NEXT CONQUEROR

o blog do Davi Jr.

RESENHA: Death Note

Qual a escolha que você faria se encontrasse um meio de acabar com tudo e a todos aqueles que causam o mau e o horror para a sociedade? E se para isso bastasse que o nome de cada um dos criminosos e assassinos que aterrorizam a todos os que saem de constasse numa lista meticulosamente escrita em um caderno? E se para a criação de um mundo novo apenas um homem precisa sujar suas mãos num crime sem pistas, sem testemunhas e sem culpado? Death Note conta até onde o homem pode corromper-se quando direitos de deus são colocadas em suas mãos, além de mostrar até onde o ser humano pode chegar para proteger problemas de um sistema que ele mesmo criou.

DESTINO DESEJADO NÃO TÂO DESEJADO ASSIM

Ao conhecer o Japão atravéz de seu universo pop, não se percebe o quanto a conduta estigmatizada ao povo oriental ainda está presente em sua cultura. Em um país pequeno, de língua extremamente local, a disputa por boas colocações no mercado de trabalho não é fácil para nenhum membro do modelo familiar atual.

Enquanto o pai de família fica preso horas no serviço seguindo, mesmo que incosientemente, os preceitos do bushido, sua esposa é a guia para os afazeres do lar e a educação dos filhos que são constantemente instigados a passar horas e horas estudando para conseguir um lugar nas escolas e faculdades mais disputadas do país para garantir o sucesso profissional.

O estudo é intenso e muitas vezes aterrador para o jovem adolescente, que preso a um destino previsível e desapegado de sonhos e transformações facilmente se frustra com com seu cotidiano e com o futuro que o aguarda, seja o calouro com problemas de aprendizado ou o veterano mais inteligente do Japão.

Colidindo fantasia à realidade, começa a história de Light Yagami. Assim como milhares de estudantes do Japão, Light vive frustrado com a vida que leva, mesmo sendo considerado o estudante com o futuro mais promissor de todo o Japão. Ao fazer o caminho de volta pra casa e mais um dia aparentemente trivial, ele encontra um caderno jogado no gramado e lê a inscrição na capa com os dizeres Death Note.

Se atententando aos detalhes do caderno ele lê uma série de regras para a sua utilização, que dizia matar em aquele que tivesse seu nome escrito em uma das folhas de seu miolo. A morte aconteceria a partir de sua descrição ou se daria após 40 segundos por ataque cardíaco.

Atrás do rosto bonitinho de Light, esconde-se uma tenebrosa personalidade.

Mesmo não acreditando na suposta magia do caderno, dentro de uma loja de discos, Light escreve o nome de um motoqueiro que aos berros tentava estuprar uma garota que passava na rua. Com a morte do homem e a garota em segurança, o adolescente sente que tem em mãos algo que pode guiar o futuro de toda a humanidade, sendo ele o escolhido para tal providência. Não demora muito para que a onda de assassinatos de criminosos espalhem uma lenda urbana que os japoneses chamam de Kira (do inglês, Killer). A única coisa que Light não contava era encontrar o seu próprio eu as avessas na figura do misterioso L.

O MAIOR DETETIVE DO MUNDO

Julgando e condenando os criminosos à morte, Light começa a utilizar largamente o Death Note. Com tantos presidiários e procurados sendo mortos de ataque cardíaco, o mundo todo começa a se perguntar o que está acontecendo no Japão. A única escolha da política mundial é levar ao Japão o maior detetive do mundo. Sem nome ou identidade, ele é conhecido apenas como L. A habilidade e o dissernimento do detetive aos poucos levam até Light, transformando o anime em um dos maiores thrillers policiais que a história da ficção mundial já teve.

Roteirizado por Tsugumi Ohba e com ilustrações de Takeshi Obata, o mangá teve início com a publicação de um episódio piloto na Shonen Jump, onde um estudante com idade bem inferior a Light consegue e passa a usar o Death Note. Com o sucesso do piloto e várias reuniões com os editores, Death Note tornou-se o sucesso mundial que é, já estando na mira até das indústrias de Hollywood.

Mesmo com a impressão de que o projeto seria rejeitado pela Shonen Jump, Tsugumi Ohba prosseguiu com a história de suspense por se considerar um escritor incapaz de elaborar roteiros para histórias de lutas e esportes. Já Takeshi Obata, após o sucesso da série até fez um curso de cabeleireiro para conseguir criar personagens com o máximo da realidade pretendida por Ohba.

"Os humanos são mesmo interessante", pensa o shinigami (deus da morte) Ryuk ao deixar o Death Note cair na Terra.

Com 12 volumes tankobon, 37 episódios para a TV, três filmes japoneses e um romance publicados, Death Note sempre contou com muitas mentes brilhantes trabalhando pela série, porém, nenhuma tão brilhante quanto os próprios Light e L, o que provocou durante toda a sua produção diversas oscilações de conteúdo e dramaticidade.

VAGANDO NUM VALE ENTRE O REAL E O IDEAL

Death Note começa surpreendendo a quem lê ou assiste. Uma idéia original, com um protagonista próximo da realidade do leitor e uma arma silenciosa que gera dúvida quanto os seus fins.

Porém, o ritmo alucinante do início da história não consegue se manter durante todo o tempo, sempre que algo grandioso acontece na história, um período de marasmo chega na história. Felizmente esse marasmo sempre resulta numa preparação para pontos ainda mais elaborados, contribuindo para o crescimento da história.

Assim, mesmo que num ritmo oscilante, onde o leitor/espectador pode facilmente perder o interesse em continuar a acompanha-la, os pontos altos da história sempre são crescentes, deixando boquiaberto a quem assiste. A morte do investigador Ray Pember, onde Light comete seu primeiro e fatídico erro, o desaparecimento de Naomi, a inóspita parceria de Light com L para encontrar Kira, a troca de Death Notes e o surgimento da empresa Yotsuba e o segundo Kira fazem com que a Death note chegasse a pontos tão alucinantes e descisivos que os autores acabara por perder o fio da meada.

Eram tantos personagens e informações no montante do caso que já não dava mais para manter a disputa entre L e Light sem que um dos dois não tomasse as rédeas da situação e vencesse a disputa.

A saída encontrada para colocar ordem na casa foi uma trama suja, baseada numa mentira, que deu uma ligeira vantagem a Kira e permitiu que desencadeasse uma onda de acontecimentos meticulosamentos organizadas durante cada um dos eventos para chegar a morte de L.

Apesar da aparência sórdida, L é o retrato da bondade e da justiça.

Tanto no anime quanto no mangá, a morte de L foi um divisor de águas. No anime, o episódio da morte do personagem foi uma das maiores obras-primas que um estúdio conseguiu produzir para uma série de TV. Qualidade de imagem, trilha sonora envolvente, frames dramáticos e um texto inteligente e muito bem dublado pelos atores que fazem as vozes dos personagens formaram um escopo perfeito da grandiosidade do enredo de Ohba pretendido no mangá, dramático, persuasivo, reflexivo e ao mesmo tempo cativante e instigante.

L morreu como um mártir injustiçado pelos efeitos do Death Note ao seu autor, deixando a lembrança de um espírito bondoso e inocente envolto da aura maligna do ser humano corrompido pela ganância e o orgulho.

UM TRAPACEIRO QUE NÃO CONHECE A SOLIDÃO

É fato que a trama de Death é inteligente e inovadora, ainda mais para o estilo shonen de mangás, mas de nada isso adiantaria se os agentes dessa trama não fossem carismáticos o suficiente para captar o espírito jovem do público da Jump.

De todos os relacionamento da série, o mais comovente é o que acontece em Misa Amane e Light. Rica, famosa e bobinha, Misa idolatra Kira por ele ter matado os assassinos de seus pais com o Death Note. Por uma ironia do destino a garota acada também conseguindo um caderno da morte e fazendo o temebroso “acordo dos olhos” com o shinigami dono de seu caderno para encontrar o homem por trás da identidade de Kira.

Impossível o expectador/leitor não despertar os mais diversos sentimentos de ira por Kira e afeição por Misa. Light se aproveita todo o tempo de Misa, se aproveitando dos sentimentos que a garota nutre por ele para usá-la como uma peça dos seus planos contra L. Se o detetive já tinha dificuldades em prever as ações do criminoso quando ele estava sozinho, junto com Misa as coisas se dificultam ainda mais.

Impossível não se indignar com todas as vezes que Light se aproveita da ingenuidade de Misa.

E HOJE EU TIVE UM SONHO QUE NINGUÉM MAIS PÔDE TER

Cada um dos subtítulos dessa resenha são frases dos temas de abertura e encerramento de Death Note. Mesmo os temas sendo “stead-ups”, músicas que gravadoras famosas patrocinam para colocar no anime, é incrível como elas se encaixam perfeitamente no contexto da história, formando um obra final em total ressonância com seu fim.

Mesmo com os problemas de produção do anime após a morte de L, cuja produção foi deveras acelerada e pontos do fim do mangá foram cortados, Death Note tanto no anime como no mangá mostraram para que vieram, desencadeando um amadurecimento no setor do entretenimento shonen japonês que passava por uma estagnação de inspiração desde os anos 90.

Death Note é uma obra marcante não só para o contexto geral do anime, mas principalmente para o fã. É interessante notar como as personalidades distintas de Light e L geram um contra-ponto interessante dentro e fora da série. Nunca uma discussão de conteúdo de série chegou a pontos tão reflexivos e ideológicos como acontece quando fãs discutem a disputa de Kira vs L.

Dramas interpessoais, sociais, jurídicos, criminalidade, fatos sociais, moral, ética, altruísmo, certo e errado. São só alguns dos pontos mais comuns que sempre envolvem os debates que avaliam as atitudes e ações de L e Kira. Mesmo após horas de discussão e dezenas de fatos e opiniões levantadas o impasse sempre entre os dois pontos-de-vista mais distintos da história dos animes sempre continuará e fará a história do adolescente entediado que encontra a possibilidade de ser Deus viver para sempre no imaginário de todos aqueles atingidos por Death Note, quer encontre respostas, quer não.

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7 Respostas para “RESENHA: Death Note

  1. Lívia janeiro 28, 2012 às 12:27 am

    Como sempre, adorei a resenha, Davi. Você realmente é muito bom pra captar significados ocultos na história. Entretanto, achei que dessa vez, vc foi parcial demais, deveria manter uma certa impessoalidade (tá, garanto q eu vou levar uma piadinha por ser fã incondicional do Kira…). Na minha opinião, acho q uma resenha eh mais para comentar a história em si, não os personagens e suas atitudes, deixando a opinião sobre os personagens devem ser por conta de cada um.

    Bom, de qualquer forma, ficou muito boa. Mal posso esperar pela próxima! 😀

    • nextconqueror janeiro 28, 2012 às 12:30 am

      Hwahahahahaha.

      Acho que você só falou isso por causa do “Atrás do rosto bonitinho de Light, esconde-se uma tenebrosa personalidade.” Tentei ser o mais impessoal possível, mas é dificil não ter uma quedinha pela filosofia do L. Mas enfim, fico feliz que gostou da resenha. Ainda não sei qual será o próximo, mas espero superar suas expectativas;

      ^^v

  2. Lívia janeiro 28, 2012 às 12:57 am

    Na verdade, teve outras frases tb, Davi:

    Impossível não se indignar com todas as vezes que Light se aproveita da ingenuidade de Misa.

    Apesar da aparência sórdida, L é o retrato da bondade e da justiça.

    Entre outras… mas deixa pra lá…

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  6. Guilherme novembro 5, 2013 às 2:37 pm

    Li várias resenhas buscando o parcial. Essa foi a primeira que encontrei. É importante observar por outros pontos de vista, pois quando se forma um, muitas vezes acreditamos cegamente neles.

    Parabéns !

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