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o blog do Davi Jr.

REVIEW: 12 Homens e uma Sentença

“A justiça é cega”. Esse é uma das mais célebres definições da capacidade do homem em definir fronteiras, determinar limites e construir uma barreira entre instinto e razão. Porém, quanto mais o ser humano se depara com esta frase é nítido como tal conceito é frio e injusto.

Se por um lado a justiça não deve tomar partido de algo ou alguém em determinada situação, não seria a habilidade do homem em emocionar o próximo que lhe proporciona a capacidade de racionalizar atitudes instintivas e passionais?

12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men, no original) é um clássico de 1957 que leva o homem a refletir até que ponto a livre interpretação dos fatos pode separar o introspecto e a socialização quando a vida de um homem está sob a decisão de 12 homens e a maneira como cada um deles enxerga uma realidade viciada pelos medos e ocultada pelo preconceito.

CINEMA EM DUAS CORES

Para quem está acostumado com o cinema de luzes, explosões e toda gama de efeitos especiais que Hollywood produz, é dificil mostrar a grandiosidade do cinema em preto-e-branco que tanto emocionou gerações e gerações.

No passado, sem a tecnologia que alimenta a indústria do entretenimento, o foco central de uma produção cinematográfca era seu enredo, a história a qual a direção, roteiristas e produtores passavam a cada take.

Conhecida como a idade do ouro, os anos 50 foi a época em que o cinema mais ousou em suas produções, criando enredos que misturavam o lúdico com o empírico e deixando a linearidade vista nos anos anteriores em segundo plano. Tudo isso sem os orçamentos milionários do atual cinema.

Os 12 jurados se reúnem para decidir a possível pena de morte de um jovem.

12 Homens e uma Sentença é um dos filmes que mais reflete todos essas caracteríticas da época, sendo uma das obras-primas mais bem lapidadas de toda a história do cinema. Com um enredo que não fica claro logo que é exposto, personagens que misturam o comum e o curioso, o filme conseguiu com apenas uma locação contar não só uma história, mas diversas histórias que vão se encaixando ao longo da narrativa transformando a história central em algo dinâmico e criativo, que quanto mais se vê, mais se quer ver.

JURADO NÚMERO 8

O filme tem como protagonista o jurado número 8 (Henry Fonda), cujo nome o espectador só vai descobrir no fim do filme, que decide contrariar todos os outros 11 jurados durante a reunião final de um juri que decidiria se um jovem portoriquenho seria condendo a morte pelo assassinato de seu pai nos subúrbios de uma cidade grande.

Avaliando o que haviam visto no tribunal, os 11 jurados têm claro na mente que o jovem é culpado e decidem “simplificar” a reunião de veredicto logo decidindo um óbvio resultado de condenação por meio de uma votação erguendo as mãos. A surpresa acontece quando o jurado número 8 decide que todos devem discutir o caso antes de cometer qualquer precipitação.

Agindo como um líder, o jurado número 1 toma a iniciativa de organizar a reunião, como uma espécie de mediador de interesses, tentando se manter o mais neutro possível, definindo, inclusive, as regras de intervalos e duração das discussões, para tornar a experiência mais proveitosa e proativa.

É durante as discussões que o conflito de personalidades começa a se tornar o ponto central da trama, onde o espectador vai descobrindo como é o réu de acordo com os pontos de vista de cada um dos jurados.

O jurado 9 (Joseph Sweeney) é o primeiro a apoiar a posição do jurado número 8 por conhecer os dramas de uma das testemunhas, também um ancião.

Aos poucos, vários esteriótipos vão se apresentando e exteriorizando suas razões pessoais para condenação do rapaz. Vale lembrar que toda a vez que se é necessário um caso chega a um impasse na justiça, um julgamento da forma de juri, onde o juiz apenas guia as defesas e acusações e 12 homens são selecionados para dar a sentença, é formado para decidir o futuro do réu.

Geralmente este tipo de tribunal é usado para casos grandiosos, que envolvem mídia e interesse popular. Os 12 jurados seriam uma espécie de representação da sociedade no caso, decidindo o que seria melhor para o futuro desta quando caso um caso como o julgado decorre nela. O resultado precisa ser imparcial e racional, não podendo ser dado se todos os 12 jurados não concordarem com ele. Mas como mostra a crítica de 12 Homens e uma Sentença, é dificil desvincular um homem de sua história para julgá-lo.

É interessante observar como cada jurado acaba, mesmo que sem essa intenção, relacionando o caso do jovem portorquenho com sua vida pessoal. O caso mais notável é o jurado número 3. Empresário e atormentado pelo abandono de seu filho, o personagem grita com tudo e com todos tentando culpar o réu pelos fantasmas que sofreu com a preconceituosa visão que ele tem da atual juventude dos anos 50.

Aos poucos, as faces de cada um dos outros jurados vai se apresentando. A visão do publicitário falante, do respeitoso pintor de paredes, do racional especulador de bolsa de valores, do superficial fã de esportes, do sábio ancião e de todos os outros jurados, que o tempo todo tratam-se apenas pelo número para manter a impessoalidade da reunião, vão costurando uma rede preciosa de informações que levam o espectador a fazer parte do juri e tomar um partido sobre o caso julgado, assim como aos poucos vai se revelando o motivo pelo qual o jurado número 8 é a favor da inocência do rapaz, destacando-se por sua perspicácia e habilidade de raciocínio, eloquência e teste de provas não antes pensadas pelos advogados.

Henry Fonda é destaque no papel do jurado número. Sua performance, drama e olhar refletem perfeitamente a condição que o filme necessita.

É DADA A SENTENÇA

O maior diferencial de 12 Homens e uma Sentença é a proximidade que o ambiente do filme cria com o espectador. Mesmo sendo rodada praticamente toda em apenas uma locação com apenas 3 minutos fora da sala de reunião, e  sem nenhum flash do réu ou da visão dos jurados, a performance de cada ator traz quem assiste para dentro do ambiente tenso e dramático, o ideal para conquistar qualquer ser humano.

Parodiado e influente em diversas mídias e produções contemporâneas (de Os Simpsons até O Aprendiz) o filme fica mais atual a cada ano que envelhece. Num mundo envolto de violência e maus exemplos, o julgamento de um caso tão controverso como o do portoriquenho que matou o pai poderia ter sido acontecido nas mesmas circunstâncias tanto nos anos 50 como nos anos 2000.

Com um tema tão atual, 12 Homens e uma Sentença é um convite ao espectador refletir qual seria a posição dele caso se visse envolvido num julgamento como esse. Uma oportunidade de refletir como a justiça pode ser tão frágil quanto o ser humano que a representa.

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