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RESENHA: Dragões de Éter: Corações de Neve

O segundo passo no conto de uma história, após estabelecer personagens, pensamentos e parâmetros, consiste em formar situações chaves que refletem seu passado e espelha seu futuro. Em Dragões de Etér: Corações de Neve, clássicos da cultura pop mundial formam o contexto que a literatura brasileira precisava em sua essência.

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CONGELANDO HISTÓRIAS

Quem é que nunca ouviu falar da doce princesa de lábios vermelhos, cabelos negros e pele branca como a neve que era considerada por um espelho mágico a mais bela de todas as mulheres? Muito provavelmente a mais clássica e mais querida história de contos de fada é A Branca de Neve e os Sete Anões, em partes pelo sucesso do primeiro longa metragem animado da história produzida por Walt Disney, em partes pela carismática mistura de personagens e situações que já entraram no imaginário popular de crianças e adultos.

Referenciando tal conto logo no título da segunda parte de sua saga, Raphael Dracoon seguiu com o conceito de Caçadores de Bruxas (leia a resenha aqui) de resgatar histórias que todos os leitores adoram para formar uma história completamente nova e cheia de novas situações em seu mundo de Éter.

Se os mundos Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e A Princesa e o Sapo sãos os guias para seu primeiro livro, em Corações de Neve a citação de contos de neve chega as dezenas, provocando gigantemente o imaginário de seu leitor e criando uma discussão extra-livro que faz sua obra durar muito mais que o próprio tempo de leitura da mesma.

Os cenários criados por Dracoon são concebidos das mais diversas maneiras pelos fãs!

Os cenários criados por Dracoon são concebidos das mais diversas maneiras pelos fãs!

Contudo, não é a manipulação da memória do leitor que é o destaque de Corações de Neve, mas sim, como Raphael Dracoon uniu a cultura dos contos de fada com elementos tão precisos e adorados pelos amantes de cultura pop!

CONGELANDO O POP

Quem já assistiu qualquer anime japonês, principalmente os do gênero shonen (literalmente, para meninos), conhece muito bem alguns dos recursos que os autores criam para alavancar sua narrativa, seja para estabelecer novos personagens, seja para renovar os mesmos. Estamos falando dos torneios entre personagens.

Guerra Galactica, Torneio de Artes Marciais, Torneio das Trevas, Torre celestial, são apenas alguns dos mais conhecidos embates que autores como Masami Kurumada, Akira Toriyama e Yoshihiro Togashi já nos apresentou ao longo de décadas de efervescência do mangá japonês. Além de gerar apostas e uma tentativa de “advinhar resultas” numa verdadeira disputa de apostas entre os espectadores, esses torneios mexem com que os instintos mais competitivos do fã, tornando do recurso do autor sempre um momento marcante no desenvolvimento dos personagens.

Com Dracoon não seria diferente. Ocupando pouco mais que um terço do livro, mas influênciado todo ele, o Torneio de Pugilismo sediado em Andreanne é o ponto central de toda a trama de Corações de Neve.

Reinterpretar as diversas histórias referenciadas durante livro é um exercício de imaginação do leitor e do autor que se completam em um só!

Reinterpretar as diversas histórias referenciadas durante livro é um exercício de imaginação do leitor e do autor que se completam em um só!

Enquanto Dracoon exalta os corações afoitos dos leitores masculinos com lutas épocas de Axel Brandford mesclados as disputas políticas envolvendo Anísio Brandord e os demais reinados que trouxeram representantes ao torneio, é com as tramas paralelas  e o amadurecimento de Ariane Narin, João e Maria Hanson e Branca Coração de Neve, que as leitoras femininas mais se identificam, fazendo do segundo volume da obra mais um clássico que agrada a todos os públicos.

Se de um lado as apostas são em qual dos lutadores passarão para a próxima fase para enfrentar Axel, do outro todos os elementos que acontecem fora do torneio vão somando razões para a derradeira história de Branca de Neve, que vai se formando no livro de forma emocionante e extasiante!

CONGELANDO CORAÇÕES

Rocky, Caverna do Dragão, Nirvana, Shiryu de Dragão, Bayonetta, Claymore, He-Man, Cinderela. As vezes é dificil responder como elementos e referências de mundos e personagens tão diferentes podem originar uma história tão encantadora como Dragões de Éter.

Sete Anões ou Sete Sábios? Como Branca de Neve foi salva quando foi levada para a floresta?

Sete Anões ou Sete Sábios? Como Branca de Neve foi salva quando foi levada para a floresta?

Somado a tantos elementos e brincadeiras de adivinhações provocadas pelo inteligente autor, a história lateral de Robin Hood, que se desenvolve paralela ao Torneio de Pugilismo de Andreanne, uni ao final do livro duas linhas de raciocícinio que torna Dragões de Éter a síntese de uma geração motivada pela cultura pop e ansiosa por revisitar personagens tão queridos de maneira tão motivadora.

Ainda mais acolhedora que seu primeiro capítulo e muito mais provocante, Dragões de Éter: Corações de Neve cria uma história cativante que aquece o coração do fã, congela sua nostalgia e reinventa o modo como a literatura do Brasil abraça a cultura mundial. Reconhecendo o ser humano como o todo de uma grande grade de emoções e inspirações que move a cultura pop!

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Pixeletra vai unir fãs de games e literatura!

O The Ramoniacs juntamente com o World Fabi Books em parceria com a Livraria Leitura tem o orgulho de anunciar o primeiro Pixeletra que ocorrerá no dia 06 de Abril na Livraria Leitura do Maxi Shopping Jundiaí a partir das 14h. O evento tem o apoio da Cia Techniatto e da Liga N-Blast Jundiaí!

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RESENHA: Dragões de Éter: Caçadores de Bruxas

Há momentos que a efervescência cultural faz com que estudiosos e apreciadores da boa arte notem que a nova Literatura está se formando. Só para citar alguns, assim foi durante o Realismo no século XIX e também durante a Semana da Arte Moderna de 1922. Agora, com a fantasia nacional atingindo números estratosféricos de venda e repercussão mundial, pode-se dizer que Dragões de Éter – Caçadores de Bruxas é o exemplar chave do momento cultural por que passa a literatura no Brasil.

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CAÇANDO LOBOS

É ousadia demais dizer que Raphael Dracoon seja o agente motivador de uma nova era da literatura nacional, visto que autores como André Vianco há muitos anos já era um nome que começava a despertar o interesse da mídia quando escreveu em cenários brasileiros histórias fantásticas sobre vampiros e lobisomens. Mas mesmo o já consagrado autor se rende à incrível capacidade que o jovem Raphael Dracoon tem de contar histórias, fazendo com que o leitor se sinta numa verdadeira cantina medieval ouvindo a história de um Bardo quando se depara com um de seus livros.

Lançado em 2007, Dragões de Éter – Caçadores de Bruxas é o reflexo perfeito de como as nuâncias do mercado literário do Brasil e do mundo estão mudando, e para melhor. Antes de ganhar o apoio e as graças de uma editora, o prodígio Raphael Draccon decidiu publicar totalmente de graça seu primeiro livro em um site da internet. Divulgando em sites de relacionamento, fóruns e demais comunidade virtuais, a auto-propagando foi ganhando fãs e adeptos do estilo Dracoon de contar histórias e logo a repercussão do título fez com que a Editora Leya apostasse na obra e levasse o título nas livrarias de Oiapoque ao Chui.

O advento da internet e todos os canais de relacionamento (social e comercial) criados por meio dela, aliado a ascensão do gêneros fantásticos cada vez mais presentes na cinema, na TV e nos livros importados do exterior desde os anos 80 e 90 são um dos principais agente motivadores da criação de diversos autores interessados no gênero, que no Brasil sempre foi muito mal visto.

Nova Éter é um universo que reúne todos os Contos-de-Fada!

Nova Éter é um universo que reúne todos os Contos-de-Fada!

Se nas universais clássicos da fantasia são títulos obrigatórios nas aulas relacionadas à cultura desde o jardim de infância até a universidade (vide O Senhor dos Anéis na Alemanha ou Alice no País das Maravilhas na Inglaterra), no Brasil, este gênero sempre foi tido como sub-cultura, algo infantil e desvalorizado, fazendo com que as aulas de literatura apenas tivessem figurados em seu currículo livros que retratam a realidade de um povo ao longo de uma história cheia de tragédias e lutas infindáveis  com modernistas descrevendo os martírios de suas terras leitores que pouco se linchavam com a desgraça alheia.

É claro que seria muito exigir que um povo produzisse obras que refletissem figuras de linguagem que transmitissem ideologias que nunca foram cultivadas no país, como sempre fizeram os líderes americanos e europeus. O Brasil é historicamente um povo que procura alento com a cultura, não a diversão. Até mesmo o autor brasileiro contemporâneo mais vendido da atualidade tem em suas ficções diversas pitadas de auto ajuda e esoterismo, reflexo da inserção do brasileiro pelos temas que lhe interessam.

Com um mercado parado, se aventurar por produzir títulos em um segmento literário cheio de grilhões, parece loucura para um contador de histórias. Mas provando que a mundialização da cultura se torna uma realidade que influencia cada vez mais as preferências do brasileiro, Raphael Dracoon faz história, contando histórias.

Alguém já parou pra pensar a tragédia que foi a história de Chapeuzinho  Vermelho?

Alguém já parou pra pensar a tragédia que foi a história de Chapeuzinho Vermelho?

CAÇANDO FADAS

Dividido em três volumes, Dragões de Éter nos apresenta a um mundo fantástico e cheio de criaturas e personagens que variam do simples e comum ao fantástico e inimaginável. Estamos falando da terra de Nova Éter, que só existe, segundo as notas iniciais do autor, graças ao semi-deuses leitores que tornam todo o universo real a medida que se emocionam e compartilham da história contada pelo Criador, como o autor se denomina.

O primeiro volume traz o subtítulo Caçadores de Bruxas, que exprime um evento que aterrorizou o passado dos personagens, gerou o presente e recriou o cenário para traçar o enredo do universo: a Caçada as Bruxas do então Conselheiro Vermelho da cidade de Andreamme, Primo Branfort, o mais velho de três irmãos filhos de um molineiro, que se tornou rei graças a exterminar Bruja, a primeira e mais terrível bruxa que já viveu no mundo etéreo.

Para quem lê essa sinopse, Dragões de Éter parece ser mais uma das muitas histórias de cavalaria extensa como as clássicas sagas de J. R. R. Tolkien e do contemporâneo George R. R. Martin, mas a obra de Dracoon supera o esperado e coloca não um rei ou um guerreiro como personagens centrais do desenrolar de sua trama, mas sim personagens que todos os leitores já conhecem há muito tempo desde a sua infância: os personagens dos mais variados contos-de-fada!

Uma versão Cartoon Newtwork seria um pouco do tudo que os fãs poderiam querer!

Uma versão Cartoon Newtwork seria um pouco do tudo que os fãs poderiam querer!

Se aproveitando das brechas deixadas pelos contadores de histórias seculares, Raphael Dracoon uniu em um mesmo universo todos os clássicos infantis, dando um toque de originalidade que não prejudica as narrativas originais, muito pelo contrário, às deixa ainda mais interessantes. Histórias como as de Chapéuzinho Vermelho, João e Maria e O Gato de Botas são recontadas pelo Criador a fim de localizar o leitor no tempo-espaço de Nova Éter, para então dar início aos dramas da sonhadora Ariane Narin, dos perspicazes João e Maria Hanson, do corajoso Axel Brandfort e muitos outros.

A cada novo elemento clássico unido aos personagens originais da série, como o ardiloso Snail, fazem com que o leitor se surpreenda com a história e mergulhe de cabeça no universo de Dracoon, um misto de passado e presente contado num ritmo alucinante de telenovela, onde vários pontos da narrativa vão sendo intercalados em capítulos curtos (e completos!) que torna a experiência leve, divertida e muito, muito imersiva.

CAÇANDO BRUXAS

Todo mundo gosta de ler o que já conhece, e Raphael Dracoon sabe disso. Por isso o autor tomou o cuidado de contar sua história sem que os fãs mais puristas das histórias rechaçassem sua obra ao mesmo tempo que redespertou o mesmo fascínio que todo leitor tinha quando, ainda criança, eram apresentados aos contos-de-fada dos Irmãos Grimm, Hanz Christian Andersen e demais gênios da literatura infantil.

O autor usa as referencias no ponto certo, sem exagero, criando uma grande história original, e se adiantando ao fenômeno mundial ocorrido após o filme Alice no País das Maravilhas de Tim Burton em 2010, onde está em alta o cinema, a tv e as histórias em quadrinhos em recontar os contos-de-fada. Prova cabal que mesmo sem o devido estímulo cultural devido na escola e nos meios de comunicação, a vanguarda da literatura mundial está no Brasil, país tão bom em quebrar conceitos, mas tão ruim em administrar a seu alto nível.

Raphael Dracoon transformou a literatura brasileira num fenômeno!

Raphael Dracoon transformou a literatura brasileira num fenômeno!

Presenciar Raphael Dracoon contando suas histórias fantásticas e assistindo a repercussão que o autor vem ganhando desde a primeira publicação online de Dragões de Éter, é como presenciar a história em tempo real: presenciar o autor escrevendo a história da literatura brasileira que, no futuro, será parte integrante um novo movimento literário despertado nos anos 2.000 que será estudado e apreciado por muitas e muitas gerações. Ou, pelo menos, assim se espera.

RESENHA: Assassin’s Creed Irmandade, livro

“Chegarei até o coração negro de um império corrupto para arrancar o mal pela raíz. Mas Roma não foi construída em apenas um dia e também não será reerguida por um Assassino solitário. Eu sou Ézio Auditore de Florença. Essa é minha Irmandade.” Com um prelúdio de vitórias e derrotas, o livro Assassin’s Creed Irmandade continua a saga do assassino mais célebre da história!

UM É POUCO

Após finalizar Assassin’s Creed Renascença, as duas reações mais prováveis dos leitores certamente foram compostas pela mesma maneira como a editora do livro dividiu seu público-alvo: os fãs assíduos da maior e mais lucrativa franquia de jogos da desenvolvedora francesa Ubisoft e os leitores de primeira viagem que, ou queria entender o porquê de tanto sucesso do game nos consoles ou que simplesmente queriam a oportunidade de ler uma história de assassinos ambientada na Renascença.

Os fãs de longa data certamente adoraram reviver na literatura as emoções dos games, afinal a leitura é rica em detalhes e acrescenta muito a personalidade de Ézio enquanto personagem, já que, in live, é o jogador o responsável pelas emoções do protagonista. Porém, também é certo que todos sentiram falta da presença de Desmond, personagem contemporâneo que vai até a Renascença que foi cortado da saga nos livros.

Já os novos leitores, ficara um tanto quanto admirados pelo final excepcional chio de reviravoltas quanto cansados de ler um livro com capítulos um tanto quanto semelhantes, que peca pela falta de novidade ao longo do livro.

Para ambos os públicos, o único ponto que ficou devendo foi a “falta”. Ézio fica sozinho a maior parte do livro, e é difícil segurar um enredo de um personagem vingativo que repete os mesmo objetivos diversas vezes (clique aqui para ler a resenha do primeiro livro).

Leonardo DaVinci, destaque do primeiro livro, ganha ainda mais espaço no segundo livro.

Foi essa “falta” do primeiro livro que fez com que Assassin’s Creed Irmandade se tornasse um livro muito melhor que o primeiro, já que além do fascinante mundo do Credo dos Assassinos, Oliver Bowden finalmente pode colocar em papel todo o seu talento criando um enredo cheio de tramas e conexões entre vários personagens.

DOIS É BOM

Após a derrota do Papa Alexadre VI pela posse da Maçã do Éden, artefato místico que concede uma espécie de magia ao seu usuário, Ézio encontra seus companheiros do credo. Seu erro foi subestimar a velhice de Rodrigo Bórgia (o nome real do Papa Alexadre VI), que reuniu tropas e destruiu o esconderijo dos assassinos, matando a praticamente todos os seus membros, incluindo seu líder, Mario Auditore, tio de Ézio.

Tal episódio obriga Ézio a reorganizar o Credo com os poucos membros que restaram, precisando para isso, da ajuda de homens e mulheres que ele mesmo não sabe até onde pode confiar para impedir que os poderes da Maçã do Éden traga a desgraça ao mundo!

É num clima tenso e sombrio que a história do segundo livro de Assassin’s Creed começa. Fazendo um paralelo histórico ao eventos que ocorrem na época em que a história é ambientada, o mestre na história do Renascimento Oliver Bowden descreve fato a fato, como Roma estava caindo pouco a pouco nas mãos do mais cruel e corrupto Papa sem escrúpulos que a Igreja Católica já teve.

Os filhos de Alexandre VI, Césare e Lucrécia Bórgia, são amantes que não medem escrúpulos para terem o que querem!

Se a história se faz graças a um bom vilão, o tardio aparecimento de Rodrigo Bórgia em Assassin’s Creed Renascença tornasse o homem o modelo ideal de vilão para a continuação, já que além dele, seu filho Césare Bórgia entra na trama se mostrando ainda pior que o pai.

O que surpreende leitor e gamer enquanto conhece a trama da obra se torna ainda mais fascinante a medida que um novo personagem com contexto real vai entrando na história. Para o jovem estudante, estudar personagens como Leonardo da Vinci e a história da Igreja se torna uma experiência muito mais saborosa e para o adulto formado, a referência torna o livro tão cult quanto prazeroso, dando a sensação que o leitor consagra anos de estudo na obra.

TRÊS É DEMAIS!

Atento ao destaque de seu livro anterior e a sua falta de mais personagens, Assassin’s Creed faz com que Ézio divida a atenção com mais dois personagens: Leonardo DaVinci e Nicolau Maquiável.

Leonardo da Vinci é o maior italiano de toda a história, responsável por dezenas de estudos, invenções, obras de arte e, é claro, a pintura de La Gioconda, mais conhecida como Monalisa. Maquiavel é considerado o pai da Ciência política, um um historiador, poeta, diplomata e músico italiano que gerou o termo “maquiavélico” por sua visão racional do mundo.

Apesar de ambos os personagens estarem no primeiro episódio da trama, é quando Ézio funda a Irmandade de Assassinos que ambos os personagens começam a ganhar um gigantesco destaque.

A trama envolvendo Maquiavel (fazendo o ritual de iniciação em Cláudia Auditore) valoriza o personagem e a trama.

A trama chega a tal ponto que mesmo os personagens não estando em cena, é possível sentir a sua influência na trama, tanto pela fragilidade que a confiança dada a um membro da Irmandade necessita como pela visão distinta que os personagens têm se comparados a Ézio.

Outro ponto dividor de águas entre os dois volumes e até mesmo a versão gaminística, é que o livro Irmandade deu a oportunidade de desenvolver muito mais o lado humano de Ézio, que com mais de quarenta anos, já sente o peso da idade e não mais consegue deixar de pensar na mulher que mais amou na vida, Caterina Sforza.

Caterina é mais uma personagem retirada da história: com uma educação altamente requintada, a jovem casou-se com Girolamo Riario, quando passou a deter, pela união, o título de Senhora de Ímola e Condessa de Forli. Desempenhando muitas vezes o papel de homens, Caterina foi a líder de revoltas contra o papado de Alexandre VI, sendo destituída de seu título em uma derrota para Césare Bórgia.

O relato acima parece ter sido tirada do próprio Assassin’s Creed, mas é a narração fiél da vida da personagem. Traçando um enredo que faz uma perfeita alusão de todos os momentos da história Condessa de Forli, Oliver Bowden faz da relação dela com Ézio vários dos ápices do livro, com uma mistura única de amor, dúvida e sexo.

Ézio vive o drama de amar a mulher a quem deve deixar para viver sua vida pelo credo dos assassinos!

A quantidade de personagens ainda permite explorar mais profundamente o modo de vida e a maneira de pensar e agir dos personagens acerca de Ézio. O modo frio como Cesare Bórgia vê o mundo, a maneira submissa de sua irmã, Lucrécia Bórgia, o idealista Leonardo DaVinci, o realista Maquiável, o sonhador Batolomeu Dalviano, o descrente La Volpe, a astuta Cládia Auditore, entre tantos outros assassinos e não assassinos que foram possibilitados na fascinante trama.

UMA MUDANÇA SEMPRE DEIXA UM CAMINHO ABERTO PARA OUTRAS

Recontando a história de um game, martirizando personagens, fascinando jovens, criando analogias, desenterrando orgias e massacres, revivendo o amor puro, provocando a reflexão histórica, descrevendo pensamentos, encaixando o spin-off de PSP dentro do jogo canônico e atendendo a uma massa de nerds que anseavam por mais literatura de Assassin’s Creed, Oliver Bowden criou mais que um best-seller.

Se o primeiro livro foi um divisor de águas no marketing dos games, foi Assassin’s Creed – Irmandade o responsável por tornar a adaptação de games mais que um apelo mercadológico, mas uma obra primorosa que bajula por sua proximidade com o e encanta por sua qualidade histórica.

E após o segundo volume, Oliver Bowden ainda aprontou mais um capítulo para encerrar a trilogia de Ézio.

RESENHA: Alice no País das Maravilhas, livro

A vida guarda muitos segredos e mistérios, fazendo desta o alvo perfeito para o fascínio de pensadores, religiosos e homens da ciência. Explicar o que acontece ao seu redor deixou de ser uma necessidade para se transformar na razão de existência do ser humano, tanto para autenticar sua posição de domínio, como para saciar sua vontade de transcender. Mas o que acontece quando tenta se explicar o inexplicável? Como explicar o imaginário  quando este transmigra através da mente de uma menina de 6 anos? Alice no País das Maravilhas é a combinação perfeita entre o real e a fantasia, não por ser um clássico cultuado há mais de um século, mas por mostrar que as semelhanças entre razão e emoção se aproximam cada vez mais a cada novo segredo e mistério descoberto pelo homem.

A ÚNICA MANEIRA DE ACREDITAR NO IMPOSSÌVEL, É ACREDITAR QUE É POSSÌVEL

Coloquialmente, é dado o título de gênio para pessoas que se destacam excepcionalmente em um determinado campo de habilidade, científica ou social, técnica ou criativa. O diferencial é fazer com que seu legado se perpetue por toda a história e a sua própria história se torne história. Sim, Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido por seu pseudônimo Lewis Carrol, foi um gênio.

Soa estranho colocar este verbo “ser” no passado, pois mesmo tendo vivido há mais de um século, este consegue se tornar muito presente no cotidiano de todo o mundo.

Escritor, poeta, bibliotecário, matemático, fotógrafo e acima de tudo apaixonado por crianças. Incrível como todos os seus títulos se mesclam tão perfeitamente quando se fala de Lewis Carrol. O autor de Alice no País das Maravilhas sempre foi mestre em unir tudo o que gosta em uma coisa só, sendo sua obra-prima, inclusive, fruto de sua diversidade de interesses.

Numa época em que a fotografia ainda estava engatinhando, Carrol já tinha o estranho hábito de fotografar meninas nuas. Aliado as suas polêmicas frases, “Gosto de crianças (exceto meninos)“, o autor sempre foi alvo de difamações envolvendo pedofilia, mas independente disso, foi fruto dessa sua excentricidade que foi criada Alice.

Após conhecer Alice Pleasance Liddell, então com 10 anos e filha do reitor da faculdade onde lecionava matemática, Carrol passou a fotografá-la, a fazer passeios e a conhecer cada vez mais os sonhos e os problemas da menina. Observando todo o seu comportamento, Carrol passou a traçar o modelo ideal de personagem para um livro que segundo ele, surgia aos poucos conforme ia contando a história para a própria Alice.

A história tem início quando Alice começa a perseguir um Coelho Branco. Neste ponto Carrol já começa seu jogo psicológico.

Se toda obra é o melhor espelho do autor e se hoje o resultado de Alice no País das Maravilhas permeia em tantos universos imaginários e figurativos, basta somar alguns conceitos para se chegar até aonde o amor platônico do autor estava presente na composição do seu eu e o quanto longe poderiam chegar seus devaneios influenciados por uma realidade oculta que poderia ser chamada simplesmente de sonho.

POR QUE O CORVO SE PARECE COM UMA ESCRIVANINHA?

É estranho escrever uma resenha de uma obra que há quase cento e cinquenta anos já mostrou ter vida própria. Alice no País das Maravilhas foi publicada originalmente em 4 de julho de 1865 e a partir daí suas adaptações só foram se multiplicando nas mais diversas mídias, como cinema, TV, seriados, desenhos animados, games e outros livros. Se as influências do enredo e dos personagens usados em metáforas ou inspirações para outras obras, os números ainda crescem exponencialmente.

O fascínio do mundo pela obra reside em sua facilidade de compreensão pelas crianças e a complexidade de ideias que vão se adicionando ao texto a cada vez que o leitor, mais maduro, relê a obra. A quantidade de pontos de vista que o mundo inseriu a obra, ainda faz com que o texto original se torne ainda mais rico, fazendo diversos contrapontos e estimulando o leitor a conhecer a origem de cada novo conceito.

A linha criativa é simples, porém perfeita. Alice, um garota que está cansada de ouvir as histórias de livros sem figuras que sua irmã mais velha lhe conta, começa a seguir um apressado coelho branco até a sua toca, onde cai em um buraco e é levada para um local cheio de criaturas antropomórficas e bizarras, que muitas vezes chegam a beirar a loucura.

A organização dos doze capítulos é feita de maneira confortável ao leitor. Apesar de todas as passagens terem ligações entre si, cada capítulo apresenta uma história fechada, com começo meio e fim, fazendo com que mesmo o leitor mais apressado consiga ler um pouco da história por dia. E para os pacienciosos, o autor ainda guarda alguns truques.

John Tenniel, o Ilustrador de Alice, conceituou a imagem da personagem para sempre na mente de todos os leitores.

Mesmo curto (e com figuras), o livro traz diversos enigmas matemáticos e referências a eventos e personalidades que podem demorar um bom tempo para serem decifrados, ainda mais nos dias de hoje, já que mesmo para as pessoas anglófonas, muitas das palavras e referências de dupla interpretação já não fazem o mesmo sentido nos dias de hoje, sendo necessário garimpar a história e a linguística da língua inglesa para tal.

O livro como um todo representa uma crítica as histórias pueris e politicamente corretas que eram feitos para crianças durante o reinado da Rainha Vitória, época que o livro foi escrito. O molde cheio de morais pré-formatados, foi abandonado pelo autor, que misturou elementos criativos e de estilo nonsense para que o próprio leitor encontrasse a verdadeira moral por trás dos personagens.

QUEM SOU EU? SOU O QUE SOU OU SOU O QUE SEREI?

Alice no País das Maravilhas é um livro grandioso por ser ele inteiro uma grande analogia ao amadurecimento. Alice é um personagem que está numa idade capciosa, onde o ser humano é posto a prova a todos os dias.

Durante a pré-adolescência, fase que Alice Liddell estava quando o autor a conheceu, é muito comum ouvir de pais, professores e amigos coisas como “Com essa idade e ainda faz isso?” ou “Você não está muito grandinha para isso?“, frases que estimulam uma conduta mais amadurecida, que esteja mais de acordo com o mundo adulto que o jovem vai passar a conhecer na adolescência.

Entrementes, também não é raro ouvir contestações contrárias, como “Você ainda não tem idade para isso” ou “Quando crescer, você vai entender“, frases que pressupõem que o jovem ainda não é maduro o suficiente para agir ou pensar de determinada maneira aparentemente mais adulta, algo constantemente cobrado dele.

E como Carrol conseguiu retratar tal situação no País da Maravilhas? Através de comidas, e principalmente, cogumelos. Comendo um lado do cogumelo, ela cresce, comendo do outro lado ela diminui. Experimentando os lados do cogumelo, Alice tem a oportunidade de experimentar os dois lados a qual estava inserida, o mundo adulto e o mundo infantil.

Cogumelo

Pequena ou grande? Criança ou adulta? O que a idade de Alice lhe reserva?

Fica claro na história que todas as vezes que ela cresce, ela tenta parecer mais adulta. Como quando encontra a mãe pássaro que a confunde com uma serpente, ou quando entende sua superioridade reconhecendo a falta de força física de um baralho de cartas. Nos momentos em que está pequena, a personagem sempre busca abrigo, alento, algo a que se apoiar para seguir sua busca pelo jardim que encontrou nas primeiras portas que precisava abrir.

Mas o cogumelo não foi escolhido por acaso também. A imagem dos perigos de cogumelos por seus efeitos alucinógenos já eram bem fortes no fim do século XIX, e continua até hoje. Logo, não é de se descartar a crítica que o autor pôde querer ter feito ao inserí-los como chave para o crescimento da personagem: o amadurecimento, assim como os efeitos de cogumelos, não passam de uma ilusão do mundo adulto, onde estes utilizam-se das palavras “grande” e “pequeno” como subterfúgio para ter o controle e promover o condicionamento que estes veem necessário para o desenvolvimento da criança.

Metáforas de crescimento estão presentes em cada parte do livro, mas vale destacar também o encontro de Alice com a Lagarta que fuma narguilé. Pela primeira vez no livro, Alice acaba se deparando com a questão mais fundamental de sua idade: quem é ela.

Durante a pré-adolescência o jovem é cobrado a decidir seu futuro. “Vai estudar para quê?”, “O que que você quer ser quando crescer?”, questões que pouco interessam as próprias crianças, mas que os adultos desejam saber para poder influenciá-las conforme seus desejos.

Um gato que ri ou sua criança interior? Quem é o Gato de Cheshire?

No livro, Alice precipita-se muitas vezes a responder. A dúvida permeia a cabeça dela que não tem certeza se é mais importante definir-se pelo seu presente ou pelo seu futuro. E a dúvida não foi colocada na cabeça de Alice por meio da figura de uma Lagarta por acaso: lagartas são frequentemente caracterizadas como borboletas em crescimento, logo não pelo que são, mas pelo que serão.

As várias faces de personagens metaforizados pelo livro busca provocar e ao mesmo tempo comover o leitor. E assim como todo o País das Maravilhas, guardam segredos discretos mas concretos, que vão dando a Alice condições de enxergar o mundo cru e sem figuras que ela tanto rejeita.

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Míticos e aos mesmo tempo tão próximos da realidade de todos. Assim são os personagens de Alice no País das Maravilhas. Para cada um deles, Carrol desenvolveu momentos épicos e marcantes para todo o tipo de leitor. Por mais que a passagem do personagem pareça rápida e sem influência, como a empregada Mary Ann do Coelho Branco, estes guardam toda a sua analogia com o mundo real.

A voz perturbada da Rainha de Copas confunde-se com sua baixa representatividade no reino de cartas.

Vale lembrar que toda a aventura de Alice se passa em um sonho seu. Assim, todos os personagens são reflexo do que pensa a própria Alice. A falta de outras crianças durante a história, reforçam a ideia do amadurecimento da protagonista, fazendo das pessoas que ela encontra no País das Maravilhas algumas das visões que ela tem dos adultos do mundo real.

Vários dos mais comuns caricatos de pessoas estão presentes no livro. Afinal quem nunca conheceu pessoas de alto valor no meio em que vivem que preferem resolver tudo aos gritos, sem conhecer as opiniões ou os pontos de vista das pessoas ao seu redor? A Rainha de Copas é a representante máxima de professores durões ou chefes birrentos que tantas pessoas já se acostumaram a tolerar.

A própria majestade da rainha ser derivada de um baralho de cartas já reflete uma parte do mundo adulto: a vida é como um jogo, onde se conta com a sorte, se blefa, se mente, se tenta esconder direitos e abusa dos deveres. O rei, os baralhos Dois, Cinco e Sete, o júri e mesmo os flamingos e os porcos-espinhos usados como ferramentas do jogo de croquet são derivados destas metáforas do mundo real.

Se a postura dos adultos é contestada por Alice, o que dizer de seus costumes alienantes? O chá das cinco é uma tradição inglesa secular, e ainda hoje é cultuada no país. Mas durante o reinado da Rainha Vitória, o costume era ainda mais rígido, iniciado religiosamente as cinco da tarde. O Chapeleiro Maluco e o a Lebre de Março são uma dura crítica ao costume.

Vale lembrar que ambos os personagens brigaram com o Tempo, por isso estes estão sempre presos ao horário de se servir chá, sendo a única coisa que podem fazer a partir de então. A crítica é extrema, mas concisa ao que se refere a alienação dos ingleses: por que todos os dias deve-se usar o horário das cinco para tomar chá quando se pode fazer coisas que realmente interessantes?

Mesmo a comemoração do desaniversário é uma crítica as festas vãs e vazias que a corte costumava fazer na época, uma desculpa utilizada para conhecer as particularidades e os negócios de outras administradores ingleses da alta classe. A figura do Arganaz na mesa vai de encontro a um tipo peculiar de frequentadores da festa, aqueles que mesmo fazendo parte da nata da sociedade, era desprezados pela camada mais solene, representados pelo Chapeleiro e a Lebre, que “guiam” a festa.

A quantidade de disputas que todos os personagens do livro entram em diversas situações, desde a conturbada casa da Duquesa até os lamentos pessoais da Tartaruga Falsa, mostram o quão frágil o adulto é, apesar de tentar mostrar as crianças a sua força interior. Apesar de serem o parâmetro para o amadurecimento, quando mais Alice conhece o mundo adulto através das analogias do País das Maravilhas, mais a garota passa a entender o quão conflitante é a imaturidade do mundo adulto.

Ao mesmo tempo, a própria Alice entra em conflitos quando vislumbra sua imagem adulta, abordando os vários lados psicológicos que a menina (e todos os outros adultos) tende. Enquanto o Gato de Cheshire representa o seu id, seu lado criança, brincalhão, despreocupado, que segue instintos e faz tudo o que tem vontade, o Coelho Branco representa a Alice madura, responsável, que cumpre com suas obrigações e age determinada quando é preciso ter pulso firme.

A Lebre de Março e o Chapeleiro Maluco viraram os ícones máximos das loucuras que acontecem no País das Maravilhas.

O próprio fato da história começar pela garota correndo atrás do Coelho Branco já dá indícios da representatividade do Coelho no desenvolvimento de Alice. Correr atrás do coelho, seria uma espécie de analogia a correr atrás de sua maturidade, após sua irmã tanto lhe cobrar isso.

O contraponto entre o gato e o Coelho é o mais interessante. Enquanto em seu papel responsável, o Coelho Branco ignorou completamente Alice, foi em seu lado despreocupado que o Gato de Cheshire serviu como guia, explicando algumas das regras e aconselhando Alice dentro do País das Maravilhas.

A crítica por trás de tais posicionamentos não seria uma perfeita analogia entre o quão distantes adultos sensatos e religiosamente cumpridores dos seus “horários” ficam distantes da família e dos filhos? Ou mesmo do quanto é fácil seguir instintos e ser seu próprio conselheiro, mesmo sabendo da sua falta de conhecimento para tal, quando se está sozinho e sem alguém maduro para lhe guiar mesmo que esse indique uma solução mais… maluca?

QUANTO TEMPO DURA O ETERNO? MUITAS VEZES, SÓ UM SEGUNDO

Toda a interpretação, seja ela própria ou derivada, parte do pressuposto de que são apenas interpretações. Carrol nunca deixou claro o que realmente Alice queria transmitir ao leitor. A busca por respostas é um trabalho que exige muito esforço do ser humano, por isso diferente das obras infantis da época, Alice é a tentativa do autor em despertar na criança sua capacidade inventiva para encontrar suas repostas ao invés de tê-la pronta e digerida.

A frase do autor “Tudo tem uma moral: é só encontrá-la.” reforça ainda mais a ideia da captação própria do leitor. A obra sobreviveu ao tempo pois Carrol coloca cada leitor como Alice. O autor soube captar a essência da imaginação humana para compor uma história de autodescoberta, cheia de enigmas e novas visões que se enriquecem a cada nova interpretação.

Leitor e personagem se confundem a medida que o livro é lido pela segunda, terceira, quarta.... vez.

A capacidade de Alice no País das Maravilhas de se reinventar a cada nova leitura não reside no livro, mas no leitor. Retratar o amadurecimento por meio de metáforas e figuras faz com que o próprio leitor crie suas significâncias e tenha uma visão própria do seu desenvolvimento.

Os conflitos que Carrol passou quando sua maturidade entrou em conflito com seu amor platônico por Alice Liddell, foi figurado num livro que matematicamente usa os conflitos da garota como base de um conto que se aplica a qualquer analogia que se faça necessária ao mundo real, fazendo do País das Maravilhas um local não com respostas, mas com caminhos para que, assim como aquele que levou até o jardim da Rainha de Copas, leve o leitor a experiências únicas, que começam em palavras, mas que permanentemente se reinventam fazendo Alice sobreviver para sempre a cada vez que ponteiro do relógio mostrar ao Coelho Branco como ele está atrasado.

REVIEW: livro Eu, Robô

Quem ainda não leu Eu, Robô ainda não pôde desfrutar do que a imaginação humana tem de melhor.

Escrito em 1950 por Isaac Asimov, Eu, Robô possui uma particularidade que o sobrepõe a qualquer obra de ficção científica já criada: a incrível capacidade de se tornar um texto cada vez mais atual a medida que envelhece.

O autor conhecia o interior das pessoas como poucos, por isso, a emoção, a criação e o sentimento humano são elementos que estão presentes em seus personagens desde que começou a escrever aos 20 anos de idade, quando sua única pretensão era ganhar alguns trocados a mais para ajudar a custear seus estudos.

Logo na capa da edição brasileira já é possível obervar alguns conceitos da robótica difundidos por Isaac Asimov.

Diferente do filme de mesmo título estrelado por Will Smith, o livro de Isaac Asimov pouco contém perseguições, explosões ou um protagonista cheio de remorço e espírito negativo, mas explora como ninguém as várias faces do ser humano ante a sua invenção mais promissora, o robô. Ou melhor dizendo, o ser que mais por sequências numéricas e logarítmos do que por ideologia, pode ser capaz de cuidar melhor da humanidade do que a própria humanidade.

O livro é dividido em nove capítulos, cada um trazendo um conto descrito por Susan Calvin, robopsicóloga e protagonista da história, enquanto ela concedia uma entrevista à um ambicioso repórter.

Nascida no mesmo ano que a U.S Robôs, organização responsável pela criação dos cérebros positrônicos, a Dra. Susan Calvin ainda jovem ingressou na empresa. Com uma carreira de sucesso ao longo das décadas, e agora com 82 anos, ela é a melhor não só para contar como foi a relação entre homem e máquina desde a fundação da empresa para qual ainda trabalha, mas também para projetar um provável futuro para humanidade após quase um século de convivência com os robôs.

Isaac Asimov era antes de tudo um grande contador de histórias, por isso até mesmo o leitor mais despretencioso não tem como não se emocionar com Eu, Robô logo no primeiro capítulo. Contando a história de Robbie, um robô mudo que serve de babá para a pequena Glória, o autor logo explora aresistência humana frente as novas tecnologias.

Robbie foi um dos primeiros modelos com cérebros positrônicos a serem comercializados nos anos 90 pela U.S. Robôs. O cérebro positrônico dá a possibilidade de um robô tomar iniciativas e aprender conforme o tempo vai passando. Ao lado de Glória, que ainda estava na idade de descobrir o mundo ao seus redor, o robô mudo assume  papel mais inocente na vida de um ser humano: o direito de sonhar com o contos de fada que lhes eram contados pela menina.

Porém, esses sonhos duram pouco. Devido aos preconceitos dos vizinhos, a mãe de Glória, após muitas negativas do pai, resolve separar o robô da menina, devolvendo-lhe para a U.S. Robôs. Fazendo isso, os resultados que a mãe da meina almejava passam a ser bem diferentes, e quem começa a parar de sonhar é a sua filha, que não tem mais a companhia do robô que era alimentado com as suas fantásticas histórias.

A imagem dos robôs de Asimov, inspiraram diversos designers de personagens de ficção científica ao longo das décadas, entre eles os olhos acesos de C3PO.

Drama e questões sociais embasam este primeiro capítulo do livro, mas é nos três que seguem é que o autor começa a explorar o  mais inspirador conceito já inserido na ficção científico e por ele criado, as 3 Leis da Robótica:

1ª Lei: um robô não pode ferir um ser humano, ou por inação, permitir que um ser humano seja ferido.
2ª Lei: um robô deve obedecer as ordens dadas pelos seres humanos, exceto se tais ordens entrarem em conflito com a primeira lei.
3ª Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e a segunda lei.

Essas três leis soam como poesia paa os fãs de ficção científica, já que é graças a elas que uma das correntes mais crescentes durante o século XX, iniciada por Mary Shelley em 1818 com seu romance Frankstein, foi quebrada: a idéia de que a tecnologia é vista como perigosa e danosa ao ser humano.

Perigo esse foi testado e desmentido por Powell e Donovan nos capítulos 2, 3 e 4 da obra, onde os dois cientistas, segundo suas prórpias palavras, pegam os piores trabalhos da U.S. Robôs.

Confrontados com possíveis falhas mecânicas de Speedy, o robô mais rápido da organização; Cutie, um robô fanático religioso e Dave, o chefe de cinco robôs acoplados ao seu corpo robótico, os dois cientistas comprovam que problemas técnicos são apenas interpretações ociosas feitas por seres humanos quando estes não compreendem bem as 3 Leis da Robótica.

A interpretação das 3 leis fica ainda mais clara quando a própria dra. Susan Calvin, diante de seus sonhos juvenis, se depara com um robô que pode ler pensamentos, ao ter que encontrar um robô fugitivo ou mesmo ao autorizar a morte de Powell e Donovan, se isso significasse a seguraça dos dois.

O filme estrelado por Will Smith possui uma trama bem diferente da do livro de Asimov, mas se baseia em diversos conceitos do autor.

Religião, política, romance e mais um monte de temas se misturam a cada capítulo do livro, mas Eu, Robô ainda não seria tão genial se não fosse seu encerramento magistral em seus dois últimos capítulos.

Em Evidência, Asinov põe em cheque o que significa SER humano. Nele, Susan Calvin é convocada para investigar Stephen Byerley, candidato a prefeitura de Nova York, que está sendo acusado de ser um robô.

O ponto chave do capítulo é quando se indaga o que é mais importante: todos os benefícios que Byerley fez durante toda a sua vida ou o fato dessas benfeitorias terem sido resultados do princípio das 3 Leis da Robótica?

Seria possível a existência de um ser humano realmente bom? É essa a pergunta que Asimov quis que seus leitores se façam após a leitura do penúltimo capítulo, já que essa reflexão abre o raciocínio para a trama do capítulo final onde Asimov desenvolve uma possibilidade de futuro controlado por máquinas, mas formatado segundo os interesses dos homens.

Em Conflito Evitável, a Dra. Susan Calvin parte para os mais diversos pontos do mundo para conversar com os maiores líderes da pacífica organização mundial que se desenvolveu na segunda metade do século 21.

O tema central da conversa da doutora com esses líderes se dá devido a alguns problemas notados no funcionamento das máquinas, mas que não foram, aparentemente, notados pelas cias. que utilizam esses robôs para realização das mais diversas funções em prol da humanidade, que envolvem desde a agricultura até a siderurgia de materiais pesados.

De repente, após todas as entrevistas, o que parecia ser apenas uma pincelada ficcional criada por Asimov para fechar toda a mitologia de sua obra, se transforma em uma das mais intrigantes teorias futurísticas já escritas.

Baseada nas 3 Leis da Robótica e nas falhas não perceptíveis da ação dos robôs, a dra. Susan Calvin chega a conclusão que as máquinas estão criando um mundo em que podem coexistir com o ser humano obedecendo sua principal regra: um robô não pode ferir um ser humano, ou por inação, permitir que um ser humano seja ferido.

Conhecendo os seres humanos por quase um século, os cérebros positrônicos passaram a formatar um mundo onde não mais os seres humanos corressem o risco de se ferir. Todas as aparentes falhas detectadas por Calvin foram realizadas intencionalmente pelos robôs, que já haviam percebido que se continuassem a agir conforme o esperado, possíveis conflitos entre nações poderiam acontecer levando assim a disputas internas, guerras ou mesmo a extinção do ser humano.

Seria capaz o orgulo humano aceitar que seu destino pode ser traçado por um ser inerente a ele? Ou é melhor continuar com o livre arbítrio mesmo sabendo que este pode levá-lo ao fracasso ou muito pior que isso?

Homem ou máquina? Até que ponto a tecnologia se diferenciará do ser humano?

Assim como todas as questões envolvidas num café filosófico, o livro de Asimov fornece muito material para perguntas e dúvidas, mas não fornece as respostas.

Talvéz as questões do livro, assim como as questões mais primordiais dúvidas da humanidade, nunca terão respostas, mas assim como estas, certamente abastecerão o leitor com as mais curiosas idéias da constante relação entre passado, presente e futuro.

RESENHA: Nudez Mortal (livro)

Nora Roberts talvéz não seja a autora de livros mais inovadora dos tempos atuais, mas certamente é a que encontrou a melhor maneira de alcançar o sucesso.

Sob o hetrônimo de J. D. RoBB, a americana sempre figura na lista dos mais vendidos com sua série Mortal. Com mais de 100 romances publicados, o segredo para o sucesso de sua ficções está nos elementos de interesse geral que a autora insere a cada livro publicado.

Nora Roberts, sob o heterônimo de J. D. RoBB é a autora de Nudez Mortal.

Quando se lê um livro de Nora Robrts, a impressão que dá, é que ela constrói todo o ambiente da história para atingir todos os nichos de leitores, o que sempre resulta em sucesso imediato.

Nudez Mortal (tradução de Renato Motta, publicado no Brasil pela editora Bertrand Brasil) é o primeiro romance de sua série de maior sucesso. Nesse primeiro volume, o leitor é apresentado a todo o universo lucrativo criado pela autora que agrada a todas as espécies de leitores.

Com a ascensão da mulher no mercado de trabalho e a importante posição que estas vem assumindo nos últimos anos, a protagonista não poderia deixar de ser alguém do sexo feminino. Eve Dallas, é tenente de investigação da policia de Nova York, e como toda trabalhadora que se preze, vive num minúsculo apartamento na cidade onde praticamente só vai para dormir. Viciada em café (força motriz do trabalhador contemporâneo), a detetive passa a maior parte do seu tempo no seu ambiente de trabalho, com seu fiel assistente Fenney.

Feeney é o típico homem de meia idade, já casado, que trabalha em algo que gosta e não tem maiores problemas em sua vida a não ser os do trabalho. O perfil de Feeney é um dos muitos galgados pelo homem moderno: uma vida socegada, coquistada por um histórico de vida regrada.

Nudez Mortal é o primeiro título da série mais consagrada de Nora Roberts.

Mas não é uma mulher solteirona que não está nem aí para a aparência, nem um nerd de meia-idade que fizeram Nora Roberts alcançar tanto público. A peça de seu sucesso não está nos seus protagonistas, mas sim na temática de suas histórias. Misturadas com o gênero policial, que por si só já vende muito, está um tema de interesse geral, de homens e mulheres, de todas as idades e de qualquer classe social: sexo.

O título da obra, Nudez Mortal, já é bastante sugestivo quanto ao enredo: Eve terá de procurar o serial killer que vem matando prostitutas e brincando com a polícia, enviando videos de cada um dos assassinados feitos com arma de fogo. A dificuldade disso, é que Eve é assombrada por um passado, que apesar de embaralhado em sua mente, a faz reviver as marcas de violência e abusos sexuais de sua infância.

O destaque da narração vai para a maneira como a autora trata o tema: no livro, as narativas sexuais não são vulgares, ao contrário, focam os desejos, dúvidas e julgamentos do ato, mostrando como cada personagem, cada um com um perfil psicológico diferente, encaram o assunto. Os dilemas que os personagens vivem, muitas vezes são os mesmos dos vividos pelos leitores, motivo pelo qual há tanta identificação destes para com os personagens.

Nudez Mortal: sexo sem vulgaridade.

Para os/as mais românticos/as, a autora ainda traz Roarke, um multi-mega-milionário, principal suspeito dos assassinatos, a qual Eve começa a sentir profundos sentimentos, a qual ela está disposta a negar, tanto pelo seu passado cheio de feridas, quanto pela ética profissional. Roarke, encarna um verdadeiro príncipe encantado, aquele que toda a mulher deseja encontrar e todo homem deseja se tornar.

E se faltava algum público a ser exlorado, diga-se de passagem aqueles não muito entusiastas de romances e perseguições policiais, Nora ainda ambientou sua hitória numa Nova York futurista, no ano de 2058, adicionando diversos elementos de ficção cintífica a história.

Com o passar dos títulos, a autora ainda vai adicionando mais personagens que encarnam os mais diveros tipos de pessoas, mas é em Nudez Mortal que a autora conseguiu explorar como ninguém os vários dilemas do ser humano comum. O resultado desse trabalho consagrou Nora Roberts como uma das mais bem sucedidas romancistas da atualidade, o mesmo sucesso profissional que sua personagem deseja conseguir.

Review: livro “A publicidade é um cadáver que nos sorri”

Resenha: Toscani, Oliviero (2004/1996). A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri; 5ª edição, Rio de Janeiro: Ediouro 

Se há algo que não podemos deixar de falar de Oliviero Toscani é de seu legitimo atrevimento. 

Uma pessoa atrevida responde e pergunta o que aparentemente não deveria, tira, mexe, troca, vira, ou seja, muda as regras do jogo (ou pelo menos tenta). 

E é isso que Toscani faz com todo o mundo publicitário atual em eu livro “A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri”: tentar alterar o modo como as pessoas e os profissionais da área encaram o modo sistematizado com que são criadas as propagandas do nosso cotidiano. 

Seja em outdoor's ou em seu livro, Toscani está sempre a surpreender.

Toscani foi um dos fotógrafos mais odiados do início dos anos 90, quando assumiu as campanhas da United Colors of Benetton, uma mega indústria da moda internacional. 

Com uma idéia diferente do que era fazer publicidade, o italiano resolveu provocar a reflexão sobre temas como AIDS, preconceito e violência em suas peças ao invés de vender os produtos da Benetton. 

Numa mistura de imagens chocantes e ao mesmo tempo belas, essa campanha ganhou os outdoors e as páginas das revistas da Europa e do mundo, ou pelo menos da maioria desses veículos, já que muitos deles consideraram as imagens de roupas ensangüentadas, de uma negra amamentando uma criança branca ou mesmo de um padre beijando uma moça na boca, muito extravagantes e sensacionalistas. 

O livro é uma mistura de desabafo, portfolio, autobiografia e opinião sobre a publicidade. 

Trata de toda a repercussão gerada na época. O autor conta como eram as coletivas de imprensa que ele e Luciano, dono da Benetton, tiveram que encarar nos diversos países por qual passaram. 

Toscani começou a chamar a atenção do mundo em suas campanhas para a United Colors of Benetton.

Também fala de sua trajetória pelo mundo publicitário, desde sua infância, quando resolveu se tornar fotógrafo, passando pela adolescência de descobertas artísticas, até quando conheceu Luciano Benetton, quem mais o apoiou nas campanhas, mesmo quando o próprio Oliviero tinha dúvidas se deveria ou não prosseguir em um outro anúncio. Por isso não é exagero dizer que o livro é em partes autobiográfico e um grande desabafo de experiências boas e ruins que o autor gostaria de compartilhar com alguém. 

Por que portfolio??? Há publicidade maior para o trabalho de um autor do que a análise dele próprio e toda a história por trás dos bastidores??? 

Toscani encara a publicidade como arte e como toda arte, uma ferramenta transformadora da sociedade. Porém, ele vê os publicitários agindo soberbamente, como uma simples engrenagem que dá continuidade a um ciclo vicioso: 

“Os publicitários não cumprem sua função: comunicar. Carecem de ousadia e de senso moral. Não refletem sobre o papel social, público e educativo da empresa que lhes confia um orçamento. Preferem despender centenas de milhares de dólares para colocar alguns cavalos galopando atrás de um Citroën, sem se preocuparem como todos aqueles que são obrigados a praticar rodeio nas estradas. Não querem pensar nem informar o público, com medo de perder os anunciantes. A responsabilidade deles é imensa. Têm a incumbência de refletir sobre a comunicação de uma marca, sem ficar apenas no puro marketing. Precisam impulsionar esse sistema publicitário que anda em círculos, incita a consumir cada vez mais e já não convence. A condição humana é inseparável do consumo; neste caso, por que a comunicação que o acompanha deveria ser superficial?” (pág. 25) 

  

Como ele mesmo diz, o que faz não é vender a Benetton. É estimular uma idéia através da Benetton. Ele nunca se preocupou em saber qual a reação do consumidor ao ver o logotipo da empresa anexado ao anúncio, só queria provocar quem visse a foto. 

A crítica social de cada peça punha em cheque os valores sociais.

O autor usa um tom irônico e egocêntrico em seu discurso, encarando a classe publicitária como crianças que usam a mesma fórmula por anos a fio, com a desculpa de querer vender felicidade. 

Apesar desse posicionamento radical do autor, esse pode ser o melhor livro de cabeceira de qualquer publicitário, já que é o tipo de leitura que estimula encarar cada peça como algo novo, dando uma nova percepção do contexto que se quer provocar. 

Cada vez que o autor acusa a publicidade de cometer crimes, abre-se um leque imenso de interpretações sobre o que são esses crimes, qual o tipo de propaganda que fomenta e sacia o consumidor, qual o porquê da publicidade estar nesse ciclo vicioso. 

Vemos milhões de dólares sendo gastos em campanhas que só estimulam a compra, os desejos e a competição. Ilusões provocadas pela mídia em geral, que tenta montar um estereotipo de consumidor. Essas se deterioram rápido, são cadáveres vestidos de ouro e pedras de rubi. 

Mas fugindo dessa ilusão comum, é possível despertar um conceito real, não necessariamente com um cunho social, como prega Toscani, mas que faça o consumidor guardar a marca por algo a mais que o produto. 

Ainda hoje, Toscani é referência quando o assunto é ousadia publicitária.

E é esse atrevimento do autor, que pode ser um bom ponto de inspiração para enterrar definitivamente um cadáver que se disfarça a cada dia em propagandas tão fúteis e triviais que já não convencem, tanto pela sua mensagem rala quanto pela carnificina de seu sorriso.