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o blog do Davi Jr.

RESENHA: Bleach, a saga da Soul Society

Seja no cinema, em um livro ou na hora de dormir, uma história precisa ser bem contada, ter personagens cativantes e uma linguagem que fascine a que com ela tem seu primeiro contato. Seja no Brasil ou no Japão, contos fantásticos vão além da cultura local ou dos valores vigentes, atingindo os pontos mais sensíveis da alma humana. Bleach é o fenômeno japonês que invadiu o mundo não por obedecer essas idéias, mas por ir além dela, mostrando que mesmo numa sociedade habitada somente por mortos, é no coração humano que repousa o fascínio e a inspiração da alma pela vida.

SUBSTITUTO DE SHINIGAMI

É comum na classificação de uma longa história a divisão de suas partes em “sagas” ou “arcos”, em Bleach não é diferente e o primeiro arco da história é comumente chamada de arco do Substituto de Shinigami. Porém, como esta leva da história não passa de uma preparação para o arco a seguir esta resenha irá abordá-la como parte de um primeiro grande todo da história, estando dentro do que é chamado de Saga da Society. Esta saga compreende os volumes do 01 ao 20 do mangá e os episódios do 01 ao 63 do anime.

E que grande história! Bleach já soma mais de 50 volumes de mangá, mais de 300 episódios animados para a TV, 4 longa-metragens e está presente em dezenas de países. Quem observa este número de conquistas não imagina a longa trajetória por qual a história passou para até o ponto que a consolidou com uma das franquias mais rentáveis do Japão.

O autor da história, Tite Kubo, já havia idealizado a história desde os anos 90, época em que ele entregou os primeiros capítulos da história, já desenhados, para serem publicados na Shonen Jump, maior revista de histórias em quadrinhos do Japão. Porém, pela proximidade do tema com Yu Yu Hakushô e um estilo muito similar ao de Samurai X, duas publicações da Jump que haviam virado febre no Japão nos anos 90, Bleach foi rejeitado pela revista.

Com seus esforços não recompensados, Tite Kubo chegou a quase desistir da carreira de mangaká, publicando nos próximos anos apenas alguns poucos one-shots sem grande repercussão e Bleach só voltaria na vida do autor alguns anos depois quando, por obra do destino, cópias de seus primeiros capítulos desenhados foram parar na mão de Akira Toriyama, o consagrado autor de Dragon Ball.

A chegada de Rukia a cidade de Karakura dá início a história.

Maravilhado com o que viu, Toriyama aconselhou que Tite Kubo voltasse a dedicar algum tempo ao mangá, o que resultou numa nova análise da revista Jump e na tão aguardada aprovação cobiçada pelo autor. Era a sua oportunidade de contar para o mundo a história do adolescente de cabelos laranjas que não imaginava que sua estranha capacidade de poder ver espíritos mudaria sua vida para sempre.

A MORTE E O MORANGO

O primeiro capítulo do mangá não poderia ter melhor nome. O ponto inicial do anime acontece quando o protagonista Ichigo Kurosaki acaba recebendo os poderes de shinigami de Rukia Kuchiki, a responsável da cidade da fictícia cidade de Karakura em salvar as almas que se tornaram hollows, espíritos humanos que se tornaram monstros espirituais por se prenderem a algo na terra que os impediu de ir até a Soul Society após a morte.

Ichigo, em japonês, significa morango e Rukia é uma shinigami, literalmente deus da morte mesmo que na adaptação brasileira o termo tenha sido modificado para ceifeiro de almas. O encontro do morango com a morte possibilitou não apenas uma mudança radical na vida de Ichigo como também a criação de um time de personagens de primeira para compôr a história do anime no arco do substituto de shinigamis.

Ao ganhar poderes espirituais devido a convivência com Ichigo e por ter uma rivalidade secular com shinigamis, Orihinme Inoue, Sado Yasutora (ou soment Chad) e Uryuu Ishida, o último quincy, se tornam personagens de variados estilos de luta que apresentam o universo de Bleach ao leitor/espectador ao mesmo tempo que ganham destaque na história junto ao protagonista.

Inicialmente como rival de Ichigo, Ishida ganha destaque como personagem!

É interessante notar o ciclo que se tem início neste arco, já que além de definir o leque de personagens em torno dos quais a história vai girar, o quinteto formado corresponde a cinco personalidades ideais para que o espectador crie um vínculo com a história, acompanhando-a para saber como tais esteriótipos corresponderão as situações que lhes serão impostas. E isso vai se desenvolvendo cada vez mais a cada novo elemento acrescentado a história, principalmente com a chegada de Byakuya Kuchiki e Renji Abarai a cidade de Karakura.

A SOUL SOCIETY

Se antes a principal característica de Rukia era a sua personalidade forte e autoritária diante das tarefas passadas para Ichigo, sua conversão a obediente e submissa soldada da Soul Society surpreende a todos quando Renji e Byakuya, respectivamente tenente e capitão do sexto esquadrão de defesa da Soul Society, levam-na para a Soul Society por ela ter cometido o crime de passar poderes de shinigami a um humano e viver como uma humana com o uso de um gigai (corpo utilizado por almas para se materializar na terra).

Após um treinamento cedido por Urahara, dono da loja que Rukia comprou seu gigai,  para recuperar seus poderes de shinigami tirados por Byakuya, Ichigo segue rumo a Soul Society para salvar Rukia da sentença de morte, já que é graças aos poderes que ela lhe cedeu que ele pode se tornar forte o suficiente para proteger a sua família, uma maneira de tentar se absolver da culpa por ter causado, mesmo que sem querer, a morte de sua mãe por um hollow.

Acompanhando Ichigo em sua empreitada, estão todos aqueles que tiveram sua história iniciada pelos eventos ocorridos antes da partida de Rukia, cada um seguindo um objetivo próprio além do resgate da shinigami. Ishida quer entender o porquê da morte de seu avô quincy pela inação de um shinigami, Inoue quer garantir que os obejtivos de Ichigo sejam concretizados e Chad quer cumprir a promessa que fez ao amigo quando se conheceram: proteger as costas de um amigo que sofria com os mesmo problemas que o dele.

"Vou proteger suas costas" é a promessa de Chad para Ichigo!

Apesar das referências, talvéz até involuntárias, a Yu Yu Hakushô e a Samurai X, é nesta fase que as verdadeiras inspirações de Tite Kubo começam a ficar mais evidentes. Revelado pelo próprio autor, as entidades sobrenaturais são inspiradas nos monstros de GeGeGe no Kitaro, mangá de Shigeru Mizuki, publicado na década de 50. Já o estilo de luta RPG, um ataque e outro defende, aliado a dramaticidade dos textos e flashbacks, tem sua origem em Saint Seiya (Os Cavaleiros do Zodíaco, no Brasil), de Masami Kurumada, publicado na segunda metade dos anos 80. As batalhas na Soul Society, além de impressionar os olhos de quem vê, dão ainda mais força a história e a personalidade de cada personagem.

CICLO DE UM PERSONAGEM

Todo personagem tem um ciclo: ele nasce, vive e morre. Seu nascimento acontece na primeira vez que ele figura na história, mas sua morte não significa necessariamente o seu falecimento, mas mantê-lo vivo depende de todo o universo, do contexto e dos elementos inseridos no decorrer da história a ele relacionado.

Assim como foi com os cavaleiros de ouro em Saint Seiya, o Gottei 13, os treze esquadrões de defesa da Soul Society, adicionaram diversos elementos que possibilitaram o crescimento e o amadurecimento de cada personagem. Mesmo que muitas vezes fique claro que o insight de determinada sequência tenha ocorrido depois de seu planejamento, tudo o que foi acrescentado durante a saga do Soul Society contribuiu para o fortalecimento da história e, principalmente, de seu universo criativo.

A entrada de Ganju, foi o ponto crucial para atiçar a curiosidade sobre o passado de Rukia. A criação do Bankai, motivou uma causa para se conhecer os 13 capitães. E por fim, o assassinato de Sousuke Aizen, capitão do 5º esquadrão, possibilitou o desenvolvimento da personalidade dos 13 capitães que refletiu diretamente em como o quinteto de protagonistas se mostrou na história, onde nem todos puderam aproveitar as possibilidades criadas pelo autor.

A paixão de Orihime por Ichigo leva a garota até a Soul Society.

Ishida, que mesmo declaradamente inferior a Ichigo, mostrou que havia muito o que desenvolver após derrotar Kurotsuchi Mayuri, o capitão do 12º Esquadrão, mesmo ambos tendo uma diferença gigantesca de poder. A utilização do armamento quincy para utilizar um poder que ainda não possuia faz o próprio Mayuri reconhecer que Ishida ainda pode crescer muito como lutador, mesmo este tendo perdido todos os seus poderes após a luta. Se a dificuldade inicial era conseguir o poder que ele despertou (maior que a dos capitães), o plano a seguir seria dominar tal técnica para garantir a permanência do personagem no decorrer da história.

Orihime cresceu, mas foi diferente. O ciclo de batalhas que a personagem poderia vir a ter após um treinamento antes da Soul Society mostrou-se ineficaz na personagem, mas esta trocou o papel de lutadora (já muito bem suprido por Ichigo, Ishida, Chad e todos os outros aliados que a Soul Society produziu) para se tornar uma espécie de maga branca, personagem clássico dos RPG’s responsável pela cura dos personagens, papel essencial, participativo e muito mais adequado a sua personalidade.

O problema aconteceu apenas com Chad. Mesmo após toda a campanha inicial do personagem (inclusive pelas frases de efeito de Ichigo) e a aparente força desenvolvida durante o treinamento pré-soul society, o personagem perdeu o ritmo e não deu conta de surpreender o leitor/espectador com sua participação na saga. Provavelmente isso foi fruto da extrema ligação com Ichigo que Tite Kubo criou durante a criação da origem do personagem, mas que erroneamente foi esquecida, separando ambos, durante o desenrolar do caminho dos dois na Soul Society.

PROTAGONISTA PRA NINGUÉM POR DEFEITO

Apesar da linha inicial se aproximar bem de Os Cavaleiros do Zodíaco, com um time de personagens a qual a história gira, Bleach acabou se aproximando muito mais da linha de Dragon Ball, onde apenas o protagonista leva a história em sua reta final, deixando Ichigo com o papel definitivo para finalizar a saga e utilizando personagens secundários para apoiá-lo.

Visto que todos os personagens tem um ciclo, é o ciclo de história do protagonista que dá apoio a história e é quando este acaba é que a história tem fim. Durante as lutas com Renji e Kenpachi Zaraki Ichigo pode crescer como protagonista, mas foi apenas na luta final contra Byakuya que o ciclo do personagem reflete diretamente como guia do universo criado.

Ideologicamente, este é o personagem que vai contra os preceitos de uma sociedade mesquinha e egoista, mascarada em uma série de classes que parecem manter a ordem e ter tudo sobre controle. Byakuya é o personagem que mais reflete os ideais dessa sociedade e a vitória de Ichigo sobre ele garante a vitória do protagonista sob aquilo que ele combateu durante toda a história.

Entrementes, Ichigo apenas conseguiu a vitória por ser dominado por sua consciência hollow, que habita nele após o seu treinamento com Urahara, mostrando que mesmo vencendo aquilo a que combateu, ainda resta uma luta introspectiva que insiste em destruir o que ele conquistou e que pode dominá-lo a qualquer hora.

O lado hollow de Ichigo deixou Byakuya sem reação em sua luta definitiva.

Com o fim de Bykuya, a sensação do apreciador da história é que tudo teve um fim, mas ao se recordar do contexto que levou até a luta dos dois shinigamis, provocando uma série de lutas a la capitães versus capitães, parece que um obstáculo não aparente precisa ser vencido pelos protagonistas e é aí que entra a influência de todo o contexto do universo criado por Tite Kubo.

O MELHOR FIM DE SAGA QUE UM ANIME JÁ TEVE

Não há nada melhor para um espectador que perceber que todos os pequenos elementos que rodeiam a história principal fazem parte de um todo com total influência no enredo primordial. Não há melhor descrição para o fim da Saga da Soul Society de Bleach.

Após a luta contra Byakuya, descobre-se que a sentença de morte de Rukia era parte de um demoníaco plano que Sousuke Aizen arquitetou com a sua própria morte para conseguir o Hougyoku, artefato criado por Urahara e implantado no espírito de Rukia, sem ela saber, quando esta utilizou um de seus gigais. Com o Hougyoku, Aizen poderia unir os poderes dos shinigamis com os dos hollows, produzindo seres e depertando poderes nunca antes imaginados pelas forças do Gottei 13.

Com a revelação de Aizen após a luta contra Toushiro Hitsugaya, capitão do 10º esquadrão, e o roubo a liberação forçada do Hougyoku do corpo de Rukia, o traidor vai  junto com Ichimau Gin, o capitão do 3º Esquadrão, e Kaname Tousen, capitão do 9º Esquadrão, para o Hueco Mundo, lugar onde habitam os hollows, para colocar em prática suas ambições de transformar hollows em shinigamis e formar um exército pessoal para por um fim na Soul Society.

Com um rosto inocente e uma aura de justiça aparentemente inabalável, Aizen enganou a todos.

Mostrando-se presente em todas as etapas da história, Aizen se tornou o ideal perfeito de vilão da história que faltava em Bleach, unindo a todos os pontos injustos e cruéis enfrentados pelos protagonistas em um só grande contexto.

Com um final de saga épico, Bleach abriu espaço para um continuação espetacular, cheia de possibilidades de utilização de personagens, criação de novos inimigos e aprofundamento do contexto inicial dos hollows história, que pareceu se perder com a ida de Ichigo a Soul Society mas que se mostrou essencial para a continuação da história de Aizen.

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