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RESENHA: O Caderno da Morte, em Jundiaí

Mesmo para o jundiaiene comum que passava pela Rua Barão de Jundiaí no centro da cidade, a movimentação incomum próximo do Centro das Artes já era o indicativo que algo diferente acontecia na cidade naquele dia 09 de junho. Com roupas coloridas ou cheias de preto, toucas de personagens de desenhos animados ou camisetas estampadas com super heróis, o público indicava que uma peça teatral incomum para a cidade estava prestes a começar. Nos bastidores, muita maquiagem, preparação de luzes e trilha sonora, revisão dos pontos da cena e muitas trocas de roupa davam vida a mais uma apresentação de O Caderno da Morte.

A PEÇA

No mundo dos admiradores  entusiastas da cultura pop japonesa é muito fácil encontrar fãs que, por identificação ou apreciação, se vestem com as mesmas roupas que seus personagens favoritos. Nos eventos que rúnem esse tipo de fã não é dificil encontrar performances  destes fãs, que encenam curtas cenas de seus animes, mangás e games preferidos.

Porém, nunca antes uma companhia de teatro ousou se utilizar das criações nipônicas para criar peças profissionais do gênero, levando a emoção e os personagens cativantes do oriente até os teatros. Pelo menos não até a Cia Zero Zero, da cidade de São Paulo, criar O Caderno da Morte.

Baseada no anime/mangá Death Note (leia a resenha aqui) de  Tsugumi Ōba e Takeshi Obata, a companhia foi a primeira (e até o momento a única) a conseguir uma autorização dos autores e da editora japonesa para adaptar a história que é sucesso nos quadrinhos desde o seu lançamento para os palcos do teatro.

Em Jundiaí a peça chegou até a Sala Glória Rocha através do blog O Bonde Andando, que a mais de 2 anos tentava, junto da Prefeitura Municipal da cidade trazer para Jundiaí a peça que repercute em todos os lugares por qual passa. E não foi diferente em Jundiaí.

Todos de pé com a chegada de L!

A ADAPTAÇÃO

Como adaptar um mangá de mais de 2000 páginas de mangá para um teatro de duas horas? Como adaptar 37 episódios com inúmeras cenas  sequências ardilosas para um palco como o do Glória Rocha? Essas eram as perguntas que mais nortearam as cabeças do público que esperava ansioso o início do espetáculo.

Death Note é um thriller policial que reinventou a maneira como o Japão e mundo via o gênero de mangás shonen, gênero de mangá voltado para o adolescente masculino que geralmente vem recheado de nanquim espirrado decorando as inúmeras páginas de sangue das histórias. Levar a obra para o teatro não é só um trabalho difícil mas que lida com um grande número de fãs que vai cobrar qualidade no mesmo nível da obra original.

Com recursos interessantes e inusitados, que se utilizam de tvs, videos, projeções em cortinas e outros pequenos elementos presentes no mangá que não poderiam faltar (c0mo a escrivaninha de Light ou a mesa de doces de L), a companhia se utilizou de um elenco rotatório, que se alternava na atuação dos personagens para trazer todos os personagens mais relevantes de toda a história para os palcos.

Assim como na história original, o embate psicológico entre Light e L está presente e é o destaque da peça, o que possibilitou novaas sequências, diálogos inteligentes e um jogo de luzes que salientava a personalidade distinta de cada um dos personagens.

Para aproximar o público dos personagens, a Cia Zero Zero ainda criou vários diálogos que remetem ao Brasil, piadas com personalidades e lugares característicos. Para cativar, várias falas foram criadas para gerar gargalhadas, principalmente para Ryuk e L.

Instigante e amedrontador! L e Ryuk foram os destaques da peça!

A PERFORMANCE

Após soar a terceira campainha não tem mais volta, um caderno cai no palco e começa a história. É hora de acompanhar o trabalho dos atores, se emocionar com uma adaptação e compartilhar dos mesmo sentimentos que atores e fãs tiveram com Death Note.

Mas a surpresa geral acontece quando não se vêem atores entrando no palco. Com uma adaptação tão humana e ao mesmo tempo tão performática, não são atores que sobem ao palco, mas legítimos Light Yagami, Ryuk, L, Misa e Soichiro Yagami.

Sob a direção de Alice K, os cinco atores da companhia entraram em tal sintonia com os personagens que após o espetáculo muitos dos cacuetes dos atores acabaram se atrelando aos personagens originais, fazendo com que a obra original e a sua adaptação se completassem.

Se o destaque inicial fica por conta do ator que interpretou Ryuk, com sua gargalhada característica, efeitos 3D, maquiagem penetrante e uma curvatura que deu vida ao personagem de traço e tinta, a entrada de L em cena provou que os personagens cativantes não estavam restritos a figuras monstruosas super produzidas.

Com vestimentas simples, porém muito fiéis ao do original, o ator de L soube trazer todo o ar infantil do personagem ao mesmo tempo que mostrou para que o maior detetive do mundo viera.

O ator de Light, além de uma voz forte e marcante, provou ser, ao lado de L, uma figura mítica dos quadrinhos, que provoca reflexão e discussões infinitas sob a sua conduta, seja nos desenhos animados do Japão, seja nos palcos da Cia Zero Zero.

O APLAUSO

A qualidade vista em O Caderno da Morte merece um retorno em um palco maior, como o do teatro Polytheama, que não só abrigaria mais espectadores, já que na Sala Glória Rocha o teatro lotou, mas também daria condições para uma maior divulgação de um trabalho que prima pela excelência.

Não teve jeito, após duas horas de espetáculo, um novo final eletrizante, empolgante e mesmo que impossível no original, muito bem construído dentro da peça de teatro, a Cia Zero Zero foi aplaudida de pé por um Glória Rocha lotado, que prestigiou a peça, deu muitas gargalhadas com L, Ryuk e o inesperado senhor PenPen, ficou tenso nos diálogos mais eloquêntes entre L e Light e se emocionou com uma peça original, bem construída, com atores de primeira categoria e um espetáculo merecedor de um bis.

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O Caderno da Morte em cartaz hoje na Sala Glória Rocha

Baseado na obra de Tsugumi Ōba e Takeshi Obata, a companhia paulistana Zero Hora (a única autrizada a encenar a obra nos palcos em todo o mundo) acertou no ponto e trouxe para Jundiaí através do blog O Bonde Andando e da loja Flash Point a peça O Caderno da Morte, que será apresentado hoje na Sala Glória Rocha, as 19 horas.

A obra (leia a resenha aqui) retrata a vida de Light Yagami, o melhor aluno do Japão e possuidor de grande inteligência, que por acaso encontra o caderno pertencente ao Shinigami Ryuk (deus da morte na cultura japonesa), descobrindo que a pessoa que tiver seu nome escrito no caderno morrerá, com isso Light passa a ser um justiceiro, matando prisioneiros e acusados de crime por todo o mundo.

Logo suas ações são percebidas pelas pessoas que o batizam de Kira (Killer em inglês) e a polícia mundial entra em ação. No entanto a polícia percebe que não tem capacidade para solucionar o caso, assim aceita ajuda de um detetive excepcional que atende por “L”.

A partir desse momento são mostrados embates psicológicos e de grande inteligência de ambas as partes em busca da justiça e da verdade de cada um. Com humor, suspense e mistério desperta a dúvida e o debate pelo público sobre a justiça nos dias atuais.

Data: 09 de Junho de  2012 ás 19 horas

Teatro Glória Rocha – Rua Barão de Jundiaí, 1094 Jundiaí

Dúvidas: obondeandando@gmail.com ou deixar nos comentários

Ficha técnica

Direção geral: Alice K.
Adaptação teatral: Cia Zero Zero
Dramaturgia: Bruno Garcia
Trilha sonora: Gregory Slivar
Cenografia: Laura Di Marc
Figurinos: Patrícia Brito e Lívia de Paula
Iluminação: Eduardo Albergaria
Projeção: André Menezes
Direção de produção: Carla Estefan
Assistente de produção: Mariana Santos
Fotógrafo: Alexandre Sales

Pontos de Vendas:

Flash Point
Rua Marechal Deodoro da Fonseca, 357 – Centro – Jundiaí – SP
11 7440-2821

Teatro Glória Rocha Centro das Artes
Rua Barão de Jundiaí, 1094 – Centro – Jundiaí SP
11 4521 6922

RESENHA: Death Note

Qual a escolha que você faria se encontrasse um meio de acabar com tudo e a todos aqueles que causam o mau e o horror para a sociedade? E se para isso bastasse que o nome de cada um dos criminosos e assassinos que aterrorizam a todos os que saem de constasse numa lista meticulosamente escrita em um caderno? E se para a criação de um mundo novo apenas um homem precisa sujar suas mãos num crime sem pistas, sem testemunhas e sem culpado? Death Note conta até onde o homem pode corromper-se quando direitos de deus são colocadas em suas mãos, além de mostrar até onde o ser humano pode chegar para proteger problemas de um sistema que ele mesmo criou.

DESTINO DESEJADO NÃO TÂO DESEJADO ASSIM

Ao conhecer o Japão atravéz de seu universo pop, não se percebe o quanto a conduta estigmatizada ao povo oriental ainda está presente em sua cultura. Em um país pequeno, de língua extremamente local, a disputa por boas colocações no mercado de trabalho não é fácil para nenhum membro do modelo familiar atual.

Enquanto o pai de família fica preso horas no serviço seguindo, mesmo que incosientemente, os preceitos do bushido, sua esposa é a guia para os afazeres do lar e a educação dos filhos que são constantemente instigados a passar horas e horas estudando para conseguir um lugar nas escolas e faculdades mais disputadas do país para garantir o sucesso profissional.

O estudo é intenso e muitas vezes aterrador para o jovem adolescente, que preso a um destino previsível e desapegado de sonhos e transformações facilmente se frustra com com seu cotidiano e com o futuro que o aguarda, seja o calouro com problemas de aprendizado ou o veterano mais inteligente do Japão.

Colidindo fantasia à realidade, começa a história de Light Yagami. Assim como milhares de estudantes do Japão, Light vive frustrado com a vida que leva, mesmo sendo considerado o estudante com o futuro mais promissor de todo o Japão. Ao fazer o caminho de volta pra casa e mais um dia aparentemente trivial, ele encontra um caderno jogado no gramado e lê a inscrição na capa com os dizeres Death Note.

Se atententando aos detalhes do caderno ele lê uma série de regras para a sua utilização, que dizia matar em aquele que tivesse seu nome escrito em uma das folhas de seu miolo. A morte aconteceria a partir de sua descrição ou se daria após 40 segundos por ataque cardíaco.

Atrás do rosto bonitinho de Light, esconde-se uma tenebrosa personalidade.

Mesmo não acreditando na suposta magia do caderno, dentro de uma loja de discos, Light escreve o nome de um motoqueiro que aos berros tentava estuprar uma garota que passava na rua. Com a morte do homem e a garota em segurança, o adolescente sente que tem em mãos algo que pode guiar o futuro de toda a humanidade, sendo ele o escolhido para tal providência. Não demora muito para que a onda de assassinatos de criminosos espalhem uma lenda urbana que os japoneses chamam de Kira (do inglês, Killer). A única coisa que Light não contava era encontrar o seu próprio eu as avessas na figura do misterioso L.

O MAIOR DETETIVE DO MUNDO

Julgando e condenando os criminosos à morte, Light começa a utilizar largamente o Death Note. Com tantos presidiários e procurados sendo mortos de ataque cardíaco, o mundo todo começa a se perguntar o que está acontecendo no Japão. A única escolha da política mundial é levar ao Japão o maior detetive do mundo. Sem nome ou identidade, ele é conhecido apenas como L. A habilidade e o dissernimento do detetive aos poucos levam até Light, transformando o anime em um dos maiores thrillers policiais que a história da ficção mundial já teve.

Roteirizado por Tsugumi Ohba e com ilustrações de Takeshi Obata, o mangá teve início com a publicação de um episódio piloto na Shonen Jump, onde um estudante com idade bem inferior a Light consegue e passa a usar o Death Note. Com o sucesso do piloto e várias reuniões com os editores, Death Note tornou-se o sucesso mundial que é, já estando na mira até das indústrias de Hollywood.

Mesmo com a impressão de que o projeto seria rejeitado pela Shonen Jump, Tsugumi Ohba prosseguiu com a história de suspense por se considerar um escritor incapaz de elaborar roteiros para histórias de lutas e esportes. Já Takeshi Obata, após o sucesso da série até fez um curso de cabeleireiro para conseguir criar personagens com o máximo da realidade pretendida por Ohba.

"Os humanos são mesmo interessante", pensa o shinigami (deus da morte) Ryuk ao deixar o Death Note cair na Terra.

Com 12 volumes tankobon, 37 episódios para a TV, três filmes japoneses e um romance publicados, Death Note sempre contou com muitas mentes brilhantes trabalhando pela série, porém, nenhuma tão brilhante quanto os próprios Light e L, o que provocou durante toda a sua produção diversas oscilações de conteúdo e dramaticidade.

VAGANDO NUM VALE ENTRE O REAL E O IDEAL

Death Note começa surpreendendo a quem lê ou assiste. Uma idéia original, com um protagonista próximo da realidade do leitor e uma arma silenciosa que gera dúvida quanto os seus fins.

Porém, o ritmo alucinante do início da história não consegue se manter durante todo o tempo, sempre que algo grandioso acontece na história, um período de marasmo chega na história. Felizmente esse marasmo sempre resulta numa preparação para pontos ainda mais elaborados, contribuindo para o crescimento da história.

Assim, mesmo que num ritmo oscilante, onde o leitor/espectador pode facilmente perder o interesse em continuar a acompanha-la, os pontos altos da história sempre são crescentes, deixando boquiaberto a quem assiste. A morte do investigador Ray Pember, onde Light comete seu primeiro e fatídico erro, o desaparecimento de Naomi, a inóspita parceria de Light com L para encontrar Kira, a troca de Death Notes e o surgimento da empresa Yotsuba e o segundo Kira fazem com que a Death note chegasse a pontos tão alucinantes e descisivos que os autores acabara por perder o fio da meada.

Eram tantos personagens e informações no montante do caso que já não dava mais para manter a disputa entre L e Light sem que um dos dois não tomasse as rédeas da situação e vencesse a disputa.

A saída encontrada para colocar ordem na casa foi uma trama suja, baseada numa mentira, que deu uma ligeira vantagem a Kira e permitiu que desencadeasse uma onda de acontecimentos meticulosamentos organizadas durante cada um dos eventos para chegar a morte de L.

Apesar da aparência sórdida, L é o retrato da bondade e da justiça.

Tanto no anime quanto no mangá, a morte de L foi um divisor de águas. No anime, o episódio da morte do personagem foi uma das maiores obras-primas que um estúdio conseguiu produzir para uma série de TV. Qualidade de imagem, trilha sonora envolvente, frames dramáticos e um texto inteligente e muito bem dublado pelos atores que fazem as vozes dos personagens formaram um escopo perfeito da grandiosidade do enredo de Ohba pretendido no mangá, dramático, persuasivo, reflexivo e ao mesmo tempo cativante e instigante.

L morreu como um mártir injustiçado pelos efeitos do Death Note ao seu autor, deixando a lembrança de um espírito bondoso e inocente envolto da aura maligna do ser humano corrompido pela ganância e o orgulho.

UM TRAPACEIRO QUE NÃO CONHECE A SOLIDÃO

É fato que a trama de Death é inteligente e inovadora, ainda mais para o estilo shonen de mangás, mas de nada isso adiantaria se os agentes dessa trama não fossem carismáticos o suficiente para captar o espírito jovem do público da Jump.

De todos os relacionamento da série, o mais comovente é o que acontece em Misa Amane e Light. Rica, famosa e bobinha, Misa idolatra Kira por ele ter matado os assassinos de seus pais com o Death Note. Por uma ironia do destino a garota acada também conseguindo um caderno da morte e fazendo o temebroso “acordo dos olhos” com o shinigami dono de seu caderno para encontrar o homem por trás da identidade de Kira.

Impossível o expectador/leitor não despertar os mais diversos sentimentos de ira por Kira e afeição por Misa. Light se aproveita todo o tempo de Misa, se aproveitando dos sentimentos que a garota nutre por ele para usá-la como uma peça dos seus planos contra L. Se o detetive já tinha dificuldades em prever as ações do criminoso quando ele estava sozinho, junto com Misa as coisas se dificultam ainda mais.

Impossível não se indignar com todas as vezes que Light se aproveita da ingenuidade de Misa.

E HOJE EU TIVE UM SONHO QUE NINGUÉM MAIS PÔDE TER

Cada um dos subtítulos dessa resenha são frases dos temas de abertura e encerramento de Death Note. Mesmo os temas sendo “stead-ups”, músicas que gravadoras famosas patrocinam para colocar no anime, é incrível como elas se encaixam perfeitamente no contexto da história, formando um obra final em total ressonância com seu fim.

Mesmo com os problemas de produção do anime após a morte de L, cuja produção foi deveras acelerada e pontos do fim do mangá foram cortados, Death Note tanto no anime como no mangá mostraram para que vieram, desencadeando um amadurecimento no setor do entretenimento shonen japonês que passava por uma estagnação de inspiração desde os anos 90.

Death Note é uma obra marcante não só para o contexto geral do anime, mas principalmente para o fã. É interessante notar como as personalidades distintas de Light e L geram um contra-ponto interessante dentro e fora da série. Nunca uma discussão de conteúdo de série chegou a pontos tão reflexivos e ideológicos como acontece quando fãs discutem a disputa de Kira vs L.

Dramas interpessoais, sociais, jurídicos, criminalidade, fatos sociais, moral, ética, altruísmo, certo e errado. São só alguns dos pontos mais comuns que sempre envolvem os debates que avaliam as atitudes e ações de L e Kira. Mesmo após horas de discussão e dezenas de fatos e opiniões levantadas o impasse sempre entre os dois pontos-de-vista mais distintos da história dos animes sempre continuará e fará a história do adolescente entediado que encontra a possibilidade de ser Deus viver para sempre no imaginário de todos aqueles atingidos por Death Note, quer encontre respostas, quer não.