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RESENHA: Greve de Sexo, Cia de Teatro Techniatto

Por séculos a força masculina superou a graça feminina nas mais diversas formas de organizações sociais. Mesmo na Grécia Antiga, berço da civilização ocidental, as mulheres eram obrigadas a ficarem a mercê das decisões democráticas dos homens. Em uma justa homenagem as mulheres, a Cia de Teatro Techniatto realizou em outubro de 2012, a peça Greve de Sexo, uma comédia baseada no clássico Lisístrata de Aristófanes que mostra como a união feminina é capaz de sobrepujar a todo e qualquer supremacia masculina.

A GUERRA DE POLOPONESO

Ambiente preparado. O telão com os agradecimentos da Techniatto aos seus patrocinadores e apoiadores já saiu do ar. A diretora da cia, Natália Carmelo, já fez suas considerações iniciais e agradeceu a todo o público presente. Seja no dia 19 de outubro, data de estreia da peça, ou no dia 30 de outubro, data da segunda apresentação, o público presente só imaginava uma coisa de uma peça chamada Greve de Sexo baseada numa comédia grega: rir logo quando os atores entrassem em palco.

O que ninguém esperava é que a entrada da primeira cena começasse com uma música épica, sugerindo uma guerra, e que os primeiros atores em palco entrassem armados com espadas, lanças, escudos e armaduras para iniciar o estopim de toda a história da peça: os combates entre Atenas e Esparta durante a Guerra de Poloponeso!

Quando Aristófanes escreveu sua peça, a cerca de 500 a.C, a sua revolta foi convertida em risadas para mostrar como uma Guerra que se estendia há quase 100 anos podia ser algo tão banal. O que Aristófanes não fez, foi mostrar toda a dramaticidade de uma Guerra durante sua comédia, algo que a Cia de teatro Techniatto fez questão de mostrar: a comédia é motivada por uma guerra, mas uma guerra não é brincadeira.

Lisístrata reúne gregas de todas as cidades-estado para iniciar seu grande plano!

Após os líderes dos exércitos chamarem seus melhores combatentes para o início do combate, o pior acontece: o maior guerreiro de Atenas cai perante a força do guerreiro de Esparta. Com um grito atemorizador, a plateia fica espantada ao ver uma mulher correndo até o palco até o seu marido morto e os guerreiros, ao verem uma mulher no meio da batalha, decidem cessar os combates por hora. Começa a história da mulher que perdeu tudo por conta da Guerra de Poloponeso: Lisístrata!

O JURAMENTO

Já sem fumaça no palco e com uma música mais leve, Lisístrata volta ao palco sem entender o atraso de suas companheiras. O público, ainda chocado, se pergunta se a comédia vai começar e se o motivo da peça se chamar Greve de Sexo vai ficar clara.

E logo a protagonista atende ao desejo do público. Com muitas mulheres vindas das mais diversas cidades da Grécia, inclusive Talassa de Esparta, Lisístrata conta que teve uma ideia para parar a Guerra de Poloponeso, que já levou embora tantos entes queridos das mulheres presentes: “Vamos fazer Greve de Sexo!”, diz ela.

Representando os mais diversos tipos de mulheres presentes, cada uma das atrizes tem uma reação que identifica uma possível postura do público e diverte pelo caricato mostrado: algumas entendem a importância, muitas se contradizem, algumas acham que Lisístrata está ficando louca, mas uma coisa todas tem em comum: ninguém quer ficar sem seus homens, afinal, como se já não bastasse ficar longe deles durante as batalhas, por que raios deveriam negar o afeto de seus companheiros nas poucas oportunidades que tem juntos?

Até os velhos de guerra são conquistados pelos encantos femininos!

Entre risadas e constrangimentos, as mulheres decidem aderir ao juramento da Greve de Sexo até que os maridos votem pelo fim da guerra. Não demora muito até que elas consigam se apoderar da Acrópole e de todo o tesouro grego pelo qual os homens lutam.

Se por um lado a ideia parece ter dado certo, a reação masculina teria início e as mulheres teriam de dar um jeito em cada uma de suas investidas.

HOMENS VS. MULHERES

São três as principais investidas dos homens para recuperar a companhia de suas mulheres: a brutalidade, a burocracia e a súplica.

Desconsolados pela fraqueza dos guardas da Acrópole e pelo desrespeito que das mulheres perante os anos dedicados a segurança e ao conforto da Grécia, três velhos veteranos de Guerra resolvem se vestir novamente a caráter e a invadir a Acrópole. Saindo pelo fundo do plateia, o público se delicia com o inteligente uso da ambientação do anfiteatro do Centro Universitário Padre Anchieta ao mesmo tempo que tolera os resmungos dos velhos que reclamam dos homens sentados na plateia prostrados sem ajudar a Grécia e das mulheres que certamente estão apoiando a causa de Lisístrata.

Diálogo entre Lisístrata e o pomposo Ministro tirou risadas e apoio da plateia!

Para enfrentar a brutalidade dos velhos, as mulheres de Lisístra deram um banho de interpretação e fizeram com que os bonachões velhos aposentados contivessem sua arrogância com a sensualidade de seus jarros de água.

O segundo a tentar frear a greve das mulheres é o Ministro de Atenas em pessoa, que traz consigo todo o seu exército de guerra. Diante do jeito burlesco e metido a superior realizado pelo ator João Vitor, é a própria Lisistrata, apoiada pela sua ousada companheira Cleonice, interpretada por Taís Rodriguez, que tem de dar um fim a racionalidade burocrática do Minístro.

Se os velhos representavam como uma relação desgastada pode levar um homem a se ver no direito de subjulgar uma mulher, a Cia Techniatto mostrou com o personagem do Ministro, que num mundo onde posições sociais são tão valorizadas, a superiodade financeira de um dos casais pode trazer não só o sentimento de domínio, mas a submissão burocrática por parte da mulher.

Enfrentar os velhos e o Ministro, além de espantar os soldados que ficam sem ação ao ter de enfrentar mulheres, o sexo frágil mostra sua força através da inteligência e da coragem.

É no terceiro embate que a coisa complica e cabe a Lisístrata encubir a pequena Mirrina dar um jeito no gigante que se aproxima: o “bocado de homem” Cinésias, que necessitado de sua esposa Mirrina, está disposto a fazer de tudo para a sua mulher.

Tamanho que faz diferença: a pequena Mirrina convence seu marido a votar pela paz!

O contraste de altura na escolha dos dois atores, Rodrigo Gavilha e Luci Santana, torna a cena ainda mais engraçada. Enquanto o soldado cheio de amor pra dar poderia se utilizar de força bruta e ter sua esposa novamente é a graça e a destreza da pequena Mirrina, com quase metade da altura de Cinésias, a convencê-lo da seriedade da Greve de Sexo e das condições para ambos voltem a se relacionar, mesmo que para isso, a própria Mirrina, como todas as outras mulheres na Acrópole tenham que conter a saudade de seus maridos.

É pouco depois da cena de Mirrina com Cinésias que acontece uma das inserções mais engraçadas da peça: desabalado com a partida de Mirrina, Cinésias reclama aos deuses a sua solidão. É quando o ator Ben Hur Machado chega em sua participação climax da história: interpretando o soldado gay “Lisístrato”, um adorador da conduta da protagonista, ele se joga nos braços de Cinésias, recebendo uma dura do soldado. O soldado faz uma série de cenas em várias partes da peça, sempre levando muitas risadas pela conduta inesperada de seu personagem, mas será impossível que algum dos espectadores da peça se esqueça do desempenho do ator junto a Cinésias.

CONCILIAÇÃO

A conciliação não vem fácil. Se para as mulheres aceitarem a Greve de Sexo proposta por Lisístrata se mostra um martírio ao longo da peça, rendendo as mais jocosas maneiras de “furar” a greve e fugir da Acrópole, a situação dos homens atenienses e espartanos se torna, nas palavras do próprio Embaixador de Esparta, interpretado por William Penna, “insustentável”!

A Conciliação submeteu os gregos mais ilustres às suas querelas.

Seguindo os preceitos de Aristófanes mas com um toque de originalidade de tinta e brilho, a Cia Techniatto personificou as negociações da paz entre Lisístrata e os célebres líderes de Guerra das duas cidades-estados em uma espécie de deusa em palco, uma mulher dourada representando o brilho que as mulheres tem e o verdadeiro tesouro que os homens precisam defender que até então estava guardado na Acrópole: não o tesouro da cidade-estado, mas a companheira ousada e compreensiva, que apóia seus homens em suas decisões mas também mostram o quão importante é o seu papel dentro do sistema em que vivem.

Tão importante quanto as várias lições que a peça passa durante cada uma de suas cenas para cada tipo de relação homem-mulher que se enfrenta numa sociedade ainda machista, é salientar o grande trabalho que a atriz protagonista da peça, Stephanie Leite, fez.

Apesar de ser sua segunda peça, a atriz demonstrou a força e a coragem que a mulher precisa ter para enfrentar o dia-a-dia conturbado de tempos que mesmo atravessando dois milênios continuam a fazer as mesmas questões de sempre: até onde pode chegar o amor de um homem e uma mulher.

Com o show de interpretação de Stephanie Leite e de cada um dos mais de 20 atores que integraram a peça, a Cia de Teatro Techniatto deu mais uma vez um show de produção. Desenvolvendo os personagens individualmente, cada ator pôde crescer em cada cena que participou, fazendo da Greve de Sexo um exemplo de persuasão, vitória e amor a arte de atuar: dentro e fora dos palcos.

A Cia Techniatto deu um show mais uma vez, mostrando que a arte de atuar se faz com paixão, força de vontade e superação!

* Clique aqui e leia a resenha do espetáculo A Fantástica Fábrica de Chocolate da Cia de Teatro Techniatto.

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Uma resposta para “RESENHA: Greve de Sexo, Cia de Teatro Techniatto

  1. Natalia novembro 13, 2012 às 5:40 pm

    Resenha perfeita!

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