SINTO QUE UM DIA VOCÊ AINDA MAIS ME MATAR

Ao contrário do Episódio I, o enredo aqui é simples, e por isso mesmo tão inspirador. Enquanto Obi-Wan descobre o exército de Clones que a República prepara a anos em segredo para deter os ataques dos separatistas, hoje liderados pelo servente de Darth Sideous (representante máximo do lado negativo da força), Conde Dooku, que está se preparando para atacar a Aliança Galáctica da República comandada pelo Senado, Padmé e Anakin descobrem a importância da amizade em um relacionamento amoroso, detendo ao máximo seus impulsos carnais.

Obi-Wan descobre a criação dos Clones a pedido de um antigo Chanceler da República.

Se a arrogância juvenil de Anakin por vezes o parecia levá-lo a lados não muito nobres da força, foi quando ele e a princesa viajam para Tatooine para se encontrar com a mãe do padawan, que o jovem experimenta pela primeira vez sentimentos hediondos capazes de levar um homem a loucura, quando descobre que o Povo da Areia sequestrou e matou sua mãe.

As experiências em Tatooine começam a aguçar ainda mais o sentimento do casal. E a grande mensagem do filme começa a se formar quando Anakin e Padmé, agindo até então responsavelmente graças a ação de Yoda, passam a valorizar o aproveitar do momento e a experiência da felicidade enquanto houver vida no momento. O mesmo acontece com Obi-Wan, que preso pelos separatistas passa a entender o método in loco de Anakin.

A luta final dos três protagonistas contra os exércitos separatistas além de levar Star Wars a um ponto jamais antes visto nas quatro produções anteriores em questões de efeitos especiais, levam a uma prévia do que seriam as Guerras Clônicas que a República iniciaria com os Separatistas.

Com uma baixa quantidade de soldados para combater os droids inimigos, a República decide apelar para o uso dos Clones produzidos para fins bélicos, mesmo que sem total consciência da origem deles, visto que o produtor deles, está lutando a favor do Conde Dooku.

Conde Dooku é um ex-Jedi líder do movimento separatista!

Se os efeitos com sabres de luz e naves espaciais já faziam os fãs sonharem a noite nos anos 80, a luta do trio de protagonistas mostrada em detalhes, com frames e closes em cenas de ação são de tirar o fôlego. E o que falar de Yoda lutando contra Dooku? Se o boneco da trilogia original já era carismático, o Yoda lutador se transforma no personagem dos sonhos: o sábio ermitão com um poder de fogo de tirar o fôlego!

FAÇA OU NÃO FAÇA. A TENTATIVA NÃO EXISTE

Cheio de referências a trilogia clássica, desde frases de Obi-Wan até a perda do braço de Anakin para o conde Dooku, Star Wars Episódio II – O Ataque dos Clones finalmente pôde mostrar para a nova geração de fãs o porquê da trilogia clássica ser tão cultuada até os dias de hoje. Cheia de conflitos ideológicos, personagens cativantes e performances (tanto dos atores quanto da equipe de efeitos especiais) épicas, a produção é o reflexo da grandiosidade técnica e da simplicidade cativante do diretor e criador George Lucas.

Explorando um tema não presente em nenhuma de suas produções antigas, Lucas pôde explorar de maneira singular o embate entre jovens e adultos mesclando toda a riqueza do universo de Guerra nas Estrelas com o jogo de adivinha que a personalidade de Anakin resguarda com sua futura transformação em Darth Vader.

Contar a origem dos clones que se tornaram peça essencial para as quase lendárias Guerras Clônicas ligam passado e presente na história, fazendo com que, além de contar o passado do grande vilão da saga, ainda cumpra seu papel histórico dentro da mitologia da série.

R2-D2 e C3PO são as únicas testemunhas do casamento de Anakin e Padmé.

Instigante, carismático e ao mesmo tempo perturbador, o jovem Anakin conquista os jovens e ganha o respeito dos mais maduros, não por ser o personagem que todos queriam ser, mas por revelar uma parte do ser humano que todos querem exprimir e a sensação que todos não param de ter: a paixão pela vida e a vontade de fazer tudo certo, mesmo que todas as transformações a sua volta pouco valham, se comparada ao caleidoscópio de mudanças que se passam em seu interior.

RESENHA: Liga da Justiça – A Legião do Mal (Warner Premier)

E se a maior fraqueza do maior grupo de super-heróis da Terra fosse mostrado e utilizado contra eles? E se o único que pudesse dissolver a maior equipe de todas fosse um de seus mais queridos integrantes? Em Liga da Jusiça – A Legião do Mal, os heróis são expostos e sua inteligência corrompida.

Sucessos de crítica (nem sempre) e vendas, os filmes de super-heróis viraram uma verdadeira categoria no cinema, responsável por muitas das maiores arrecadações em bilheteria da história. Entre a produção de um filme e outro, a saída dos estúdios é produzir produtos mais baratos e facilmente comercializáveis, como filmes animados para home-video.

Em 2012, a Warner trouxe para os lares mais fanáticos por heróis coloridos sua terceira produção animada da Liga da Justiça. Herdando uma longa lista de boas produções do estúdio, que se especializou em mesclar a qualidade das historias em quadrinhos e os recursos dos desenhos animados, a produção mais uma vez foi um sucesso.

Baseada num arco escrito por Mark Waid chamado A Torre de Babel, Liga da Justiça – Legião do Mal mostra o que aconteceria com a Liga da Justiça se os seus representantes mais poderosos fossem vencidos com um minucioso plano da Legião do Mal, um grupo de super-vilões encabeçado por Vandal Savage.

A participação de Cyborg foi essencial para o desenrolar da trama.

Produzindo balas de kriptonita para matar o Superman, destruindo a vontade do Lanterna Verde Hall Jordan, impedindo Flash de desacelerar, fazendo a Mulher Maravilha lutar com outros membros por meio de alucinógenos e colocando fogo no Caçador de Marte (mais conhecido por AjaxJohn J’ons ou o Marciano no Brasil), Savage se vê no topo do mundo, tendo que lidar apenas com os heróis de menor poder para poder conquistar o mundo.

Com surpresas e vários tempos sendo contados ao mesmo tempo, o espectador descobre que todas as soluções que num primeiro momento parecem simples mas que aos poucos se mostram verdadeiras armadilhas muito bem articuladas para os heróis vieram de um documento roubado pela Liga do Mal da caverna do Batman.

Sim! Prevendo que algum dia alguma coisa pudesse sair do controle dentro da Liga da Justiça, Batman se adiantou e preparou diversas armadilhas para os heróis mais poderosos da equipe e agora se viu traído por si mesmo num ardiloso e trapaceiro plano dos inimigos.

Se aproveitando da proximidade com o lançamento de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, a Warner Premiere escolheu animar uma história que conta com a participação de Bane.

Com uma dublagem perfeita (tanto na versão americana quanto na brasileira, que se utilizou em sua maioria do elenco do desenho em série da Liga da Justiça), uma luta final sem tantas surpresas quanto a revelação de Batman e um diálogo final de cair o queixo, o filme se destaca pela boa participação do herói Cyborg (conhecido no Brasil pela sua participação em Jovens Titãs) no desenrolar do enredo.

Com uma história básica mas muito bem desenvolvida (melhor até mesmo que o filme d’A Morte de Superman) o filme é um item de coleção na vida de um fã e uma boa diversão numa tarde aleatória de um espectador comum.

A imagem da Liga da Justiça reunida sempre surpreende!

RESENHA: Batman – O Cavaleiros das Trevas

Justiça. Confundido com a cruz e a espada, um justiceiro cria esperança aos mais inocentes e terror aos mais difusos. Em Batman – O Cavaleiros das Trevas caos e o acaso se unem para contar a história do herói que Gothan precisa, mas que ela precisa aprender a merecer.

O CORINGA

Desde Titanic, não houve filme na história do cinema mais cheios de rumores, mais cheios de lendas, mais cheios de superstições ou simplesmente mais comentado em escolas, locais de trabalho ou numa conversa com os amigos do que Batman – O Cavaleiro das Trevas.

Cercado por contextos e desconexos, o segundo filme do Homem-Morcego nas mãos de Christopher Nolan surpreendeu multidões no cinema e fora dele, seja com seus diálogos fortes ou com todos os acontecimentos envolvendo atores e produção.

Se o trabalho de marketing envolvendo o filme se tornou uma referência mundial para o chamado marketing de guerrilha (com ações que variaram desde shows com a esquadrilha da fumaça na Comic Con até caça ao tesouro na cidade de São Paulo), foram as tragédias envolvendo o acidente de Morgan Freeman, o caso da provável agressão de Christian Bale e a morte de Heath Legger que levou o filme a repercussões mundiais mesmo antes da estréia do filme em 2008.

Mas independente das previsões e do proveito que muitos meios de comunicação tiraram da situação, não foram tais acontecimentos que tiraram o brilho dos filmes na telona, um clássico dos tempos modernos e arrisca-se a dizer, o melhor filme de todos os tempos.

Até quando será necessária a existência de Batman em Gothan City?

E não é para menos, combinando a figura de um herói sombrio com a perpetuação do caos que um vilão imprevisível poderia propiciar, Christopher Nolan levou para os cinemas uma experiência nunca antes vivida por um expectador em qualquer tipo de arte.

De maneira muito mais contestadora e muito mais incisiva que Batman Begins, o segundo filme do reboot do Homem-Morcego se utilizou de toda uma mitologia para racionalizar em metáforas questões que levam o espectador a se perguntar a todo o tempo o que este faria se estivesse em Gothan City.

O CAOS

Não é a toa que Batman é um herói que sobrevive a décadas e para sempre seu legado será perpetuado através de suas revistas. Junto com Superman, o herói consegue englobar a todo tipo de espectador, primeiro o que prefere uma visão simplista e esperançosa e o segundo aqueles com uma visão complexa e menos clara do que será seu futuro.

Mesmo que criados numa visão durante a segunda guerra mundial, os valores e a simbologia deixadas, utilizadas e sumariamente reinventadas nos quadrinhos, tv e cinema formam uma rica visão ideológica para ser passada através das lentes de Hollywood, afinal qualquer tipo de idéia pode ser reinterpretada e aplicada em qualquer tempo que seja exprimida.

Coringa é como um cachorro atrás de um carro, se conseguisse pegá-lo, não saberia o que fazer com ele.

Christopher Nolan foi o diretor que mais pôde perceber isso ao filmar seu Batman. Sua Gothan foi formatada de mostrar toda a decadência que uma cidade com 33 milhões de habitantes pode criar. Seus habitantes, tão corruptíveis e ao mesmo tempo tão revoltados com a situação que criaram se tornaram cada vez mais humano com a condição que o diretor pôs a eles: um bizarro palhaço anarquista que só quer ver o circo pegar fogo.

Criado a partir de uma visão particular do diretor, Nolan levou aos cinemas através de uma atuação inigualável e memorável de Heath Ledger um Coringa ousado, irrefreável e muito possível de ser concretizado em um contexto como o de Gothan, seja na ficção ou na realidade.

O traço mais notável que foi dado ao personagem é a sua capacidade de parecer tão real, verdadeiro e próximo do espectador. Completamente louco e insano, o Coringa desperta tanta revolta quanto admiração do público.

A medida que o vilão coloca Batman em uma nova situação capciosa, Nolan vai provocando o espectador a refletir sobre o seu contexto de vida perante a cidade de Gothan, muitas vezes restritas e desejosas de uma resposta concreta do herói, coisa que, como na vida real, muitas vezes não viria.

EU ACREDITO EM HARVEY DENT

Do mesmo jeito que o Coringa foi formatado a partir de uma situação de Gothan City, o mesmo que Nolan fez com o alter-ego de Bruce Wayne em Batman Begins, o promotor de justiça Harvey Dent foi o resultado do encontro da cidade com o seu herói.

Batman, Harvey Dent e o comissário Gordon se unem na caçada contra o crime organizado da cidade!

Necessitada de um exemplo para continuar a seguir, Bruce Wayne e o comissário Gordon vêem em Dent a oportunidade ideal do símbolo Batman não ser mais necessário e a inspiração dos cidadãos parta de algo muito empírico que a figura do Homem-Morcego.

A conversão que Coringa provoca em Harvey até ele se tornar o Duas-Caras não foi por acaso. Além de feita em um tempo incomum para os filmes de super-herói ao único estilo Nolan de fazer cinema, a ascensão do vilão foi o complemento ideal para a conclusão do filme e a idéia geral da figura de Batman na cidade, um intermediário entre a condenada Sodoma e Gomorra e a transmutação em valorosa Metrópolis.

Não só o personagem como muito do contexto da cidade, de Coringa, do comissário Gordon e do próprio Batman vem de uma combinação genial de elementos das histórias O Longo Dia das Bruxas de Jeph Loeb e O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.

Assim como nos filmes, uma das características principais dos quadrinhos é a humanização do herói e dos vilões, e a construção de cada uma de suas personalidades sem justificar as insanidades de suas ações.

Acrescentando a discussão sobre ética, moral, medo, caos e vingança que o filme trás em cada diálogo, todos muito bem construídos e claros, a formatação final do filme cria o ambiente perfeito para uma nova geração de filmes de super-heróis e uma nova visão de como se contar histórias através do cinema.

Segundo o Duas-Caras, o acaso é o mais justo dos decisores.

O CAVALEIROS DAS TREVAS

Estamos destinados a fazer isso para sempre“. Incrível como uma das frases do Coringa consegue ser tão clara e tão complexa ao mesmo tempo.

Se para os fãs a frase teve um significante que refletiu a permanente luta entre o bem e o mal do herói e do vilão, a filosofia interpretou tal colocação como o caos e as regras permanentemente moldadas através da essência do homem.

E se fosse avaliar os campos da psicologia, antropologia, comunicação ou qualquer outra ciência humana, tal embate entre Batman e Coringa poderia percorrer tamanhas interpretações e posicionamentos que tão ricos como os dois personagens, gerariam irreversíveis conteúdos para novas e eternas discussões.

RESENHA: Lanterna Verde

Se pararmos para contar a quantidade de filmes de super heróis que foram para a tela dos cinemas nos últimos anos, os dedos das mãos (mesmo apelando com os dos pés!) são serão suficientes para chegar até o total de produções. Os números são ainda mais monstruosos se comparados a quantidade de filmes de antes dos anos 2000. Em pleno século XXI, o Lanterna Verde mistura todos os elementos da velha e da nova guarda para criar um filme regular, mas que agrada.

O “UM ANEL”

“No dia mais claro,
Na noite mais densa,
O mal sucumbirá ante a minha presença
Todo aquele que venera o mal há de penar
Quando o poder do Lanterna Verde enfrentar!”

É com este juramente que Hal Jordan, um piloto de avião ousado acaba tendo sua vida transformada completamente após salvar um alienígena de roupa militar que lhe confiou um anel verde que o transformaria no guardião do setor espacial n° 2814 sob a alcunha de Lanterna Verde.

Fiel aos quadrinhos, a produção de 2011 levou até os cinemas o herói mais famoso da Tropa dos Lanternas Verdes, que assim como nos quadrinhos sofreu diversas transformações até ser formatado no personagem visto nas telonas.

Criado em 1940, Alan Scott criou um anel de energia verde a partir de um vestígio caído na Terra do Coração Estelar, artefato que a Tropa dos Lanternas Verdes criou para concentrar toda a “Vontade” do universo, considerada força de energia mais poderosa do universo. Pela cor da energia, o herói se intitulou Lanterna Verde.

Ok, ok. Se o filme é fiel aos quadrinhos, porque o enredo da origem dos quadrinhos é tão diferente da dos filmes? Simples, pois o Lanterna Verde mostrado nas telonas é o personagem mais famoso de todos os 5 humanos que já usaram os anéis da Tropa, o Lanterna Verde Hal Jordan.

A mitologia do herói é tão rica que por si só daria uma tremenda saga espacial nos cinemas.

Mesmo esta origem de Alan Scott foi uma adequação ao roteiro mais maduro e mais criativo que passou a ser utilizado a partir dos anos 60, quando Hal Jordan e toda a mitologia da Tropa dos Anéis foi criada e fez com que o herói (que até então vestia roupas vermelhas) caísse no gosto do público americano.

Depois de Hal, o anel ainda foi parar nos dedos de Guy Gardner, John Stuart e por fim Kyle Rayner. Todos estes personagens foram necessários nos quadrinhos para que o herói fosse adequado e readequado para os públicos ou aos gostos dos diversos autores que já colocaram a mão no herói.

Tais adequações parecem ser um eterno karma do herói, visto que seu longa sofreu de problemas parecidos com sua história nos quadrinhos.

DESISTINDO DE TUDO

Dirigido por Martin Campbell, que conta com um histórico dividido entre pérolas e diamantes, o filme começou com suas oscilações logo antes de sua estréia, com dois trailers muito divergentes entre si, um mostrando um filme maduro e denso e outro mostrando um herói pateta que provoca risadas forçadas no público.

É possível que com o sucesso dos filmes da Marvel Studios, que abusam da simpatia dos heróis, e dos filmes de Christopher Nolan, que tem a profusão de enredo e a realidade ficcional como palavras-chave, o diretor tenha tentado mostrar que o filme conseguiria agradar a ambos os públicos, uma tentativa frustrada, já que o Lanterna Verde mistura tantos conceitos dos filmes de super-heróis que já não se consegue encontrar as tentativas de referências aos seus concorrentes.

Sinestro foi o destaque do filme.

Assim como o protagonista do filme faz na história, a impressão que o filme deixa ao seu final é que muita coisa tentou ser feita, foi começada e foi desistida de ser concluída no meio do caminho. Vários elementos de filmes massivos estão presentes mas não foi fortes o suficiente para conquistar o público, como o romance entre Hal e Carol Ferris ou os conflitos de personalidade entre heróis e vilões.

Não só as várias seqüências do filme, mas o longa inteiro também segue tal premissa: com um início motivador, bem construído e cheio de elementos que poderiam resultar num novo clássico dos cinemas, o longa aos poucos vai abandonando a família, a profissão, a politicagem, a repercussão de seu aparecimento e a Tropa dos Lanternas que ficaram tão fortemente marcadas nos primeiros 30 minutos do longa.

MEDO VS VONTADE

A grande lição que o filme traz é a superação do “medo” a partir da “vontade”, as duas energias mais poderosas do universo contrárias uma a outra, tendo uma tanta profanação quanto a outra tem de nobreza.

Uma metáfora simples, porém perfeita para contar a história de um personagem irresponsável como Hal Jordan torna-se um mero detalhe com o passar do longa, quando seqüências mal ligadas transformam o filme num festival de efeitos especiais.

Efeitos especiais são muito bem-vindos quando dão vida a mitologia do herói, recriando o planeta Oa e os extraterrestres que formam a Tropa dos Lanternas, que sem sombra de dúvida é o total destaque do filme, juntamente com os atores que interpretaram os instrutores de Hal, Tomar-Re (dublado por Geoffrey Rush), Kilowog (dublado por Michael Clarke Duncan) e Sinestro (Mark Strong), que apesar de tão bem atuado, teve uma participação muito pequena pela história.

O maior vilão do universo do herói foi uma escolha um tanto quando prematura.

Mas é peculiar quando os efeitos especiais são utilizados para recriar conceitos de filmes de super heróis dos anos 70 e 80, quando o exagero é fundamental para dar origem aos poderes do herói.

Não são raras as vezes que vemos o herói do filme usar a energia do herói para criar metralhadores, pistas de carrinhos, jatos, redes e tantas outras bizarrices que são aceitáveis em desenhos animados, mas deixam o tom do filme, até então muito sério, um tanto quando popularesco e banal.

Estes elementos são ruins, assistir Superman com Christopher Reeve ainda é uma delícia, e muitos dos artefatos de energia do Lanterna são legais de ver, pois são a materialização da narrativa dos quadrinhos num live-action, mas a mistura de diversos elementos acaba prejudicando o filme.

VENCENDO SEM VENCER

É possível que a direção do filme não se perdesse tanto no decorrer do filme se não tivesse escolhido um vilão mais adequado para um início de história. Parallax é uma entidade suprema no Universo do Lanterna Verde, sendo o tipo de vilão que não é vencido, apenas engavetado, de tão forte que é o seu conceito atrelado a energia do “medo”. Assistir a um herói iniciante vencer tal monstro quando todos os seus veteranos desistiram é algo que condiz com a mensagem do filme, mas ainda assim é algo forçado.

Tão forçado quanto o ator do herói, Ryan Reynolds, que parece estar fazendo uma comédia simples ao invés de um filme de super herói aguardado por gerações. Ou ainda mais forçado que a máscara que criaram para o personagem, que consegue não consegue convencer como uma peça criada por uma tecnologia alienígena avançada.

Apesar da adaptação do uniforme ter sido uma dos melhores que o cinema já viu, a máscara do herói foi uma peça muito forçada…

Apesar de gostoso de assistir e finalizando com uma mensagem interessante, o filme é apenas uma tentativa de emplacar uma boa produção de super herói nos cinemas, fazendo do filme uma produção simplista numa época em que se pedia algo sofisticado. Um filme feito para o dia mais claro, quando os longas de super heróis vivem a sua fase mais densa.

RESENHA: A Invenção de Hugo Cabret

Expressão. Talvez esse seja a palavra que melhor consegue englobar todos os anseios do homem contemporâneo e de todas as outras eras. Por mais simples que o desejo possa parecer, para que este possa se concretizar é necessário que algo ou alguém expresse sua vontade de realizá-lo com todo o calor que o ser humano aprendeu a usar ao seu favor ao longo de sua história. A Invenção de Hugo Cabret mostra que qualquer realização depende de sua expressão, mesmo que essa tenha que partir de um princípio menos expressivo.

CONCERTANDO MÁQUINAS

O cinema quando somado a boa publicidade produz armadilhas engraçadas para os espectadores. Quem nunca foi ao cinema esperando um filme medonho de terror e se deparou com uma comédia bonachona das mais raspas de pé?

O efeito que trailer e o cartaz provoca muitas vezes não compartilha da mesma sintonia que o filme traz e depois de pago ingresso a quem se deve culpar? Ao briefing mal dado da produtora a agência que recebeu as fotos? Ao diretor que resolveu colocar apenas as melhores partes no trailer? Ou inocência repetida mais uma vez frente-a-frente da bilheteria?

Entre culpas e brincadeiras de mal gosto de milhões de dólares, muitas vezes o inesperado surpreende e o espectador que entrou no cinema esperando um filme infanto-juvenil cheio de situações fantasiosas se deparou com um drama muito mais que fantástico, capaz de emocionar as razões mais intrínsecas do homem.

Sim, isso é A Invenção de Hugo Cabret, um filme vendido como uma produção infantil de alta qualidade para não revelar um conteúdo profundo que poderia afastar o espectador mais casual do cinema.

Baseado no livro homônimo do título brasileiro (o título original do longa é simplesmente Hugo), o filme dirigido por Martin Scorsese conta muito mais que a história de um menino que vive sozinho em Paris, se transformando a medida que o tempo é contado num ode a história do cinema.

O autômato deixado pelo pai é a única ligação com o passado que faz Hugo avançar para o futuro.

EM SEU PROPÓSITO

Hugo Cabret é um menino que vê a Paris dos anos 30 a partir da visão do alto das paredes da torre do relógio de uma estação de trem, local onde ele passou a viver com o tio bêbado, que o abandonou posteriormente, após a morte de seu pai.

Sem freqüentar a escola, mas muito esperto graças a tudo o que o seu pai lhe ensinou sobre mecânica e o funcionamento das coisas, o garoto tem como grande objetivo concertar um autômato, última lembrança que ele tem do pai, mas para isso deve se manter no anonimato, já que na estação um desajeitado guarda leva todos os garotos não acompanhados dos pais para o orfanato da cidade.

Com uma introdução infantil, o espectador não espera o que está por vir a medida que a narrativa avança. Com poucas falas, muita trilha sonora e uma textura que impressiona os olhos a cada detalhe que se descobre ao redor da tela de cinema ou nas lacunas que o diretor vai deixando ao longo da história para preencher no final.

A visão de mundo que passamos a conhecer a partir do protagonista, interpretado maravilhosamente por Asa Butterfield, que já novo demonstra todo o seu talento, surpreende a cada lição de moral que ele dá nas diversas situações que se vê envolvido.

Por estar tão ligado as máquinas, Hugo cresceu interpretando o mundo como tal, cada um com sua função, cada um com seu propósito, cada um com sua razão de ser.

A medida que a narrativa avança, tais preceitos se tornam essenciais para o sentido final da trama, que justifica o porquê de seu cuidado com a fotografia, o pouco texto e a alta trilha sonora.

A medida que ajuda Isabelle, Hugo começa a descobrir ligações entre o autômato e a chave em forma de coração.

METACINEMA

A Invenção de Hugo Cabret é além de tudo uma justa homenagem a um dos maiores cineastas que o mundo já teve, sem o qual o cinema talvez nunca tivesse chegado até aonde chegou, ou pelo menos não de maneira tão rápida.

Georges Méliès esteve presente na primeira sessão de cinema que os irmãos Lumiere rodaram ainda no século XIX. A visão que teve de tal invento o impressionou tanto que o, até então, mágico vendeu tudo o que tinha para construir o primeiro estúdio de cinema europeu, onde criou as mais fantásticas formas de contar história.

Todos os truques de cena, trucagens de filmagens e diversos efeitos especiais utilizados no cinema até a invenção da computação gráfica foi iniciada com Méliès, que diferente dos Lumiere, viu o cinema como uma atraente maneira de contar histórias.

Refilmando varios dos filmes, mas agora em 3D, e utilizando muitos originais Martin Scorsese traz junto com Hugo Cabret um Méliès idoso e sem esperanças para contar a gloriosa história do cineasta.

Um filme que conta a história da produção dos filmes, eternizando e dando valor a arte da filmagem, que se banaliza cada vez mais hoje com a diversidade de câmeras e celulares que filmam em todo e em qualquer lugar.

Ben Kingsley interpreta Georges Méliès.

ACERTANDO OS PONTEIROS

“Eu concerto máquinas”. Sim, isso é o que Hugo Cabret faz. E com Méliès não é diferente. Colocando o cineasta num patamar onde nunca deveria ter saído, A Invenção de Hugo Cabret é uma aula de como filmes devem ser feitos.

Com uma mensagem simples mas muito profunda, o filme expressa toda a vontade de um homem em expressar suas ideias para que o espectador comece a expressar tudo o que mensagem do filme resgata do seu eu mais íntimo.

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Abaixo, você confere Le voyage dans la lune (Viagem à lua) de 1902, em que usou técnicas de dupla exposição do filme para obter efeitos especiais inovadores para a época, e que ainda hoje conseguem expressar toda a genialidade da arte de contar histórias do cinema.

RESENHA: A Bela e a Fera, Walt Disney

Os contos de fada são o alicerce de todas as histórias de ficção e fantasia dos tempos modernos. A cada vez que é contado, a história se transforma, ganha pontos e projeções do interlocutor, ganhando cada vez mais riqueza e contribuindo para a formação e a evolução natural da história no tempo e no espaço a qual está inserida. A Bela e a Fera dos estúdios Walt Disney é a representação máxima de um conto que se transformou com o passar de gerações e perpetuou seus personagens no imaginário de todo mundo todo, extendendo-se muito além de uma vida no interior.

UMA VEZ DISNEY…

Após a morte do gênio Walt Disney, fundador, principal diretor e produtor dos filmes e desenhos produzidos pelo estúdio que leva seu nome, os filmes canônes, principal animação do ano que entra para a linha clássica, da Disney tiveram uma queda significativa de qualidade, aprovação da crítica e do público.

Isso levou o estúdio a fazer diversas parcerias com outros estúdios nos anos 70 e 80, originando filmes interessantes, mas de pouco impacto para o público. O retorno de grandes produções de sucesso só viria em 1989, quando a Disney estreiou A Pequena Sereia, com direção de  Ron Clements e John Musker.

A Pequena Sereia ficou conhecido como o filme que renasceu a Disney, mas foi graças A Bela e a Fera que o sucesso inicial de Ariel pôde ser repetido várias vezes em todos os seguintes filmes do estúdio durante os anos 90.

Mesmo sendo sondados diversas vezes pela produtora, os diretores de A Pequena Sereia se recusaram a produzir A Bela e a Fera. Assim os escolhidos para a produção, após o então presidente da Walt Disney Studios, Jeffrey Katzenberg, ter recusado os storyboards iniciais ainda no fim dos anos 80, foram Kirk Wise e Gary Trouslade, que já haviam produzido filmes para serem exibidos no Epcot center, um dos parques do gigantexto Walt Disney World na Flórida.

Junto com a roteirista Linda Woolverton e os compositores Howard Ashman e Alan Menken, os mesmos de A Pequena Sereia e futuramente de Aladdin, o resultado do filme superou qualquer expectativa inicial transformando o conto original francês numa das obras mais cultuadas dos anos 90. O sucesso de crítica foi tão grande que A Bela e a Fera foi a primeira animação a concorrer ao Oscar de Melhor Filme em 1992.

As canções de Ashman, que havia descoberto recentemente que sofria de AIDS, o que levou a produção toda a realizar o filme em Nova York para ajudar na saúde do compositor, garantiram ao filme o Oscar de Melhor Trilha Sonora e o Oscar de Melhor Canção Original com o tema “Beauty and the Beast”.

MAIS QUE A VIDA NO INTERIOR

O primeiro tema do filme e também aquele que embala a maioria das trilhas sonoras variantes serve como apresentação de Bela, a jovem camponesa de um vilarejo francês que sonha com heróis, mocinhas bandidos e todo o tipo de fantasia que os livros da biblioteca podem lhe transmitir.

O sonho de quem quer ascender. Essa é a mensagem de da sonhadora Bela.

Apesar de ser a jovem mais admirada da cidade, Bela sempre recusava os pedidos de casamento dos homens da vila, principalmente do insistente Gastão, o caçador mais habilidoso (e menos inteligente!) das redondesas. Apesar de ser o galão mais desejado pelas donzelas da cidade, Bela via em Gastão um homem superficial, negligente com assuntos sentimentais.

O que Bela não imaginava seria que os contos que ela tanto se fascinava nos livros se tornariam realidade quando tivesse que salvar seu pai que, tão sonhador quanto a filha, acabou se abrigando num castelo escondido no meio de uma floresta quando sua carroça foi pega por uma tempestade mas acabou refém do dono do castelo, o aterrador Fera, que há 10 anos vivia isolado do resto do mundo após um feitiço que ele mesmo provocou.

UM CONTO RECONTADO

A história original de A Bela e a Fera é oriunda da França. Escrito e publicado por Gabrielle-Suzanne Barbot, a Dama de Villeneuve, em 1740. Mais tarde o conto foi reescrito por Madame Jeanne-Marie LePrince de Beaumont, que resumiu e modificou a obra de Villeneuve.

Apesar de grande parte dos elementos do filme da Disney estarem presentes nos contos originais, estes apresentam muitos pontos distintos que, como acontece na grande maioria dos contos-de-fada, acabam chocando quem está acostumado com o jeito Disney de narrar os contos-de-fada clássicos.

Historicamente, os contos-de-fada foram largamente utilizados para dar lições nas crianças que a ouvem. Com o conto de A Bela e a Fera não é diferente, mas sua primeira versão é ainda mais complexa. Publicada em meados do século XVIII a obra já começara a sofrer grandes influências do Romantismo que já eclodira na Inglaterra e aos poucos começava a ganhar força na França.

A exploração do grotesco. Influências do Romantismo europeu estampados em Fera.

O ponto mais claro dessa influência é a exploração do grotesco. Antes do Romantismo era comum que o bem e o mal ficassem muito claros numa história através de sua aparência. Durante a Antiguidade na Grécia e depois resgatado por toda a Europa durante o Resnascimento, os ideais de beleza e simetria estampavam heróis, deuses, damas e seres fantásticos, enquanto que o aterrador, o horroroso e o despresível eram estampados por monstros e seres inescrupulosos e cruéis.

Fera é o retrato do mal, com aparência que causa espanto, medo e sua personalidade também não é das mais amigáveis. Porém conforme Bela vai conhecendo o coração por trás da pele de monstro, Fera revela seus verdadeiros sentimentos e toda a sua capacidade de amar.

A fuga do lugar comum para lugares idealizados também é muito clara. A história se passa em um vilarejo não muito distante dos existentes na França no século XVIII, mas a história toda gira em torno de um castelo escondido numa floresta de dificil acesso. É quase inimaginável que um castelo gigante como o do Fera não fosse conhecido do povo, ainda mais em um período ta curto entre o seu feitiço e o encontro com Bela (apenas 10 anos), mas  a liberdade criativa romântica permite isso.

Mas a riqueza do universo de A Bela e a Fera da Disney não pararm por aí. Até mesmo a versão brasileira do filme, num caso único e particular, permite um escopo de interpretação interessante. Tanto a voz de Gastão e de Fera são realizadas pelo mesmo dublador, Garcia Junior, famoso pela voz de He-Man e, mais tarde, de Simba adulto de O Rei Leão.

Gastão é metido presunçoso. Mas devido ao su tipo másculo, apenas Bela vê isso.

Mesmo isso tendo acontecido apenas no Brasil, é interessante interpretar a mesma voz como um mesmo lado que ambos os personagens tem em comum. Gastão é o retrato escrito da personalidade de Fera antes de ele se encontrar e rejeitar a feiticeira que o transformou em monstro devido a sua aparência simples e anciã.

A VERSÃO 3D

Em 2012 A Bela e a Fera voltou aos cinemas para cair no gosto dos pequeninos, dos fanáticos pelo 3D e dos marmanjos de plantão.

A Disney saiu na frente em 2010 quando exibiu Toy Story e Toy Story 2 em 3D e viu que o retorno de filmes de sucesso, mesmo com inúmeras opções em DVD, Blu-ray e TV a cabo existam, pode ser algo de muito retorno para a empresa. Com o sucesso de O Rei Leão 3D em 2011, a ação parece que não vai parar tão cedo.

Comparados aos seus três antecessores de velha guarda, o 3D de A Bela e a Fera foi o mais bem explorado. Mesmo com que o ambiente do filme fosse muitas vezes composto de apenas um plano de foco, as camadas posteriores foram tão bem trabalhadas que facilmente o expectador se sentia dentro do laboratório do pai de Bela ou do Castelo de Fera.

Mesmo com uma divulgação muito menor que O Rei Leão, a animação conseguiu em duas semanas arrecadar 100 milhões de dólares em todo o mundo e esse número só tende a aumentar. Ainda para 2012, a Disney prepara Monstros S.A e Procurando Nemo em 3D e os resultados não serão diferentes.

Um romance que diverte crianças e emociona adultos.

UMA ROSA PARA SE GUARDAR

Assim como a flor que o mantinha o Fera vivo, A Bela e a Fera é um clássico precioso que merece ser guardado, relembrado e repassado para todas as gerações.

Mais que representante da ascensão das animações Disney, mais que um sucesso comercial e de entretenimento, o filme transmite uma das mais belas, com o perdão do trocadilho, mensagens que um conto de fada pode passar para crianças e adultos: independente da aparência, da maneira de agir ou de como as pessoas vêem algo, o importante é o ser humano, como agente individual de ideias e opiniões saiba avaliar o quanto vale o coração do seu próximo, seja ele o mais belo príncipe de um reinado ou o mais devasto animal aterrador de toda a floresta escura inundada pelos mais frios temporais.

RESENHA: Fate/stay Night – The Unlimited Blade Works (filme – 2010)

Todos tem um herói interior. O ser que se levanta nas horas mais dificeis, supera obstáculos e faz feliz a todos aqueles que ama. O modelo de herói é sempre externo, vem do homem com capa e espada da tv, da amazona guerreira dos quadrinhos ou mesmo do pai que sempre sorri quando o filho chega da escola. Fate/stay Night – The Unlimited Blade Works conta a história de um héroi herdado no passado de um ente querido que volta do futuro para acabar com seus sonhos.

LEMBRANÇAS DE UM REI

Para quem ainda não assitiu a série regular de Fate/stay Night (clique aqui para ler a resenha) não é recomendável que comece a sua jornada por seu universo com o filme The Unlimited Blade Works. Isso porque o longa conta, de início, a mesma história da série que lhe deu origem, porém, passa por cima de muitos elementos essenciais para sua total compreensão.

Além disso, uma de suas principais contribuições é a mudança de foco que o filme provoca em comparação a série original, fazendo deste o maior atrativo para quem já assistiu as duas obras.

Num primeiro instante, parece impossível imaginar Fate/stay Night sem o seu principal atrativo, Saber, mas logo no início a guerreira que encarna o espírito heróico do Rei Arthur fica em segundo plano em The Unlimited Blade Works, que só pelo nome já dá a dica do personagem a que a produção é voltada.

Na série original um dos personagens mais cativantes e mais pouco explorados enquanto vivo foi o espírito heróico que Rin Tosaka convocou erroneamente enquanto tentava convocar um guerreiro da classe espadachim: o arqueiro Archer.

Rin e Archer ganham destaque no longa!

O guerreiro de cabelos brancos era um cara frio, além de centrado e obediente aos desejos de sua mestra. Porém, o personagem conquistou a todos quando, contrariando essa personalidade, durante o ponto alto de sua participação na primeira série, demonstrou seu espírito passional ao transmitir a Emiya Shirou, o protagonista da série e mestre de Saber, a origem de seu poder e como poderia crescer como mago, fato essencial para o desenrolar de toda a trama que se seguiu. Além disso, o mesmo se sacrifica pela segurança de Rin, Shirou e Saber ao enfrentar o gigante Berserker, espírito heróico do semi-deus Hércules e servo da pequena Illya.

ARQUEIRO SEM PASSADO

Esqueça o Rei Arthur, a segunda vida de Saber e o romance de Emiya com sua serva. Em The Unlimited Blade Works, a história dos protagonistas é outra e o papel de Archer é fundamental.

Do mesmo jeito que na série original, Archer inicia sua participação sem conhecer seu passado, porém sua atitude é bem diferente do que realiza na série anterior. Provocador, meticuloso e por vezes traiçoeiro, o espírito heróico nunca concordou com a idéia de Rin em se juntar com Emiya durante a Guerra do Cálice Sagrado e por vezes tenta matá-lo.

O cúmulo dessa sua atitude acontece quando ele abandona sua mestra e aceita, por iniciativa própria, se tornar servo de Caster, o espírito heróico da feiticeira Medéia da mitologia grega que dessa vez compreende papel essencial pra o desenvolvimento da história do filme.

Apesar de ser o principal destaque da série original, Saber fica de lado neste filme.

Assim como era com Berserker na primeira série, Caster é temida por todos os outros mestres, já que é a causadora de diversos ataques a humanos para o recolhimento de energia que servirá de base para a invocação do cálice e a responsável pela morte de Rider, a serva de Shinji que, assim como Illya, teve sua participação totalmente mudada neste filme.

REVELAÇÕES

O universo de Fate/stay Night é muito atrativo por conseguir conciliar elementos de vários gêneros literários e combiná-los numa única obra. O romance é essencial no decorrer da história, mas neste filme ele acontece de maneira diferente.

Sequestrada por Caster grande parte do filme e serva de Tosaka em determinado ponto, já era de se esperar que não seria Saber o casal de Emiya neste filme. Parceira do protagonista durante todo o tempo, seu guia pelo mundo mágico recém descoberto e abandonada por Archer, é Rin que cria sentimentos pelo garoto, que sozinhos, não tem outra opção a não ser confiar um no outro durante a guerra pelo cálice.

É tentando salvar Rin da orgia de parcerias que acontecem entre o ganâncioso Shinji, o falso padre Kotomine, o servo resguardado da última geurra Gilgamesh (também da classe arqueiro), Archer e Lancer; Shirou se depara com a maior revelação e o principal atrativo do filme: a origem de Archer é nada mais nada menos que o próprio Emiya!

Archer é Shirou? Então porque um tenta matar o outro?

Complicado? Nem tanto, mas como em todo o universo da série, é necessário uma boa dose de criatividade para interpretar o que acontece. Após ser salvo por seu pai adotivo durante o incêndio que ocorreu durante a quarta Gerra pelo Cálice Sagrado (a do filme e a do anime é a quinta, que acontecesse 10 anos após a quarta) Emiya sempre teve seu pai como imagem de héroi perfeito. “Eu quero ser um defensor da Justiça” foi a frase do falecido pai que sempre marcou a vida Shirou.

Com a experiência mágica e as lições aprendidas durante a Guerra Pelo Cálice Sagrado, o fim da história possibilita que Shirou se torne o herói que a cidade de Fuyuki e todo o mundo precisa e a existência de Archer é a prova cabal que é esse o seu futuro, já que a invocação de Rin é a do espírito heróico vindo do futuro que Shirou ainda se tornaria após o fim da guerra.

A justificativa da invocação também não foi um ponto sem nó. Não existem regras para o tipo de espírito que o mestre invoca para entrar na guerra, mas os sentimentos que Rin nutriu por Shirou seria uma boa justificativa para a invocação deste ao invés de um da classe espadachim que a garota, com seus talentos mágicos, certamente conseguiria invocar.

Mas o que deveria ser o encontro do veterano com o iniciante, cai por espada abaixo, pois Archer tem verdadeira obsessão pela morte de Shirou, uma tentativa de apagar seu passado para evitar o futuro que ele, como herói, teria que enfrentar se Shirou vencesse a Guerra pelo Cálice. A luta final dos dois não poderia acontecer em melhor estilo,  dentro do próprio The Unlimited Blade Works, golpe mais poderoso de Archer nas duas séries.

Mistérios acerca do principal golpe de Archer são traçados!

UM NOVO CONTO DE CAVALARIA MODERNA

I am the bone of my sword.
Steel is my body and fire is my blood.
I have created over a thousand blades.
Unknown to death,
nor known to life.
Have withstood pain to create many weapons.
Yet those hands will never hold anything.
So as I pray, Unlimited Blade Works.

É com essas palavras que o filme tem início e é com elas que todas as sequências mais exaltantes acontecem, transformando o filme, assim como a série a que a origina numa verdadeira obra-prima da animaçao japonesa.

Apesar do início excessivamente dinâmico para apresentar os personagens e o contexto da Guerra pelo Cálice Sagrado (que fica um tanto quanto confuso para qum não assistiu a série original) e a falta do enredo base de Saber, o filme The Unlimited Blade Works é  complemento perfeito para a série original, com o longa apresentando a solução de muitas lacunas que o fim do anime deixa para o espectador.

Além disso, a principal contribuição do filme é o embate ideológico que o presente sonhador tem quando enfrenta o seu próprio futuro frustrado. Estes dois pontos de vista talvéz sejam os mais conflitantes entre jovens e adultos, educados e condicionados a contextos sociais que embora pareçam movidos pelos mesmo fatores, apresentam sonhos e ideais tão distantes entre si.

Ambas as idéias se misturam numa sintonia tão perfeita que o espectador se sente na pele do próprio Shirou lutando para não se desapegar do futuro que após tanto almejar, decide frustrá-lo. Mais que um filme, The Unlimited Blade Works é mais um clássico de cavalaria moderna que o visionário Nishiwaki Datto conseguiu agrupar tão bem dentro de um universo que ainda tem muito a ser explorado.