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o blog do Davi Jr.

RESENHA: Samurai Sentai Shinkenger

A figura do samurai sempre foi muito cultuada no Japão e sinônimo do país para o ocidente. E não é para menos, todos os anos, os japoneses produzem dezenas de histórias com referências a esses guerreiros. Seja diretamente, como em Samurai X e Vagabond, ou indiretamente, em histórias de espada e kimono como Bleach, o samurai sempre está lá, representando toda a força e dedicação do povo japonês. Samurai Sentai Shinkenger foi a série Super Sentai que abordou a temática em 2009, e assim como os samurais, conseguiu resgatar todos os valores que a franquia havia perdido ao longo dos anos.

OS SENTAIS DOS 2000

Após as quebras de padrão iniciadas em Flashman (leia a resenha aqui) e as inovações criadas nos anos 90, o Super Sentai se tornou uma série consolidada no mercado japonês, sendo sempre garantia de retorno para as empresas envolvidas. Se os altos e baixos que a franquia sofreu nos anos 80 perturbava e por vezes se cogitou seu fim, nos anos 2000 a história era bem diferente: com a audiência  regular, um horário fixo e a injeção de fundos anual que a Disney e a Saban deram a Toei Company com a compra da séries para serem veiculadas no mundo como Power Rangers, a situação não poderia ser mais confortável.

Porém, essa acomodação e a transformação de inovação em regra acabou prejudicando o desenvolvimento do enredo dos Super Sentais. Com o sucesso de séries com enredo enredo extremamente infantilizado, como Abaranger e Caranger todas as séries dos anos 2000 passaram a focar esse enredo.

Parece estranho elucidar que uma série voltada para crianças não devesse ter um enredo infantil, mas é fato que desde o nascimento das séries tokusatsu, estas séries sempre possuíram um enredo mais dramático, geralmente cunhada em elementos da ficção científica. Com o chamariz das roupas coloridas, o enredo da séries serviam para, entre outras coisas, o amadurecimento da criança que a assiste, uma analogia ao que acontece com o personagem no decorrer das séries, como é muito visível em Jaspion (leia a resenha aqui).

Como líder do clã Shiba, Takeru permanece distante do grupo, isto está relacionado ao seu fatídico destino.

Entre uma e outra série que parecia um pouco mais virtuosa, parecia que o cenário só pioraria, tendo até séries Power Rangers mais espirituosas que seu irmão japonês (como acontece na relação Go-Onger e Power Rangers RPM). Felizmente, os super sentais tiveram uma revolução em 2009, quando a série daquele ano resolveu utilizar um tema que, mesmo que óbvio, nunca havia sido explorado: samurais.

DO JAPÃO FEUDAL PRA O SÉCULO XXI

Para os fãs de primeira viagem, o tema samurai pode até parecer corriqueiro para uma série oriental, mas aos veteranos, parece incrível que um tema desse nunca tivesse sido explorado antes, já que o tema possui uma vasta herança cultural perfeita para o tipo de séries que são os Super Sentais.

Takeru Shiba, o ShinkenRed, é o 18º sucessor do clã Shiba, o clã responsável por combater e aprisionar o lendário monstro Chimatsuri Doukkoku. Doukkoku é o líder de gendoushus, seres folclóricos do Japão que vivem no terrível Rio Sanzu, que tem seu nível determinado pelos humanos: quanto mais tristes, enfadonhos e desesperados, mais o nível do rio sobe e aproxima a possibilidade de Doukkoku de invadir o mundo humano.

Toda vez que um humano olhar por alguma fresta, seja ela a rachadura de uma parede, o vão entre dois móveis ou qualquer outra coisa, cria a possibilidade de um gendoushu invadir o mundo humano para aterrorizar os humanos e fazer a água do Rio Sanzu subir.

Juuzou abandonou o bushido para seguir com suas ambições de batalha.

Takeru, por ser o herdeiro dos Shiba tem o título de Tono, ou senhor feudal, e lidera uma equipe de quatro vassalos, formados por jovens que se unem ao líder no primeiro episódio, também herdeiros de outros clãs que, historicamente, serviram ao clã Shiba todas as vezes que Doukkoku se libertava do selo dos Shiba e voltava a atacar a terra.

BUSHIDO

Mesmo para o japonês moderno, é dificil conciliar o passado místico dos samurais com a realidade e essa é a primeira abordagem que Shinkenger faz nos primeiros episódios, quando os traços de personalidade de cada um dos quatro vassalos é posta em conflito com a liderança de Takeru, mesmo que todos eles tenham recebido previamente treinamento samurai de sua família e estão consientes do seu dever.

O preceito básico do samurai é o Bushido, ou caminho do samurai. Entre outras coisas o Bushido rege que um guerreiro deve ser leal ao seu Tono, ter espírito marcial, cultivar a sabedoria milenar de seu povo, preservar sua honra e se sacrificar pelo seus ideias. Mesmo sem saber seu nome, a visão que o ocidental tem do japonês é bem descrita pelo Bushido, graças a histórica conduta do país país durante a II Guerra Mundial e a reerguida econômica do século XX. Ainda hoje, esse preceito esta enraizado nas famílias japonesas, seja no trabalho, na escola ou na vida pessoal, se adequando a cada dia à nova dinâmica do Japão contemporâneo.

Em Shinkenger, cada personagem tem a sua maneira de encarar o Bushido: enquanto o ShikenBlue, Ryunosukke, leva este ao extremo, mostrando atitudes exageradas (e até certo ponto infantis) perante a autoridade do tono, os outros três vassalos não acreditam que ela realmente determine sua conduta.

O grupo se une, mas demora para os cinco partilharem os mesmos ideais.

Mako, a ShinkenPink possui muitas dúvidas sobre sua submissão a Takeru pelo histórico de sua mãe que serviu ao Tono anterior e foi condenada a cadeira-de-rodas por conta disso. Enquanto isso, Kotoha, a ShinkenYellow, busca sempre agradar a ShinkenRed, já que sua entrada para o grupo de vassalos aconteceu devido a uma doença que atingiu sua irmã mais velha, a até então, herdeira da vestimenta amarela dos Shinkenger.

Chiaki, o ShinkenGreen, é o oposto de Ryunosukke. Folgado e irresponsável, ele nega a utoridade do Tono e só aceita entrar para a equipe quando se sente pressionado a superar a força de Takeru, que se mostra muito superior aos dos vassalos.

O estilo impessoal de Takeru incomoda muito aos vassalos e força física passa a não ser motivo suficiente, com excessão de Ryunosukke, para que ele lidere a equipe. Muitas intrigas internas abalam o grupo até eles conhecerem o motivo da conduta distânte do tono: apesar de ser um legado destinado a ele, Takeru não domina a técnica do selo para aprisionar Doukokku, estando todo o peso do fim-do-mundo sob sua responsabilidade.

Confie sua vida  a nós, que nós confíamos nossa vida a você“. A promessa realizada entre os cinco num momento de extrema necessidade é o ponto-chave para que Takeru comece a se aproximar dos seus vassalos. Mas nada é comparado ao efeito que a chegada do ShinkenGold provoca no grupo.

Além de sushiman, Genta é um gênio das artes e utilização do Mojikara!

O SUSHIMAN

Desde Zyuranger é comum que mais integrantes se unam a equipe inicial nos seriados super sentai, em Shinkenger não é diferente e além disso, a presença do sexto integrante provocou uma mudança essencial para o decorrer da trama.

Genta, o ShinkenGold, é um sushiman que acaba de chegar a cidade. Quando pequeno, ele era o melhor amigo de Takeru, que o presenteou com um disco de samurai. Com seu talento, Genta descobre os poderes utilizados na peça e se torna o sexto vassalo de Takeru, ou como ele prefere se definir: o sushiman da história, já que ele sonha se tornar um sushiman cinco estrelas.

A presença de Genta provoca uma mudança radical em Takeru, com uma parte de sua infância convivêndo com ele, o personagem que por vezes irritava com sua impessoalidade, se paroxima cada vez mais de seus vassalos, criando um ambiente harmonioso e amistoso como nunca antes visto na mansão dos Shiba.

1, 2, 3… 20 ROBÔS! E CRESCENDO!

Apesar do rico folclore, das inúmeras referências ao passado histórico do seu país, de uma trama pessoal criativa e de personagens cativantes, há conceitos que são impossíveis de se largar num super sentai dos anos 2.000: a quantidade exorbitante de robôs e suas inúmeras combinações.

Apesar de todo o desenvolvimento de uma trama, o que move um seriado tokusatsu são as vendas de brinquedos que este pode gerar, por isso a queda de qualidade já abordada não mudou os resultados da franquia. E Shinkenger também levou isso a sério.

O gigante Shinken Ha Oh é a combinação de uma série de mechas samurais!

Só nos primeiros 10 episódios, o jovem japonês já conta com 12 opções robôs, singulares ou combinados, que entram no seriado com mais velocidade que os planos de Doukokku. Com a chegada de ShinkenGold, um filme e a pressão de novos inimigos, o número chega a quase 30 no fim da história. O gigante robô Shinken Ha Ho, formado por quase todos os robôs, chega a ser um trambolho tão grande que os gigantes monstros parecem só um detalhe quando ele entra em ação.

Muitas vezes a quantidade de robôs atrapalha o ritmo da história que acaba se limitando por conta do tempo necessário para dar o devido crédito ao robô. Porém, muitos episódios se mostram muito eficientes, sendo o episódio duplo destinado ao robô touro Ushi Origami um dos episódios com melhor mensagem levada ao público.

DOUKOKKU QUEM?

Shinkenger é muito atrativo visualmente. Não só pelo uniforme, a variedade de robôs trilha sonora motivante e a qualidade dos monstros, mas pela ambientação histórica que diversos episódios mostram, todos perfeitamente combinados com o enredo.

O maior destaque para episódios voltados a essa ambientação é Juuzou, um humano que foi atraído pelas forças dos gedoushu através dos desejos de combate provocados por Uramasa, uma espada enfeitiçada que o transformou em metade humano e metade gedoushu. Com cabelos cumpridos, vestimentas de época e flashbacks de sua vida durante o Japão feudal, suas aparições sempre são motivos de atenção, já que sua principal ambição é vencer ShinkenRed, o único humano, segundo ele, capaz de lhe dar o prazer de uma luta verdadeiramente desafiadora.

A luta entre ambos acontece por diversas vezes, mas o combate decisivo dos dois acontece no que pode ser considerado o apogeu de toda a história.

Pegando a todos de surpresa, descobre-se que Takeru é na verdade um Kagemusha, uma sombra do real tono. Com a finalidade de proteger o real herdeiro dos Shiba, Takeru é escolhido para ficar no lugar de Kaoru Shiba, a real ShinkenRed, devido a sua grande habilidade com mojikara, a energia que move os golpes dos samurais.

Com achegada da Kaoru, Takeru é colocado numa ituação parecida com a de Juuzou, onde sua vida de samurai não tem mais sentido, mas o desejo de lutar continua. O que Takeru não entende é que a origem de seu desejo parte da proteção a terra, enquanto de seu rival de um desejo avarento e individualista.

Kaoru Shiba é a primeira mulher a liderar uma equipe super sentai.

No antigo Japão, apenas o samurai com a mais alta patente podia montado a cavalos, e é assim
que o embate final de Takeru com Juuzou acontece, mostrando não apenas a classe, mas elucidando a autoridade que cada um dos dois conquistou durante a série.

Enquanto isso, os vassalos se sentem vivendo numa mentira, mas não pelo título de um tono falso, mas pela perda de um líder que provou ser digno do seu posto. Eles vivem o drama de cumprir a obrigação de vassalo protegendo a princesa Kaoru e a distância de um amigo.”Seria mais fácil se ela fosse uma princesa detestável” diz Chiaki a Genta quando este tenta coagir o grupo a ir atrás de Takeru.

Com o fim de Juuzou, a luta contra contra Doukokku até parece desnecessária e apesar de bem produzida, não teve todo o impacto que a somatória do drama dos dois tonos teve na luta contra Juuzou.

SENTAI DE ÉPOCA

Agrupar, mesclar e criar poder ser a série de verbos ideais para descrever um robô gigante dos seriados Super Sentai, mas também são perfeitos para descrever o resultado final de Shinkenger.

Com um tema atrativo para espectadores de qualquer idade, conceitos e ideias aplicadas de maneira a criar um contexto criativo para o desenvolvimento da trama, Shinkenger provou que mesmo carregando o legado de 33 anos da franquia nas costas, é possível criar histórias criativas, envolventes e originais a partir de uma fórmula que vai sendo reformada e reutilizada todos os anos.

Toda vez que um espectador assiste a um tokusatsu, a comparação com uma possibilidade da mesma história ser contada em animação vem a cabeça, já que diversas cenas e sequências poderiam ser muito melhor executadas sob o traço e tinta japonês para expressar diversas situações que o limitante humano não consegue produzir num live-action.

A força do inimigo obriga os guerreiros a uma luta final sem vestimenta samurai!

Mas com Shinkenger é diferente. Todas as cenas, mesmo as mais complexas, foram tão bem moldadas para se adequar a situação de live-action que as possibilidades de um anime se torna desnecessária.

A mensagem, além de muito bem passada, consegue transmitir algo concreto ao espectador, algo não só momentâneo, mas reflexivo e duradouro, capaz de se incorporar os preceitos de amizade, união e responsabilidade ao seu dia-a-dia, criando laços tão fortes quanto a união dos vassalos com seu tono ou como o samurai com seu bushido.

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8 Respostas para “RESENHA: Samurai Sentai Shinkenger

  1. Rafael Kaen dezembro 30, 2011 às 10:33 pm

    Shinkenger tem muitas referências ao folclore japonês, é uma das melhoras da decada!

  2. Áttilas Lima dezembro 31, 2011 às 3:30 pm

    Se foi dada uma volta de 360º, os sentais voltaram pro mesmo lugar.
    O correto seria uma volta de 180º.

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